terça-feira, 30 de março de 2010

Imagens do Dia Terceiro

Na régie: Nuno lá atrás, Tiago, Diogo Cabrita, Luís e Vasco (escutavam o meu take)

Nuno a preparar-se :)

Francesco e o groove

E o Luís dizia: se ao menos não tivesse tanto frio!!!!!

Numa pausa entre takes o gosto pela leitura

Tiago pergunta: Já tomaste o chá de cebola hoje?

Francesco pensa: Vamos lá ver os mails...

segunda-feira, 29 de março de 2010

Imagens do Dia Segundo

O que vejo quando estou a gravar

Neumann TLM 103


Revendo a matéria :)


As Percussões do Nuno WINGA Patrício:


Caixa popular


Bilha

Cájon
Chocalhos


Paus de chuva
Guizos


Caxixis e guizos

Cabaça

"Miudezas" e apitos
Djembé, Bendir, Shekere, Darabuka e Tama


 Alfaia, caixa popular e bombo

Saghat' s e carquebas

Adufes
Na "central" de gravações

Tiago, Luís e Vasco


Ai o soninho...



No final da sessão

Dia Segundo

18:27. Chove animadamente em Torres Novas. Estamos a ponderar se acendemos ou não a lareira da alcaidaria. O Tiago diz que os microfones vão captar o crepitar da lenha, mas eu não me importaria com isso. O canto dos pássaros a par com a chuva estão na eminência de fazer parte da "banda sonora". A Michelle Schocked fez questão de ter um coro de grilos no The Texas Campfire Tapes (1986)...

Os rapazes trabalharam da parte da tarde enquanto eu cumpria com as minhas obrigações no Museu Municipal Carlos Reis. Neste momento revejo material que compilei dos jornais torrejanos, de 1893 até 1950, para fazer um artigo sobre a actividade musical em Torres Novas ocorrida neste espaço de tempo.

Acabei de fazer 1 l de chá de cebola porque o frio de sábado está a manifestar-se na forma de uma faringite :(

19:18 - Nuno está a gravar percussões.

22h42 - Acabámos de chegar à cozinha/estúdio, vindos de jantar. A sessão de há pouco prolongou-se para além das 9h e houve quem pensasse pedir umas pizzas mas, porque somos conscientes, optamos por comida verdadeira. A sessão está a correr bem não há necessidade de ingerir plástico...
O Vasco não come peixe nem carne, mas está a conseguir alimentar-se bem (tendo em conta que não temos cozinheiro particular e não há um restaurante vegetariano). O Francesco, o Nuno, o Luís e eu optamos por peixe grelhado, saladas e sopa. O Tiago é uma boquinha abençoada, só que com gostos diferentes. Ontem escolheu picanha e já recebeu uma alcunha à conta disso!
O castelo à noite torna-se mais místico. A cidade iluminada, vista de cima, ainda mais bonita.
Sinto-me muito abençoada por estar aqui rodeada do melhor que existe.
Há pouco o Tiago mostrou-me a letra da 11ª canção. Guardou-a até poder e eu não pude conter uma enorme emoção. Os poetas têm este condão. O de saber despir existências com dignidade.

Imagens do Dia Primeiro

Do Jardim para o Castelo (paragem essencial!)

Luís, Vasco e Nuno à porta da alcaidaria

Eu com o mano João Carlos Lopes

Tiago Torres da Silva

Poço dos Desejos

Nuno Patrício

Luís Delgado

Vasco Ribeiro Casais

Um truque de som

Um recanto enjanelado (a vista é linda)


Tiago numa tentativa de beber água (que correu mal)

                                                         Os meus cantinhos no castelo

 Ganda' onda!



Todos se ajudam !


Não pensem que isto foi fácil...

Flor colhida por Nuno e oferecida a mim :)

O meu chá de cascas de cebola

Arrumações

Um detalhe da cozinha/estúdio

Vasco

Francesco e Vasco ensaiando

 Nuno WINGA fotografado por João Carlos Lopes


Tiago Torres da Silva fotografado por João Carlos Lopes


Francesco Valente fotografado por João Carlos Lopes

domingo, 28 de março de 2010

Dia Primeiro


Alcaidaria do castelo de Torres Novas, fim da manhã. Iniciou-se oficialmente a gravação do meu próximo disco. As composições começaram a ser feitas há mais de 1 ano e os ensaios há cerca de 1/2.

O Tiago Torres da Silva enviava as letras por mail, outras vezes era a música que lhe aparecia na caixa do correio electrónico acabada de fazer. Temos uma forma muito nossa de trabalhar, conhecemo-nos muito bem. Ele sabe que eu gosto das estórias que conta e eu sei que ele gosta das canções que invento.

Quando se pensou em fazer um disco eu não estava nada segura... desde 2001 que vivia à parte disso e assim queria continuar. Mas, pensando em convidar o grupo de trabalho com quem eu mais gostei de trabalhar e depois de eles dizerem que sim, parti para a 2ª fase cheia de confiança.

O Nuno Patrício e o Vasco Ribeiro Casais disseram logo que queriam trabalhar comigo. O entusiasmo foi imenso quando nos vimos a trabalhar como há 10 anos. Eles foram o talento que concretizou "Da Minha Voz" e desde então ficou um carinho e respeito muito grande por estes "filhotes emprestados", músicos dedicados, responsáveis, versáteis e com muito boa onda!

Então, lá fui eu todos os fins-de-semana ensaiar para a Malveira, em casa do Nuno Patrício, onde era recebida com todos os mimos pela Lu e pela Xana (mãe e irmã do Nuno). Nunca saímos de lá sem um lanche apetitoso e no ambiente mais acolhedor que alguma vez conheci. Os cães e a gata também participaram desta energia crescente :)


Hoje estamos na alcaidaria do castelo, que foi gentilmente cedida pela Câmara Municipal, na pessoa do presidente António Rodrigues, que acreditou neste projecto. A ideia do disco ser feito aqui prendeu-se por 2 razões importantes:


1 - A minha permanente relutância de gravar em Lisboa... é preciso estarmos isolados e absortos do barulho, sujidade e porcaria que as cidades grandes têm. E sobretudo da energia malapata que se atira a nós! Gravar um disco é também registar momentos que me são sagrados. Ter um espaço consagrado à música, com pessoas do bem e no meu ambiente ajuda a que tudo se concretize como idealizei.


2 - Este castelo tem sido um local de muitos momentos introspectivos, assim como o Jardim das Rosas. É lindo, está muito bem recuperado, tem um jardim do Éden no interior e umas salas bem equipadas. Para aqui vim muitas vezes "pensar" nas músicas. Torres Novas é a minha casa e não poderia cantar melhor senão no meu meio, rodeada de conforto e paz que esta cidade me dá sempre.


O Luís Delgado trouxe o seu estúdio móvel que já se encontra montado, o Francesco Valente chegou de mais um concerto dos Terrakota, o Nuno e o Vasco da Nação Viralata e Dazkarieh, respectivamente. O Tiago Torres da Silva presença firme e constante, meus braço direito e "boca" já andou a carregar com as placas isoladoras e organizou o plano de produção. Hão-de chegar mais pessoas, mas isso é para ser dito na altura... heheheheh


sexta-feira, 26 de março de 2010

Os Sonhadores da Ilha (memória do Verão Quente)


As cagarras rasgam o azul índigo do céu ao som invulgar de Ó-lha-Ó-lha-Ó-lha sobre a pequena enseada da Berlenga.

É Agosto, verão quente, passei de ano, e fui passar férias com os amigos com quem queria mudar o mundo.
A travessia no Cabo Avelar Pessoa foi o melhor baptismo de mar que podia ter. A ondulação suave e o vento favorável permitiram-me viajar na proa e ver centenas de caranguejos também em viagem à tona da água.
Eu era uma militante-sonhadora-crente, de mochila às costas e viola na mão, animada por um forte sentido de missão.
 

A imagem de Portugal nacionalizado, com terra, educação, paz e habitação, alimentava a ideia do lugar perfeito para se lutar e viver. A entrega de jovens como eu estava nas barreiras das estradas, nas pichagens de alerta pela madrugada, nos cordões-de-segurança em comícios e manifestações, na vigília que à noite as sedes precisavam, na fé do processo em curso.
 

A aproximação com o povo, fosse a abrir estradas, a roçar campos de silvas, ou a apanhar tomate, deu-me uma nova consciência das coisas. Nas sessões de esclarecimento do MFA percebia as carências das pessoas e isso motivava-me para qualquer esforço acrescido.
Muitos jovens iam de Berliet para povoações distantes em campanhas de alfabetização e dinamização cultural.
Ao serão havia cantigas e pão na mesa que alguém sempre oferecia.
Nas muitas viagens destas campanhas ouvi os cantares de homens e mulheres que diziam tudo o que eu não sabia.
 

Mas o PREC atravessava uma grande crise da qual eu não tinha total consciência. Achava que depois do 11 de Março e da tentativa de golpe, por parte do General Spínola, Portugal estava em perigo de se tornar um 2º Chile. As eleições não deram os resultados que se esperavam, a presença de Carlucci disfarçado de embaixador lembrava-me constantemente o 11 de Setembro de 1973 que matou Allende e milhares de chilenos. Ao mesmo tempo o Grupo dos Nove manifesta-se a favor da não interferência militar e as forças armadas ficaram divididas. O povo não queria o comunismo e eu não entendia porquê… o COPCON exercia pressão sobre o primeiro-ministro Vasco Gonçalves para se demitir. As ocupações sucediam-se a um ritmo acelerado bem como a violência do ELP (Exército de Libertação Português) braço armado do MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal) para as combater. As nossas sedes foram vandalizadas, os militantes feridos e outros perseguidos.
 

É este cenário que emoldura um grupo de jovens cheios de sonhos que naquele verão, numa aldeia de tendas, decide olhar as estrelas e ouvir as cagarras.  Pressentíamos que tinha chegado a hora de afirmar o que a nossa honestidade dizia para fazer. Assim, quando o telefone do café tocou logo de manhã para regressarmos à realidade, foi sem qualquer hesitação que desarmámos a "aldeia vermelha" e embarcámos na traineira.

A viagem de regresso foi muito diferente. O mar agitado parecia engolir-nos, mas a vontade de salvar o que estava quase perdido metia medo ao poder das ondas.
 

 
Deixámos para trás os mergulhos na gruta azul, as pescarias no mar alto, as conversas nas arribas, as corridas ao farol, o bairro dos pescadores, o princípio das descobertas, os planos que se fazem no verão em qualquer praia do mundo, os galeões afundados ao largo do forte de S. João Baptista, já habituado a tanta instabilidade; não fora o traidor que se passou para os espanhóis e talvez os 28 homens tivessem conseguido vencê-los. Ao fim de dois dias de luta renhida caíram exaustos e com eles o Cabo Avelar Pessoa.
 
Lembro-me de uma conversa, em jeito de despedida à ilha, com outro sonhador a quem perguntei se sentia medo. Respondeu que sim porque tinha consciência do que estava na origem da crise e das consequências que podíamos sofrer. No meu pensamento atravessavam-se as lágrimas e o sangue do Chile. Quantos jovens iguais a nós ficaram sem vida?

 
Os dias que se seguiram foram dramáticos. Cada um foi chamado para funções diferentes e o grupo da ilha separou-se.

Primeiro a cave de uma república, depois o sótão de uma casa.
A muralha acabou por ruir e ninguém ficou como era.


*
La Muralla, Quilapayún (Basta! 1969)

terça-feira, 23 de março de 2010

Amuletos


Alguém disse que o poema é um amuleto que nos protege dos equívocos e do esquecimento. Trago vários ao peito, um colar com muitas voltas, pedras de canções e de filmes em formatos diferentes, um pouco pesado, dizem, mas eu gosto que me enfeitem.