Holoteta é uma pessoa ligada ao computador da nave espacial que, através dos seus pensamentos, dirige a sua deslocação "por meio de um conjunto estabelecido de curvas através de uma série conhecida de configurações". Algumas holotetas transcendem a mera experiência de ligação com o computador. in O Bailado das Estrelas de Spider e Jeanne Robinson (1979)
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Protesto II
Ok, dei-lhe tempo suficiente. Fui uma felina cheia de paciência, calma e sangue frio. Tentei que as coisas fossem ao lugar e ele ficasse no seu lugar, o que até nem seria difícil, se fosse um felino a sério... mas não. Os dias passam e nada muda. Um estouvado foi o que trouxeste para casa, um estouvado com pilhas que nunca acabam. Agora tomou-me de ponta, acha-me distante (claro!), superior (é evidente!), da realeza (sem dúvida que sim, tenho sangue abissínio da 4ª geração) e porque sou uma gata especial inferniza-me a vida. Estou a ficar à beira de um esgotamento. Olha bem para a minha cara, vês estas rugas? Sim, aqui junto aos bigodes. Até ficaram mais descaídos e porquê? Por causa dele!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! K E R O U A C . Até me arrepia o nome. Não digas que tenho mau feitio, que tenho a mania da perseguição. Gosto de coisas que os gatos vulgares não gostam e devo ser respeitada. Não quero fazer exercícios forçados a correr e a saltar como uma louca à frente dele, não quero passar o tempo debaixo do móvel à espera que lhe passe o vipe, que é a todas as horas do dia, não vou tapar o que ele deixa por cima da areia, não nasci para escrava! Não o quero no nosso quarto e tu tens muito a mania de o trazer ao colo como um bebé e depositá-lo ao meu lado. Já sabes que nessas alturas fico danada e saio porta fora. Prefiro ficar sozinha na sala a ter que dormir sobressaltada ao lado desta coisa que nem sei como chamar. Ele lá e eu cá. Isto não é a casa-da-Joana... eu quero as coisas como estavam, com sol ou com chuva e poder estar na varanda o tempo que quiser, os livros e cadernos espalhados na secretária e cheirá-los à minha maneira, a tampa do portátil aberta e eu deitada sobre as teclas a fazer a sesta, as manhãs de sábado a investigar os sacos de compras como sempre fiz, sem intromissões, ficar dentro da banheira horas infinitas a brincar com o chuveiro ... podia fazer uma lista de razões, mas já chega. Não quero que tenhas nenhum desgosto, por isso estou a miar há uma série de tempo e não é para me fazeres festinhas por baixo do queixo, é para ver se entendes que se isto não muda saio de casa. Ai saio, para nunca mais voltar. Olha aqui, olha para isto. Estou pela ponta dos meus pêlos, que eram negros sim, eram, olha o tufo branco que me apareceu.
sábado, 12 de dezembro de 2009
O Rumor da Borboleta
«Atenienses, vejo que sois, em tudo, os mais religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: 'Ao Deus desconhecido. ‘ Pois bem! Aquele que venerais sem o conhecer é esse que eu vos anuncio. “ Act 17:16-23
O sorriso iluminou-se num gesto de agradecimento e lembrou o motivo que a conduziu àquele lugar. Ajoelhou-se sobre a erva orvalhada ao mesmo tempo que o rio passava entre as margens sinuosas.
Sabia que algures um bosque de carvalhos a aguardava em silêncio sob a agitação do vento. O vento, força irredutível sibilante, desafiava o rumor da borboleta. As suas asas ora pairavam como estilhaços de porcelana ora se uniam no puzzle concluído. Nestas alturas todas as evocações felizes levam para longe qualquer fim ameaçador. Deixar existir um sonho que se transporta em condições adversas sem nenhum fragmento destruído é tarefa delicada. Porque os temporais não são coisas que se inventem, eles existem neste nosso mundo. Não é o relâmpago que assusta, mas a sua própria natureza de relâmpago.
Encostou o rosto à terra, sentiu-lhe o coração vindo das profundezas e pensou como seria se se anichasse no ínfimo intervalo entre a luz e a sombra. Com que intensidade iria essa luz e sombra passar por aqueles que viajam à janela de um comboio?
Recuperou o folgo e decidiu subir pelo carreiro e escalar fragas com os pés descalços. Inspirou o silêncio na estrita observância dos charcos de água, das metamorfoses internas, do granito e da vigília dos astros e sentiu um imenso amor por tudo o que existe.
Uma folha itinerante chegou à terra, um coração incendiado levantou voo. Querer ser tudo ainda não sendo nada… Uma voz de reza ergueu-se dos blocos escarpados. Absorvida naquele mistério, a meio do ermo crepuscular, olhou em volta cheia de infinito. Que solidão deslumbrante a sua na paisagem! Emana da terra uma mística esculpida de névoa. Lágrimas azuis misturam-se na harmonia e palavras ocultas são desvendadas.
Recitou baixinho (...) E, nos seus olhos dum negro sério e místico, sorria a infância, a idade de oiro. A saudade aprende a escutar as vozes do silêncio, uma poesia transcendente que chega à face dupla do céu; uma que se liga às raízes, outra que repousa na harmonia. A memória interpreta a profecia como a autêntica realidade, o mistério da alma e das coisas… em tudo se revê na origem do que parte e do que chega.
Surgiu uma legião, não a que entrou por terras lusas... uma outra que desceu dos céus da avenida de Roma. Havia quem dissesse que ensaiavam ali para não fazer barulho em casa, mas eu acho que foram as canções. Queriam seguir as primeiras estrelas da noite e derramar-se sobre todas as coisas visíveis e invisíveis.
*
Música: Sétima Legião - A Um Deus Desconhecido, 1984
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Ary
Se o poeta fosse vivo teria feito 73 anos. Dia 7 de Dezembro, Rua da Saudade...
Poeta castrado não!
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Poeta castrado não!
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
(É assim que o recordo!)
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Voz de Dentro
A lembrança suspensa por um fio cola-se à nostalgia desvanecente. Enrolada em mim, testa nos joelhos, braços em cruz, punhos fechados, vejo imagens confusas através da parede. Já quase sem as poder distinguir apuro o ouvido. Se um dos sentidos não está aferido outro tornar-se-à preciso. Preciso saber que lugar ameno é este. Quanto tempo? Quase 273 dias… Cansa-me esta imensidão aquática. Não vejo o sol nem a lua. Não vejo para fora. Episódios vagos tracejam uma forma de vida nómada, faminta, colorida, de movimentos que aqui não consigo manter coordenados. Dançava entre o deserto, meu mundo, e alguns oásis de madrepérola rara. Uma icharb ondulante deixa revelar cabelos de Henna. A salguta instiga o bendir. Os snujs afugentam os maus espíritos. Uma rota talhada como o nay. Um sopro divino uno.
Não me apercebi da mudança, mas já anseio pelo que ainda não sei.
Algo me acalma. Parece ser uma voz. Sim, canta para dentro. Quero espreguiçar, abrir estes braços, desfazer esta forma de novelo que sou, preciso estender-me como o deserto. A voz junta-se a outras. Alegram-me e entristecem-me.
Numa madrugada abafada fiquei ansiosa. A voz que cantava para dentro calou-se. Senti um tumulto de águas medonhas. Tive medo, tive curiosidade. Havia dor e foi a primeira que senti. Fui lançada e puxada. Vozes indistintas troaram aos meus ouvidos. Viraram-me de cabeça para baixo, aprendi o primeiro choro. Não conheço ninguém. Embrulham-me em panos que não são abaias. Mas, o que são abaias? Estava a lembrar-me de quê? Algo suave como uma mão faz-me festas na cara. Sinto o perfume de jasmim e rosas de uma memória antiga que agora volta ao princípio.
" É uma menina! Tem olhos de amêndoa."
Um som curioso distingue-se do resto. Sei o que é. Música! Mas que música?
Chegou-me ontem da América - diz o pai para a mãe - Está a ser um sucesso enorme por lá, dizem-me que não toca outra coisa na rádio! É cá um artista este Elvis, um bocado selvagem, enfim… Sabias que lhe chamam Elvis the Pelvis? Nunca lhe podem fazer plano americano, só da cintura para cima… estás a vê-lo aqui todo aprumado de farda? … Se quiseres ponho outro disco no pick- up. Se calhar é melhor não é?... estás a recuperar do parto... Ella Fitzgerald... vais gostar! Tu sempre preferiste vozes de contralto.
*
Música
Oum Kalsoum - El Sett, 1936
Elvis Presley - A Big Hunk O' Love (1959)
Ella Fitzgerald – My Old Flame (Radio Recorders Hollywood, 1959)
Glossário
Icharb – Lenço que as mulheres usam na cabeça
Salguta – grito das mulheres berberes usado em casamentos e despedidas
Bendir - pandeiro grande feito de pele de cabra e madeira
Snujs – pequenos címbalos usados na dança do ventre
Nay - instrumento de junco simples, com as duas pontas abertas, com 5 a 7 (mas normalmente 6) furos, sem bocal.
Abaia – capa de lã beduína usada à noite para aquecer.
Música
Oum Kalsoum - El Sett, 1936
Elvis Presley - A Big Hunk O' Love (1959)
Ella Fitzgerald – My Old Flame (Radio Recorders Hollywood, 1959)
Glossário
Icharb – Lenço que as mulheres usam na cabeça
Salguta – grito das mulheres berberes usado em casamentos e despedidas
Bendir - pandeiro grande feito de pele de cabra e madeira
Snujs – pequenos címbalos usados na dança do ventre
Nay - instrumento de junco simples, com as duas pontas abertas, com 5 a 7 (mas normalmente 6) furos, sem bocal.
Abaia – capa de lã beduína usada à noite para aquecer.
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