domingo, 28 de março de 2010

Dia Primeiro


Alcaidaria do castelo de Torres Novas, fim da manhã. Iniciou-se oficialmente a gravação do meu próximo disco. As composições começaram a ser feitas há mais de 1 ano e os ensaios há cerca de 1/2.

O Tiago Torres da Silva enviava as letras por mail, outras vezes era a música que lhe aparecia na caixa do correio electrónico acabada de fazer. Temos uma forma muito nossa de trabalhar, conhecemo-nos muito bem. Ele sabe que eu gosto das estórias que conta e eu sei que ele gosta das canções que invento.

Quando se pensou em fazer um disco eu não estava nada segura... desde 2001 que vivia à parte disso e assim queria continuar. Mas, pensando em convidar o grupo de trabalho com quem eu mais gostei de trabalhar e depois de eles dizerem que sim, parti para a 2ª fase cheia de confiança.

O Nuno Patrício e o Vasco Ribeiro Casais disseram logo que queriam trabalhar comigo. O entusiasmo foi imenso quando nos vimos a trabalhar como há 10 anos. Eles foram o talento que concretizou "Da Minha Voz" e desde então ficou um carinho e respeito muito grande por estes "filhotes emprestados", músicos dedicados, responsáveis, versáteis e com muito boa onda!

Então, lá fui eu todos os fins-de-semana ensaiar para a Malveira, em casa do Nuno Patrício, onde era recebida com todos os mimos pela Lu e pela Xana (mãe e irmã do Nuno). Nunca saímos de lá sem um lanche apetitoso e no ambiente mais acolhedor que alguma vez conheci. Os cães e a gata também participaram desta energia crescente :)


Hoje estamos na alcaidaria do castelo, que foi gentilmente cedida pela Câmara Municipal, na pessoa do presidente António Rodrigues, que acreditou neste projecto. A ideia do disco ser feito aqui prendeu-se por 2 razões importantes:


1 - A minha permanente relutância de gravar em Lisboa... é preciso estarmos isolados e absortos do barulho, sujidade e porcaria que as cidades grandes têm. E sobretudo da energia malapata que se atira a nós! Gravar um disco é também registar momentos que me são sagrados. Ter um espaço consagrado à música, com pessoas do bem e no meu ambiente ajuda a que tudo se concretize como idealizei.


2 - Este castelo tem sido um local de muitos momentos introspectivos, assim como o Jardim das Rosas. É lindo, está muito bem recuperado, tem um jardim do Éden no interior e umas salas bem equipadas. Para aqui vim muitas vezes "pensar" nas músicas. Torres Novas é a minha casa e não poderia cantar melhor senão no meu meio, rodeada de conforto e paz que esta cidade me dá sempre.


O Luís Delgado trouxe o seu estúdio móvel que já se encontra montado, o Francesco Valente chegou de mais um concerto dos Terrakota, o Nuno e o Vasco da Nação Viralata e Dazkarieh, respectivamente. O Tiago Torres da Silva presença firme e constante, meus braço direito e "boca" já andou a carregar com as placas isoladoras e organizou o plano de produção. Hão-de chegar mais pessoas, mas isso é para ser dito na altura... heheheheh


sexta-feira, 26 de março de 2010

Os Sonhadores da Ilha (memória do Verão Quente)


As cagarras rasgam o azul índigo do céu ao som invulgar de Ó-lha-Ó-lha-Ó-lha sobre a pequena enseada da Berlenga.

É Agosto, verão quente, passei de ano, e fui passar férias com os amigos com quem queria mudar o mundo.
A travessia no Cabo Avelar Pessoa foi o melhor baptismo de mar que podia ter. A ondulação suave e o vento favorável permitiram-me viajar na proa e ver centenas de caranguejos também em viagem à tona da água.
Eu era uma militante-sonhadora-crente, de mochila às costas e viola na mão, animada por um forte sentido de missão.
 

A imagem de Portugal nacionalizado, com terra, educação, paz e habitação, alimentava a ideia do lugar perfeito para se lutar e viver. A entrega de jovens como eu estava nas barreiras das estradas, nas pichagens de alerta pela madrugada, nos cordões-de-segurança em comícios e manifestações, na vigília que à noite as sedes precisavam, na fé do processo em curso.
 

A aproximação com o povo, fosse a abrir estradas, a roçar campos de silvas, ou a apanhar tomate, deu-me uma nova consciência das coisas. Nas sessões de esclarecimento do MFA percebia as carências das pessoas e isso motivava-me para qualquer esforço acrescido.
Muitos jovens iam de Berliet para povoações distantes em campanhas de alfabetização e dinamização cultural.
Ao serão havia cantigas e pão na mesa que alguém sempre oferecia.
Nas muitas viagens destas campanhas ouvi os cantares de homens e mulheres que diziam tudo o que eu não sabia.
 

Mas o PREC atravessava uma grande crise da qual eu não tinha total consciência. Achava que depois do 11 de Março e da tentativa de golpe, por parte do General Spínola, Portugal estava em perigo de se tornar um 2º Chile. As eleições não deram os resultados que se esperavam, a presença de Carlucci disfarçado de embaixador lembrava-me constantemente o 11 de Setembro de 1973 que matou Allende e milhares de chilenos. Ao mesmo tempo o Grupo dos Nove manifesta-se a favor da não interferência militar e as forças armadas ficaram divididas. O povo não queria o comunismo e eu não entendia porquê… o COPCON exercia pressão sobre o primeiro-ministro Vasco Gonçalves para se demitir. As ocupações sucediam-se a um ritmo acelerado bem como a violência do ELP (Exército de Libertação Português) braço armado do MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal) para as combater. As nossas sedes foram vandalizadas, os militantes feridos e outros perseguidos.
 

É este cenário que emoldura um grupo de jovens cheios de sonhos que naquele verão, numa aldeia de tendas, decide olhar as estrelas e ouvir as cagarras.  Pressentíamos que tinha chegado a hora de afirmar o que a nossa honestidade dizia para fazer. Assim, quando o telefone do café tocou logo de manhã para regressarmos à realidade, foi sem qualquer hesitação que desarmámos a "aldeia vermelha" e embarcámos na traineira.

A viagem de regresso foi muito diferente. O mar agitado parecia engolir-nos, mas a vontade de salvar o que estava quase perdido metia medo ao poder das ondas.
 

 
Deixámos para trás os mergulhos na gruta azul, as pescarias no mar alto, as conversas nas arribas, as corridas ao farol, o bairro dos pescadores, o princípio das descobertas, os planos que se fazem no verão em qualquer praia do mundo, os galeões afundados ao largo do forte de S. João Baptista, já habituado a tanta instabilidade; não fora o traidor que se passou para os espanhóis e talvez os 28 homens tivessem conseguido vencê-los. Ao fim de dois dias de luta renhida caíram exaustos e com eles o Cabo Avelar Pessoa.
 
Lembro-me de uma conversa, em jeito de despedida à ilha, com outro sonhador a quem perguntei se sentia medo. Respondeu que sim porque tinha consciência do que estava na origem da crise e das consequências que podíamos sofrer. No meu pensamento atravessavam-se as lágrimas e o sangue do Chile. Quantos jovens iguais a nós ficaram sem vida?

 
Os dias que se seguiram foram dramáticos. Cada um foi chamado para funções diferentes e o grupo da ilha separou-se.

Primeiro a cave de uma república, depois o sótão de uma casa.
A muralha acabou por ruir e ninguém ficou como era.


*
La Muralla, Quilapayún (Basta! 1969)

terça-feira, 23 de março de 2010

Amuletos


Alguém disse que o poema é um amuleto que nos protege dos equívocos e do esquecimento. Trago vários ao peito, um colar com muitas voltas, pedras de canções e de filmes em formatos diferentes, um pouco pesado, dizem, mas eu gosto que me enfeitem.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Os pregos do Alberto das Madeiras

Lydia Guevara numa campanha da PETA
As reuniões eram convocadas com urgência. Esta, em particular, necessitava da comparência de todos os militantes e para isso havia que ir avisar de porta em porta. Apertados numa sede que ficou pequena para tantos de nós ouvimos o desenvolvimento das notícias. Mário Soares, Salgado Zenha e Almeida Santos haviam-se demitido do IV Governo Provisório seguidos pelo PSD. A gota de água que encheu o copo das divergências entre Cunhal e Soares deveu-se à  situação do Jornal República.

Este jornal destacou-se pela luta contra o regime do Estado Novo, e nos seus quadros administrativos bem como na sua redacção havia ilustres da Maçonaria e do PS. Quando a direcção do jornal tenta admitir mais dois redactores afectos ao PS é convocada uma RGT em que a medida de parar a tiragem para o dia seguinte é aprovada. A seguir sai um artigo contra a posição dos trabalhadores da RTP conotados com o PCP. Depois é dada uma cobertura excessiva à delegação do PCP M-L em visita à China, que foi visto como um gesto político-partidário e uma provocação, já que a dita delegação pertencia ao principal opositor do PCP… No inicio do ano tinha havido polémica sobre a unidade sindical que o PS combatia em nome da constituição livre dos sindicatos.

Apesar da percentagem de votos muito significativa que o PS gozava (cerca de 38%) era nos órgãos de informação e nas manifestações, quase diárias, que o PCP mostrava a sua força. A divisão estava instalada.

E o que pretendem fazer? – perguntou a minha amiga.

Temos de estar muito unidos – respondi cheia de convicção - Precisamos de todas as pessoas para impedir a desgraça. Neste momento é possível acontecer tudo…

O que vejo – agoirou - é uma luta de capoeira. O que fizeram de África não chegou, vêm para aqui com a mesma cena. Tribos que não se entendem e dão cabo da vida de quem quer ter uma. Não importa o quê, nem quem, destruir é palavra de ordem. Quando é que esta gente cresce? - estava fora de si. Os olhos vermelhos de raiva fixavam as escadas monumentais, as que teria de subir se um dia fosse para a Universidade - Milhares de pessoas ficaram sem nada. Ninguém quer saber como nos sentimos, como sobrevivemos, no meu caso como é que uma adolescente se faz à vida, percebes?

Percebia, mas as vozes na sede comentavam os dois comícios que a direcção do PS programara, um no Porto, outro em Lisboa. Camaradas, "É preciso cortar o passo à reacção! É necessário levantar barragens para impedir uma marcha sobre Lisboa."

Mostrei à minha amiga zangada o Diário de Notícias e ela leu: "Povo e militares nas barricadas em defesa da Revolução".

É uma possibilidade de agarrares na tua vida e lutar por ela - sugeri.

Ohhh ninguém entende. Tu não entendes. Vocês estão a ser carne para canhão. Morrer por uma causa que nem é vossa, é DELES!!! – disparou.

O que estás a dizer? Isto tem a ver com todos. EU faço parte desse "todos" e não quero nem vou ficar de fora! Não sei se és tu que não entendes. Virar costas numa altura destas? - agora era eu que disparava.

Dirigi-me para a entrada da sede onde estavam a ser dadas instruções: O que vamos fazer, camaradas, é levantar uma barricada a seguir à ponte de Santa Clara. Quando vierem as camionetas com os excursionistas que o bochechas mandou lá do norte, chegam aqui e não avançam mais. É preciso uma brigada para ir comprar cavilhas. Vamos espalhar cavilhas na estrada. Voluntariei-me para as ir buscar. Mesmo ao lado de casa dos meus pais a drogaria Alberto das Madeiras vendia todo o tipo de pregos e parafusos.

Santa ingenuidade… - ouvi-a a gozar quando me viu sair da loja - e achas que espalhando os pregos pelo chão como quem semeia trigo conseguem furar algum pneu? Não sabem que é preciso primeiro pregá-los numa tábua e virá-los para cima? - continuou meio irritada meio a gozar.

Estanquei já desesperada, os braços a segurar pacotes de papel pardo, o carro à espera, a contagem decrescente para a passagem dos manifestantes… parecia o pronuncio do próprio flop...

Ninguém pensou nisso? – insistiu – qual foi o manual que não leram?- desatou aquelas gargalhadas em cascata, que no momento eram dispensáveis, mas sem dar o flanco respondi-lhe:

Não há tempo Paula, trouxemos todos os pregos que o Alberto das Madeiras tinha. Algum resultado há-de dar!
 
Revolution, Beatles (White Album, 1968)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Os Grunhos


E pronto! Notícias da piolheira: Os grunhos andam à pancada por razões que só eles acham importantes. E depois falam em tom ameaçador, à frente das câmaras, que "as coisas não vão ficar assim". Extraordinário como se organizam com entusiasmo numa luta sem estória e passam ao lado da vida miserável que levam...