terça-feira, 7 de julho de 2009

Lula Pena

Lula Pena.
Adoro a voz desta mulher.
Cantou no palco 2 depois da Orquestra Imperial ter levado os tais "clássicos de salão" ao palco 1.
Não me vou deter muito sobre eles. É música brasileira, adere-se com facilidade à dança mas, dentro do género, prefiro a Música Ligeira.

Lula Pena é de uma intensidade arrepiante. A voz grave e o vibrato invulgar não parecem deste mundo. Sempre a achei muito mais do que uma cantora que toca guitarra, ou do que uma intérprete de fados e tangos. Ela é feita disso tudo mais aquele "it" que uns têm e outros não... Está a horas luz do reduto mortal. Ela é tronco, raiz e copa. Ela é pássaro e lince. Ela é complexa. Labiríntica. Etérea. Visceral.

Estava a fazer o soundcheck quando cheguei ao Jardim. Final de tarde, algum vento, com os meus pensamentos dirigidos para o trabalho da barraquinha e a imaginar como se iam dispor as mesas para o jantar. Pareceu que o mundo dava uma volta ao contrário. Fiquei ali parada a desejar ser invisível. Lula Pena, sentada numa cadeira, pedia mais som nos monitores, fechava os olhos e cantava com tudo o que tem. Para mim, aquele momento já foi o espectáculo. Senti-me privilegiada e quando mais tarde me apercebi que não ia poder assistir ao momento grande da noite, sorri. Ok, levas uma dor de costas, mas ouviste a Lula sem entremeadas pelo meio!


segunda-feira, 6 de julho de 2009

Mousse de Musafir

Quando cheguei à nossa barraquinha estavam a ser descarregadas caixas de frutas oferecidas por mão amiga. Começámos de imediato a descascar e a cortá-las em pedacinhos. A ementa incluía, graças a esta oferta, a novidade de dois tipos de sangria: champagne e vinho. E uma salada de frutas deliciosa. Da cozinha chegava o aroma da sopa da pedra a acabar de fazer e as sardinhas, vindas de Peniche, estavam a ser colocadas no grelhador a carvão. No outro já se assavam febras e entremeada.

No palco 2 os "Ganhões" de Castro Verde davam início à festa. O Alentejo cantado por quem conhece os sinais da terra e sabe o que é o suor do trabalho. O nosso povo é assim. Alma de artista que traduz a vida, que nem sonhamos, de forma simples e tão profunda. E depois aquelas vozes. Aquelas vozes com o mundo lá dentro, que me trouxeram à lembrança Zazou e as polifonias da Córsega. A primeira vez que ouvi Giramondu achei que era o nosso Alentejo dentro de uma ilha e num dialecto desconhecido.


Voltei de novo para as mesas assim que os jantares começaram a sair. E foi em catadupa, não havia mãos a medir! Já não tinha o tabuleiro amarelo que, de tanta loiça carregar, rachou ao meio. Fui buscar outro, todo florido, que me deu mais segurança nos "lás e cás" entre a copa, bar e mesas. A broa, de tão fresca, dificultava a forma perfeita das fatias. Tentei cortá-la o melhor possível com a faca de serrilha mas, de quando em vez, lá ficava com um bocado a menos...

A ementa, como sempre, saborosíssima. Os doces, um triunfo! De tal forma que em pouco tempo da cozinha avisaram: "baba de camelo foi-se", "acabou a mousse de chocolate", "doce da casa já era", "é preciso avisar no pré-pagamento que a última taça de arroz doce vai para aquela mesa". Consegui salvar, empenhadíssima, uma mousse de manga para uma das minhas mesas, porque até me senti culpada de não ter conseguido arranjar a de chocolate, que me tinham pedido... e fui a tempo. Daí a nada, já nem de manga...

E nesta andança entre sobremesas e cafés chegam os primeiros sons das tablas. Fiquei de ouvido à escuta. Ia adivinhando o que se desenrolava no palco. Num pequeno intervalo fui espreitar e fiquei de olhos vidrados.



No palco principal, um pedaço de Rajastão itinerante. Uma dançarina, qual deusa, equilibrava bilhas de água por cima de copos empilhados na cabeça. As mãos ondulavam num prolongamento do som do harmónio, os movimentos graciosos seguiam a escala complexa do cantor. Fascinante!

Não pude alongar a minha "viagem" e não cheguei a ver o faquir. O movimento gastronómico não diminuía. Havia uma fila considerável à espera de mesa e regressei de imediato assim que os satisfeitos davam lugar aos esfaimados.
Pensei que, se fosse como a dançarina do deserto, o meu tabuleiro podia levar todos os pedidos de uma vez só e mais alguns extras. Mousse de Musafir...

domingo, 5 de julho de 2009

Segunda noite das festas

O Jardim das Rosas encheu.


Uma noite de lua-quase-cheia mais a temperatura agradabilíssima, ajudou à festa repartida por 3 palcos sucessivamente.


No grande, o Festival de Folclore com os 5 grupos anunciados. Vi uma das nossas voluntárias, que não pode auxiliar na cozinha por razões óbvias, a dançar com muita graciosidade as modas desta zona. Mas, sem dúvida, o Fandango é a ex-libris ribatejana. É admirável a rapidez e perícia daquele sapateado em jeito de "duelo".


Muitos jantares a servir. A verdade é que a música também incita a outras manifestações que não só a dança. As pessoas ficam com mais apetite! Foi o que aconteceu com a quantidade de jantares servidos até horas tardias.


As Tucanas começaram por volta das 23h (não posso assegurar porque andava de tabuleiro em riste). Assim que pude (depois dos cafés servidos) fui espreitar o palco 2 (a sorte que tenho é a nossa barraquinha ficar entre os dois palcos!).


Cinco miúdas lindíssimas, com uma proposta incomum fascinaram a audiência que dançava e pedia mais. A fusão triangular do canto e do ritmo levou-nos por caminhos encantatórios a perder de vista. A noite com as Tucanas ficou perfeita!


Voltei à realidade e fui dar continuidade ao meu serviço (assisti a 2 temas e o resto ouvi mesmo ali ao lado a bulir).

Os TNB actuaram no palco 3, que fica mesmo em frente ao nosso posto de trabalho. Um grupo de rap mas, confesso, não gosto de rap, embora o prefira ao hip-hop... experimente-se passar uma tarde com a MTV ligada. Tudo igual, dos gestos à pretensão do protesto, passando pela vulgaridade das dançantes/acompanhantes e aquele gosto inexplicável pelos oiros em forma de correntes, cachuchos, brincos e dentes revestidos a platina e, claro, os carros desportivos de gosto duvidoso, mas caríssimos. Eu fico a pensar: mas protestam sobre o quê???????????? Estão contra quem??????




Vejo e oiço uma coisa feita a metro, igual de cima a baixo, monótona, zangada e lamurienta. Samplam os que tiveram as ideias e metem por cima a falta delas... naaaaaa !
Quanto aos TNB achei-os preferíveis aos mega stars porque a arrogância e opulência era menor. Musicalmente, como digo, não posso opinar. O facto de não gostar deste género impede-me de ser imparcial.
Exemplos

sábado, 4 de julho de 2009

Na barraquinha


Ontem começaram as festas da cidade.


Estou a servir às mesas da barraquinha das Paróquias de Torres Novas com outras voluntárias. Todos aqui são. Trabalha-se segundo a habilidade e vocação. Temos 2 experts no grelhador a carvão, várias senhoras na cozinha onde preparam com mil cuidados os pratos requisitados e uma espécie de "coyote girls" no bar, onde servem bebidas para todos os gostos.

Eu e as minhas colegas de mesa andamos com as senhas dos pedidos entre a copa e o bar e tabuleiros de várias formas e feitios (o meu é amarelo!) que levam e trazem uma variedade de coisas.


A ementa é deliciosa. Sopa (da pedra, feijão com couve, caldo verde), saladas coloridas a acompanhar sardinhas, entremeadas e febras, batatas fritas e cozidas (feitas na hora), doces caseiros (brigadeiros gigantes, gelatinas de fruta, baba de camelo, bolos à fatia, semi-frios, mousse de chocolate)...


Depois de vestirmos as camisolas vermelhas e azuis com o logótipo da paróquia começa a lide! Andamos ligeirinhas porque queremos servir todos os pedidos e o mais rápido possível, fazemos equilibrismo com as loiças para libertar as mesas, tê-las sempre limpas e preparadas para os próximos clientes. Se uma está a atender as mesas que lhe foram atribuídas em simultâneo, vai logo outra dar uma ajuda no que for preciso. Por vezes, não conseguimos evitar dar um pezinho de dança, porque não há cansaço nem mau humor, que sobrecarregue o nosso estado de espírito. Tudo isto obedece a uma coordenação e cooperação entre todos. Trabalhar pelas causas normalmente resulta assim.





Gostei, especialmente, dos Konono nº.1 e dos Pontos Negros. Entre África ancestral com distorção e o rock de "paixões com acne" senti que os caminhos são muitos para a mesma linguagem. E na música assumimos todas as diferenças porque sentimos, no corpo, que são genuínas.


E agora lá vou eu...! :-))

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Sophia


Soneto de Eurydice


Eurydice perdida que no cheiro

E nas vozes do mar procura Orpheu:

Ausência que povoa terra e céu

E cobre de silêncio o mundo inteiro.


Assim bebi manhãs de nevoeiro

E deixei de estar viva e de ser eu

Em procura de um rosto que era o meu

O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés, nem na miragem

Eu te encontrei.


Erguia-se somente

O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente

Como morte nascida à tua imagem

E no mundo perdida esterilmente.

terça-feira, 30 de junho de 2009

How does it feel?

I was wandering in the rain
Mask of life, feelin insane
Swift and sudden fall from grace
Sunny days seem far away
Kremlins shadow belittlin me
Stalins tomb wont let me be
On and on and on it came
Wish the rain would just let me

How does it feel (how does it feel)
How does it feel
How does it feel
When you're alone
And you're cold inside

Here abandoned in my fame
Armageddon of the brain
KGB was doggin me
Take my name and just let me be
Then a begger boy called my name
Happy days will drown the pain
On and on and on it came
And again, and again, and again...
Take my name and just let me be

How does it feel (how does it feel)
How does it feel
How does it feel
How does it feel
How does it feel (how does it feel now)
How does it feel
How does it feel
When you're alone
And you're cold inside

How does it feel (how does it feel)
How does it feel
How does it feel
How does it feel
How does it feel (how does it feel now)
How does it feel
How does it feel
When you're alone
And you're cold inside

Like stranger in moscow
Like stranger in moscow
Were talkin' danger
Were talkin danger, baby
Like stranger in moscow
Were talkin' danger
Were talkin' danger, baby
Like stranger in moscow
Im livin lonely
Im livin' lonely, baby

Enquanto se espera por um funeral planetário (mais dolares a entrar nos bolsos-dos-parasitas-do-costume e familiares) espero, sinceramente, que a alma desconcertada de MJ se tenha libertado. Como se sentirá?