terça-feira, 5 de agosto de 2014

O sr. Ego



 
Tenho pensamentos recorrentes que, por vezes, vêm numa avalanche que faz com que toda a minha atenção fique subjugada dentro das emoções retidas de cada memória. Ora, eu tenho muitas memórias na minha memória...

Depois de muito ter lido a respeito, nestes últimos meses, encontrei o nome que se dá a isto: viver dominada pelo ego.

Andei anos convencida de que o ego era uma forma de superioridade e de arrogância mas, pelo que parece, pode disfarçar-se de muitas maneiras e tornar-se o inquilino enraizado de formas-pensamento, estados emocionais ou mentais, que vai chutando, nos tais pensamentos recorrentes, o desagrado e a infelicidade que nos torna tão vulneráveis e prostrados, ao invés do causador deste mal-estar, próspero e gordo de satisfação.

Segundo Eckhart Tolle “o ego surge quando a sua noção de Ser, de “Eu Sou”, que é consciência sem forma, se confunde com a forma.”

O ego adora a forma deformada das coisas e faz finca-pé quanto à estratégia de ir debitando, naquela corrente incessante e cansativa que atravessa a mente, tudo o que quer que acreditemos que é feio ou desajustado para/em nós: o mundo, os outros, a vida.

Quando me deparei com este alerta percebi que o trabalho aplicado, com o objectivo de enfraquecer o sr. Ego, está ainda longe da sua acção definitiva.  Não posso dizer que tenha feito um mau trabalho, mas sem a devida instrução sobre como se desliga a ficha, é o mesmo que desconhecer o que eu sou na minha forma egóica.

Já passei por algumas situações-limite, em que perdi muito, quase tudo, grandes abanões e quedas, mas não cheguei a experienciar a Paz ou a Voz que muitas pessoas referem como a origem da reviravolta total nas suas vidas.
Antes pelo contrário. Esses momentos trouxeram-me angústia e medo, e isso pode querer dizer que, depois de uma determinada noção de identidade me ter sido retirada pelas circunstâncias da vida, o sr. Ego não ficou arruinado como devia. O que foi que ele fez? Identificou-se rapidamente com outras forma-pensamento e o meu Ser ficou preso na armadilha.

Reconheço a capacidade de luta do meu ego em relação a mim. Ele não desiste e eu deixo que sobreviva às minhas custas, e de que maneira...
O que interessa verdadeiramente a este hospedeiro oportunista é alimentar-se de uma identidade, seja qual for, desde que me incomode; da minha parte não entregando o que não faz parte de mim e não aceitando o que tenho e sou, faz-me gerar mais resistências fechando o meu campo de visão. É como se vivesse com as portadas da casa fechadas à espera de ver o céu azul que sei existir do lado de fora.
Assim está ele, o sr. Ego, todo enérgico, e eu cambaleante na minha peregrinação.

Acredito que “depor armas” e entregarmo-nos a uma outra consciência de nós mesmos, é o caminho para lá chegar, para pôr os pontos nos is ao sr. Ego e convidá-lo a sair deste alojamento com direito a reserva de admissão!

Meditar é um estado poderoso de limpeza e de abertura. Sinto, aos poucos, algumas mudanças (têm sido passinhos pequeninos), quanto às resistências a que este ego me sujeita. Sinto que vão sendo modificadas por uma energia diferente e que o vão enfraquecendo (sim, o objectivo é mesmo esse). Gostava que fosse mais rápido (sim, que fosse totalmente desintegrado e me deixasse respirar sem medo) porque esta convivência não me tem sido nada saudável, mas está a ser ao ritmo que consigo e isso é muito mais que nada.

Hoje, no jardim onde estava, dei ouvidos a um pensamento que se atravessou e interferiu na beleza que observava: senti-me a pessoa mais triste do mundo.
Arrepiei-me apesar do calor e quando começou a crescer aquela emoção ligada à tristeza (mais uma série de pensamentos prontinhos a serem disparados lá do covil-passado), apercebi-me do pequeno sinal que apontava na direcção deste boicotador: lá estava o sr. Ego a intrometer-se na minha alegria. Estaria a ficar com apetite de desgraças e achou que já era demasiado tempo para eu estar ligada a outras coisas que não a ele.
Não me fez chorar, não fiquei amarga, não me fechei no quarto.
Agradeci por esta experiência que me permitiu ver o quanto ainda tenho para realizar e sentir.

E um alegre passarinho voou rasante no jardim, fez uns círculos perto de mim e seguiu caminho. Foi uma aula prática sobre o que fazer comigo.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Compras de Natal




A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu. 

As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência. Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém. 

Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso. 

Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente susceptíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. 

Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade. 

Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorizantes para o suor da testa com que — especialmente neste verão — teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objecto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma. Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. 

Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. Todos ficamos extremamente felizes! São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. 

Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.


Cecília Meireles in Compras de Natal

domingo, 8 de dezembro de 2013

A estória da miúda no retrato - por Manuel Miranda

Uma cidade. Nessa cidade uma praça coalhada de gente a quem o tempo se abre e que rasga o seu caminho por entre emoções muito recentes e estonteantes, uma revolução, a conquista da rua e da convivialidade, as causas universais, o soutro ainda. Tribos distintas fazem destes espaços a sua casa, a sua verdadeira casa comum. De um desses cafés vemos afastarem-se dois jovens em direcção a um dos jardins que marcam a periferia da praça. Ela. Cabelos azeviche, marrafa cortada em sanefa, forma de trazer a linha do horizonte ao rés-dos-olhos. Ele. Risco ao meio em cabelos louros e longos, máquina fotográfica dependurada dum ombro que o denuncia como um ladrão de imagens. Os passos transportam-os a um jardim fechado numa acolhedora associação de estudantes, onde um velho leão de bronze retirado de antiga composição escultórica vigia do seu canto o espaço arrelvado. Ele havia proposto tirar-lhe um retrato, ela aceitara. Ele considerara existir naquele rosto vagamente egípcio algo de enigma, de fotograficamente urgente e tentador. Ela acolhera com bonomia a proposta. Agora sentados na relva conversam enquanto uma pluma de fumo evola entrecortada por pausas de inalação, cigarro cá cigarro lá, criando uma ponte entre os seus lábios. Ele vai explicando o dispositivo cénico que entretanto imaginou. Braço sobre a relva afastando-se do corpo, atitude de repouso e comunhão com a terra, terra-mãe a quem ela entrega o seu rosto, ainda mais alvo pela frescura contrastante do verde. Um cão. Que por ali deambula naturalmente inebriado pelos aromas que as chaminés das cantinas contíguas entregam ao exterior. Enquadrar, focar: o filtro negro necessário à captura da imagem em película de infravermelhos tudo escurece. E o cão. Atraído pela presença humana, irrompe pelo quadro e cobre de generosa lambedela o rosto que parece oferecer-se-lhe, forma de beijar própria da espécie. Um sorriso que se abre no rosto deitado. Cão e fotógrafo irmanam-se por momentos no espaço que vai do desejo ao gesto.
De resto. Não há quem dê por certo ter o cão virado príncipe. A jovem beijada visivelmente não adormeceu, antes rescende na sua peculiar beleza. O fotógrafo, impenitente ladrão de imagens, esse tratou de revelar a película, fazer provas e guardar por muitos anos o que roubou e agora humildemente vem restituir. 
Mensagem para o autor:  Obrigada pela foto, pelas memórias e pelo texto delicioso.
                                         Um abraço GRANDE e  GRATO 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Foto de Manuel Miranda tirada cerca de 1975 nos jardins da AAC

Aguardo pela estória que contarás, a propósito deste retrato, que me fez sorrir assim.
Obrigada Manuel!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

9 semanas depois

Sinto-me cansada.

Sinto-me sem esperança.

Sinto-me regredir na dor.

Sinto-me sem nada. 





quinta-feira, 27 de junho de 2013

Até chegar lá

Ao vivermos num estado de culpa permanente reagimos de duas formas:


a) - projectamos a culpa no outro (o que poderá dar uma aparente sensação de alívio, mas que comigo não funciona)
b) - aplicamos um auto-castigo, sabotando tudo aquilo que mais desejamos (adoecendo e tendo uma especial propensão para acidentes de vária ordem, que é o resumo da minha vida).

Impeço-me de analisar o cerne do erro e de aprender com ele. 
Quisera eu  pegar-lhe pelos colarinhos e abaná-lo até ficar nu e insignificante, mas tenho fugido de muitas formas, fugido da possibilidade de me consertar e de crescer com o que poderia aprender, embora tenha procurado de outras formas, a estabilidade na base dos meus frágeis alicerces. E procurei muito na espiritualidade...

O medo de enfrentar o que não quero ver e a impotência diante deste medo atira-me para um poço, o da culpa.

Na verdade, pelo facto de sentir que nunca fui aceite pelo que fui e sou, de perceber que não era capaz de corresponder às expectativas que esperavam de mim, de passar de fracasso em fracasso emocional, fui enfraquecendo e ficando extremamente manipulável no sector afectivo. 
Assim, tenho visto a minha liberdade  diminuir e a culpa aumentar.

Penso que, para já, o monstro nº 1 está identificado, só que ainda não sei o  que fazer. 

Estou numa sucessão de causas e efeitos incompatíveis com a felicidade.







domingo, 23 de junho de 2013

Oito semanas depois - Uma tournée e muitas viagens no tempo

Esta semana, para além das sessões que constam do programa do hospital, foi consagrada à "tournée" da Anima Tuna. As minhas colegas, juntamente com a equipa de enfermagem estagiária, fizeram concertos em várias escolas e, também,  na sala de palestras do hospital. 

Eu participei como fotógrafa da digressão.

Não conseguindo estar ligada à música desta forma, tentei não me excluir procurando um motivo útil. E que melhor senão o de registar as expressões que se abriram diante de palmas calorosas e elogios? As minhas colegas estavam felizes.

O público pequenino é muito exigente e reage espontâneamente quando a coisa não corre bem. A tuna foi um sucesso junto destas crianças que cantavam e batiam palmas com entusiasmo. 

Houve, porém, uma manhã em que eu não consegui participar. Os meninos do infantário, de chapéus amarelinhos, agarrados uns aos outros pelos bibes foram de encontro às memórias de uma infância que ainda não consigo superar. 
A Enf. C. que adora fotografia executou muito bem a reportagem.

Das muitas fotos tiradas seleccionámos 452. Destas serão escolhidas umas quantas para ilustrar estes momentos no jornal do hospital de psiquiatria. 

Aqui fica um cheirinho...




Prossegue o levantamento das portas da cidade (a menina dos meus olhos, da M. e da V.) que está em fase de revisão. 
Fomos ao terreno com as enfermeiras estagiárias para fotografar, tirar coordenadas com o GPS, visitas essas que se repetem para cumprir  o rigor que desejamos.

Uma das últimas saídas implicou um estratagema para identificarmos a localização de uma das portas que há muito não existe na zona ribeirinha. Seguindo uma iluminura de Pier Maria Baldi (séc.XVII) a M. com as enfermeiras Marlene e Catarina posicionou-se à entrada da ponte D. Luís, no sentido Tapada/Santarém.  A enf. Marlene (responsável pelo levantamento fotográfico) tirou várias fotos que centravam a cúpula da Igreja de S. João Evangelista situada no Alfange, apanhando postes de electricidade pelo caminho para depois se fazer uma linha até ao rio com um ângulo de 45º. Aí, e segundo o que a iluminura revela, estaria a porta desaparecida.

Fazia imenso calor, lembro-me bem... regressámos ao local das nossas investigações e caminhámos até chegar ao dito ponto. Mas não foi assim tão fácil. Precisámos de identificar os postes de electricidade pelo caminho, bem como alguma vegetação que se via nas fotos captadas anteriormente. Mas acreditamos que demos com a Porta das Almas, hoje um local de vegetação por cima de um muro.

Estas portas foram totalmente destruídas aquando da construção da linha de caminho de ferro, no séc.XIX, o que gerou muitos protestos por parte da população.

Aliás, nesta altura, a destruição era a palavra de ordem em nome de uma modernização que depois utilizava a pedra das muralhas e portas para calcetar as ruas ... a este propósito escreveu Alexandre Herculano:

Santarém, sendo uma das povoações do reino mais rica em monumentos, parece que por isso mesmo tem merecido mais o ódio de certa gente, que das três potências da alma, memória, entendimento, e vontade, só admite a última; e com razão: porque, para fechar e descarregar uma camartelada, é mais que suficiente.


 Por aqui foi a Porta das Almas

 Aqui ainda se vêem vestígios da Porta de Palhais

Entre o final do muro à esquerda e as árvores foi a Porta de Valada


Este trabalho, por tudo o que implica, é apaixonante. De uma bibliografia passamos para outra fonte, mais o contacto com arqueólogos e historiadores que trabalharam neste tema, mais uma ida ao núcleo museológico, mais um pedido de esclarecimento nas dúvidas que se colocam, porque somos leigos e queremos muito aprender, sobretudo fazer uma apresentação dos acontecimentos o mais rigorosa possível.

Penso que quando se conhece melhor o local onde vivemos mais respeito e admiração lhe temos, mais cuidado com a sua preservação desejamos. E eu desejo que tudo isto não se perca porque foi fruto de muito trabalho e sacrifício daqueles que a história não reza, da maioria que não tem o nome gravado em placas comemorativas, os anónimos insubstituíveis e indispensáveis na construção de um tempo.


domingo, 16 de junho de 2013

Início do caminho ou o encontro com os monstros de estimação

Durante muito tempo procurei nos outros algo que me completasse. Queria ver através dos seus olhos a avaliação que fazia de mim mesma. Erro. Coloquei qualquer possibilidade de ser feliz nas mãos que, não sendo as minhas, pouco puderam fazer. Só dependia única e exclusivamente de mim.

O que isto deu foi algo parecido com:  se for amada é porque sou boa pessoa, se não for é porque sou lixo.

E cá estou, a separar o lixo interno de culpa e julgamento acumulados, depois de anos de castigos e auto-sabotagens...

Eu sentia o meu desejo de liberdade inexplicavelmente grande e o facto de não me apegar muito a  grupos e mentores já era o início do caminho. Mas o medo dos meus monstros foi maior.

Mais cedo ou mais tarde chega a hora de nos olhar e descobrir quem verdadeiramente somos.

Não faço ideia do que vou encontrar, mas preciso de fazer a minha parte.




sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sete semanas depois e um deus que não existe



Semana difícil. Parece que regredi. Não sinto que tenha sido abençoada pelo que tanto procurei.

No refeitório do hospital olhei com horror para o que não queria.

Tolerância ZERO para o João Moura jr. um energúmeno em crescimento.

Aguardo que a providência  o coloque fora de órbita antes que cresça demais e espero  que sofra lenta e profundamente como o vitelo que serviu de publicidade para os seus cães .

Tolerância ZERO com monstros iguais ao jogador argentino que atirou contra a bancada um pobre cão indefeso.

Tolerância ZERO com tudo o que se está a passar sobre um mundo perigosamente vulnerável onde uma grande maioria vive mal desde que o mundo foi criado.

Deus dorme descansado, sem interferir, fazendo-nos gozar do tal livre arbítrio que não serve para nada, quando o mais forte descarrega, como sempre, de forma insana e violenta.

Sabe, sr. deus, sempre que os meus filhos eram ameaçados, fosse por quem fosse, eu atirava-me de cabeça e defendia-os.
Não é isso que o vejo fazer com nenhum de seus. E o sr é perfeito, eu não.
O sr. não passou anos com depressões que o tornaram incapaz de velar pelos que ama.


Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus e que ele não existe realmente - Madre Teresa de Calcutá

sábado, 8 de junho de 2013

Seis semanas depois

Depois do ciclo completo de sessões, sobre o nosso transtorno psicológico e seu tratamento, ficou-se com uma ideia da situação que cada doente enfrenta.
Não quer dizer que consigamos seguir a par e passo - e neste ponto falo exclusivamente por mim e das incapacidades ainda existentes – mas reconheço que as horas que passámos durante este mês de internamento, com o psiquiatra João da Cruz, foram importantes para confirmar que há uma psiquiatria que dialoga e explica as nossas dúvidas e temores.
Continuo a não aceitar cegamente a terapia da medicação. Acredito que no início de uma depressão sejam necessárias algumas “drogas” para os níveis de ansiedade descerem e o descanso cerebral ser reposto mas, atingido esse propósito, outras formas devem ser aplicadas na reabilitação do doente.
Não falo em cura porque, sinceramente, acho que é uma doença crónica. Falo numa “desintoxicação” de emoções negativas e falta de perspectivas de vida que podem ser revertidas. Isso a medicação não faz. Não limpa a nódoa deixada pela dor. Não arranca a raiz dos problemas e dos traumas que a causaram. Adormece-os por uns tempos, o tempo que se consegue aguentar sem dor, até novo embate por essas experiências vividas. E embora, depois destas sessões, os sintomas precoces de alerta tenham ficado mais fáceis de identificar bem como o respectivo plano de prevenção de recaídas, na minha opinião nada  impede que um novo  mergulho na escuridão depressiva suceda.

As tácticas de distracção anti-angústia não deixam de ser válidas – dar uma caminhada, ler um livro, falar com alguém, ter um hobbie – mas depende em muito do quanto ela pesa e dos fantasmas que a empurram para nos subjugar. Depende de nós e dos outros.

Eu queria enfrentar esses monstros que convivem comigo já há demasiado tempo. Perceber o porquê de tantas escolhas mal feitas, de tanto complexo de culpa, de tanto falhanço com os outros, de padrões que me levaram a repetir a credulidade de ser aceite e amada sem, no entanto, o conseguir, o porquê de não ter tido uma família, o porquê de caminhar para o precipício sem ver onde ponho os pés, o estar quase a chegar a algo feliz e tudo se desfazer, o porquê de tanta escuridão na minha busca pela luz.
Lamento que os profissionais especializados na regressão e hipnoterapia não pratiquem nos hospitais. Também isto é um negócio... e a forma de seleccionar os que podem e os que não podem, por questões monetárias, encontrar uma cura ou repetir internamentos, é profundamente injusto.
Olho para cada uma das internadas e sei que todas têm um imenso desejo de viver, uma capacidade extraordinária de amar a vida que a maioria não entende e, por isso, rotula levianamente.

Quando alguém tenta o suicídio, por exemplo, as “vozes sãs” da sociedade consideram a maior das fraquezas e cobardias. Eu não acho.
Quem ama desta forma incomensurável não encaixa a dor que lhe está proporcionalmente relacionada. São seres raros, de enorme coração, logo extraordinariamente indefesos mediante uma palavra, uma atitude, um golpe de maldade dado por outrem. Esta fragilidade é confundida, normalmente, com fraqueza e da fraqueza nasce o descrédito que se espalha sobre estes seres com tanto para dar.
Tenho testemunhado habilidades e dons que vocês, comuns mortais, nem imaginam.
A maioria das actividades são feitas em conjunto e os casos que levaram a pessoa fechar-se numa redoma de quase loucura revelam-na perspicaz e assertiva num raciocínio analítico, consciente de detalhes que mais ninguém vê mediante um enigma, sorrindo sinceramente quando tocada por algo que a faz sentir especial. Vejo isso na psicomotricidade, no relaxamento, na estimulação cognitiva, na terapia ocupacional, na participação interessada destas aulas de psicoeducação.
Eu não quero ter alta e muitas das internadas também não. Esse dia é pensado com temor. E embora haja quem sinta saudades da sua casa e dos que lhes são mais próximos, nota-se sempre um abatimento quando a novidade é dada pelos médicos.
Funcionamos numa comunidade que aí fora não existe. O conceito de interajuda é real. Dar apoio a quem se sente pior, num determinado dia, é verdadeiro. Não há falta de tempo nem sensações de impotência com o mal estar dos outros.
Os outros que estão por fora assustam-nos. Eles desconhecem os sintomas que sentimos e a forma como procuramos estratégias para os resolver. Não compreendem o esgotamento que nos toma depois de tanto tempo sob emoções encapeladas. Não vêem para além do seu extremo egoísmo por dentro da sua vida plástica. Não valem nada. Não sabem nada de nada.
E é neste preciso ponto que entra o que se designa por competências sociais e a gestão de conflitos.
Por mim mandava esta gente toda à merda porque quando me explicam que:
- reflectir
- ouvir a outra pessoa mostrando compreensão e atenção
- reduzir a hostilidade
- expor a nossa perspectivas
e por fim dar o passo para
- negociar
eu pergunto: mas não foi isso que tentei desde que nasci? Porque será que desisti de o fazer?
O psiquiatra reforça que prestar atenção ao que estamos a sentir é o passo inicial para chegar à capacidade de controlar as emoções e sentimentos ou seja, autocontrole. O nosso futuro melhorará se não agirmos por impulso.
Este instinto primordial tem a sua origem na amígdala, localizada no sistema límbico, identificadora do perigo e que, mediante as situações, nos leva a atacar ou a ser atacados.
A esta marca de sobrevivência, que se mantém desde sempre, para que não seja activada de forma automática, gerando resultados imprevisíveis, deve juntar-se o exercício de autocontrole a fim de não sermos escravos dos nossos instintos.

Existe o oposto – autocontrole excessivo – prejudicial pelo bloqueio que causa favorecendo um descontrole no futuro...

Um conflito – prossegue o psiquiatra - gera sentimentos negativos direccionados à outra pessoa levando-nos a agir de forma mais agressiva. A capacidade de reflexão dá-nos algum tempo para saber o que fazer perante as circunstâncias, mas também depende do estado de espírito em que nos encontramos.
Podemos modelar a nossa forma automática de agir, mas é verdade que não o podemos fazer em relação à forma de agir dos outros. Ao mudarmos a nossa perspectiva e expondo-a podemos chegar ao passo da “negociação”.
Os instintos são inatos. O autocontrole ou força de vontade é o que nos diferencia dos outros animais, permitindo-nos ter controle sobre os instintos:

- autocontrole 
- compromisso e negociação 
- sair de uma situação de stress
- discordar sem discutir
- responder a acusações falsas

Ao reler os apontamentos durante o intervalo concluí que não sei o que fazer com isto. Negociar o quê? O que me foi interdito e continua a ser?
Optei por me afastar de qualquer tentativa de colocar os meus pontos de vista à consideração de quem me magoou. Não sei responder a acusações falsas com autocontrole. O meu instinto diz-me para permanecer longe de quem me quer alienar.

Recorri ao meu bem amado Teixeira de Pascoaes para nunca me esquecer:
A finalidade da vida é a definição da existência. E digo finalidade, porque todo o esforço da Natureza se dirigiu e dirige num sentido humano ou consciente. O destino do homem é ser a consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus. O homem é ele e o seu habitat. É céu e terra contidos numa definição espiritual ou consciente. O homem, sonhando, transborda de si mesmo, amplia o mundo, porque ilumina as suas dimensões desconhecidas. O sonho é alta temperatura, um estado térmico da alma, a sua incandescência. O absoluto é dos poetas e o relativo é da ciência. O sábio observa, analisa, decompõe; o filósofo generaliza, dá o conjunto; o poeta dá o significado anímico das coisas, a sua própria natureza. A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade fria da razão “
É disto que se trata no nosso mundo invisível, entre as paredes de um hospital psiquiátrico, de um quarto onde ninguém entra, da nossa cabeça.  
Mostramo-lo à nossa maneira.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Dor crónica

Pensar no perdão é impensável, apagar o que me feriu é impossível.

O passado não ficou no seu devido lugar.

Não consigo viver o presente, não consigo libertar-me. 

A dor roubou-me o futuro.





sábado, 1 de junho de 2013

Cinco semanas depois

Competências Sociais ou a importância de nos relacionarmos com os outros.


Este tema pareceu-me muito complexo e difícil.
Com o desgaste gerado por uma comunicação deficitária desde a minha infância e adolescência (nunca se conversava na família. Os tons irritado do meu pai e recriminatório da minha mãe, empurravam-nos directamente para a discussão) e pelas desilusões pessoais posteriores, coloca-se a dúvida sobre esta incompetência comunicativa se ter tornado num traço do meu carácter e se, com o treino que se pretende com estas sessões,  é possível atingir o que sempre foi tão inacessível: sentir-me melhor na coexistência com os outros.
Segundo o psiquiatra, a gestão de conflitos proporciona satisfação no relacionamento social sem a interferência de mágoas, ansiedade e a costumada frustração de não compreendermos nem sermos compreendidos.
Ora isso já eu imaginava. Soa bem.
Como reagimos perante um conflito?
a) – afastamo-nos da discussão
b) – respondemos na mesma moeda (entrando na discussão com agressividade)
c) – ignoramos a discussão

Eu fui muito b) e passei para  a)
Mas não me sinto bem em nenhuma das formas
Ignorar também não consigo. Fica tudo registado, o que me provoca muita ansiedade e ressentimento.
Perguntei se isto, a falta de jeito para falarmos com os outros num momento crítico, é uma desvantagem química ou algo mais.

O psiquiatra explicou:


O stress não altera os genes, mas contribui para a vulnerabilidade... pode desorganizar a parte química do cérebro.


E depois acrescentou: 
Com o tempo vão-se perdendo capacidades na organização do pensamento, à conta dos surtos e crises.

Então é isto? Somos um mundo químico? A inteligência, a filosofia, a poesia, a arte, Epicuro, Confúcio, Einstein, Sartre, Sophia, Eça, Baush, Mozart, exprimiram-se por um consentimento  químico?
Como explicamos o medo e as emoções? Como podemos colocar dúvidas e estimular a arte de pensar?

Não estou nada sossegada  quanto ao assunto, e menos ainda por imaginar que o meu cérebro químico, de tão danificado estar, pode não "querer" evoluir para  coexistir com o resto.

E sendo assim, "mesmo a calhar", esta semana vivi um episódio no âmbito deste assunto:
Cortei com uma pessoa (a única que me mantinha ligada à área profissional) que me decepcionou muitíssimo. Alguém, de quem esperei, ao longo deste mês de internamento, uma maior compreensão sobre a minha miséria interior e não provocasse uma situação de maior vulnerabilidade.
Outro "marco" no meu caminho de perdas, outra ferida que precisa de sarar.

Agora sei que o meu retorno à música, já muito remoto, não se fará.
Esgotaram-se as hipóteses de confiança naquela parte da "máquina" que me organizava a vida  para eu poder ser o que era. E isto é tudo tão estúpido. Porque se magoa uma pessoa que está doente?

Sei que sou demasiado sensível. Sei que não possuo  um escudo emocional. Quando sou ofendida fico com a minha vida estragada. Sinto-me numa prisão de medo. Vivo com uma tonelada de culpa. Sinto dor física pelos que vivem maltratados. As memórias perturbam-me. O pânico e não aceitação da morte torturam cada dia que vivo.

Onde está a parte química do meu "disco rígido" para deletar?


Houve uma saída a Lisboa com o grupo de internadas, terapeutas e médicos. Não fui por falta de entusiasmo. Lisboa ainda permanece confusa para as minhas possibilidades de orientação e a ideia de visitar ao Pavilhão do Conhecimento não me entusiasmou. Iria chocar com as visitas que eu programava com os meus filhos e todas as memórias de quem teve alguma coisa e agora não tem nada. Preferi ficar com os meus livros e rever o trabalho que estou  a desenvolver com a M., V., P. e R. sobre  a história da cidade.

Já andámos pelo terreno para realizar o levantamento das coordenadas, que vão sinalizar com precisão o que vai ficar no mapa, bem como o registo fotográfico dos locais. Passámos a contar com o apoio da câmara municipal para a sua elaboração, e o projecto foi bem acolhido quando se transmitiu a vontade  de se criar uma parceria.

Quem vier de futuro ficará a saber onde se situam as 14 portas da cidade, os bairros mouro e judeu, assim como os seus templos de culto.

A equipa de enfermagem e de terapeutas tem sido incansável e muito organizada. No meio de tantas actividades diárias há sempre o cuidado de nos proporcionar o tempo que necessitamos para trabalhar no projecto.

O jornal trimestral editado pelo serviço de psiquiatria foi-me dado para paginar e modificar gráficamente. Assim, enquanto os ensaios da tuna se vão realizando ficarei resguardada, mas a produzir uma coisa que me dá prazer.
Vontade de cantar - 0

Ontem tive um momento feliz. 
Voltei à ASPA com uma voluntária que me pediu para a ajudar. 
O caso é o de um gatinho bebé, abandonado no Cartaxo e que a APAAC (Associação de Proteção dos Animais Abandonados do Cartaxo) vergonhosamente não quis recolher, que precisa de ser amamentado. Todos os voluntários se têm revezado para o fazer.

Eu sei que quem me ajudou foi a voluntária. Intuiu que aos poucos e no meu rítmo posso colaborar. E estou-lhe muito grata por isso.

Aquele corpinho minúsculo embrulhado no meu colo abraçava o biberão com as duas patinhas a mamar sofregamente. Depois, já saciado da fome, começou a querer brincar. Deu uns passinhos desajeitados, esticou as patinhas de encontro os meus dedos que corriam à volta dele para lhe fazer cócegas e mimos. Limpei-o com um toalhete como as mães gatas fazem com a língua. Senti-lhe o ronronron junto ao meu peito.  
Meu pequenino lindo, quero-te muito. E estás no lugar certo.  
A boxe dele tem uma bela caminha amarela, brinquedos, a caixinha de areia que ele utiliza muito afoito, a tacinha de água, e ainda sobra muito espaço para explorar a sua curiosidade de bebé.

Eu sei que vai ser muito feliz. 
Ter sido rejeitado não lhe vai diminuir a confiança para viver com um humano. Ele saberá gerir qualquer conflito futuro...


Eu e Davi, numa foto recente. 
Este gatinho tão maltratado que foi, também é um exemplo de sucesso na gestão de conflitos.
O que ainda há para aprender com eles é tanto...