domingo, 20 de junho de 2010

Passion Fruit


And the day came when the risk it took to remain tight inside the bud was more painful than the risk it took to blossom.

Anaïs Nin

sábado, 19 de junho de 2010

Amuleto




O ar gelado e o vento que vem de norte encontram-me no centro da cidade. Este é o dia em que a terra parou assim que me alheei do medo e procurei pela rapariga dos lagos de gelo. Tenho-a na memória desde sempre, um grande pedaço de paisagem em celulóide, rosto pálido, ar convalescente, descendo a colina como um pássaro estival sob o céu nu e parado. Para recuperar o fôlego agarra o amuleto que traz ao peito e invoca a palavra miraculosa. Sem voz dá voz a encontros silenciosos. Podemos ser como ela. Acreditamos que é todas as raparigas escondidas na mulher fatal e angustiada que descansa depois da descida. Conseguirá escapar? Tornar-se corsária de exílios e encontros de toda a espécie?

Alguém lhe disse que o amor é um amuleto, que a protegeria dos grandes espaços e do esquecimento. Traz vários ao peito, um colar com muitas voltas, pedras de canções e de filmes em formatos diferentes, um pouco pesado, dizem, mas ela gosta de se enfeitar com eles. Esta rapariga tem uma alma muito vivida e parece mais velha do que é. Começou por vender chapéus convencendo qualquer um que lhe assentavam bem. Era tão persuasora que foram espalhadas fotografias por todo o país - uma alma assim permanece pouco tempo no mesmo lugar – porque muita gente dependia das vendas de mais chapéus.

Olhei para o centro da cidade sem almas possivelmente adormecidas pelas altas horas da noite e reparo que o modesto T3 sem água quente, da Blekingegatan, fora demolido. Tiro uma fotografia ao Greta's Krog Bistro a pensar que as casas importantes não têm qualquer pretensão de um dia, num momento qualquer, desaparecerem na incerteza de terem sido habitadas.

Ninguém abraça a rapariga do filme, ninguém lhe pergunta se a vida lhe corre bem, se precisa de companhia ou de comprimidos para dormir. Aplaudiram-na na altura, há muito tempo, ofereceram-se para a acompanhar até à esquina e beijaram-na como se beija uma rainha. Mas porque os dias se tornaram como os outros dias, todos iguais, acabando por morrer, deixaram de aparecer e de pensar nela. Decidiu, então, sair de Blekingegatan e desfez-se de chapéus, da espuma de barbear, dos bolos de pastelaria e dos sapatos de domingo. Mudou-se para as traseiras do teatro Moseback onde ficava, horas a fio, a espreitar pela porta dos artistas.

 
Quando se apagava a última luz da rua olhava os veleiros que se dirigiam para o Báltico. De lá atiravam-lhe velhas canções de marinheiros que ela apanhava com a voz suave, a voz inaudível de todos os imaginários, aguardando por uma resposta. Isso nunca aconteceu. Não há respostas para almas impronunciáveis e fugidias que chegam num dia, partem no outro e arrasam triunfos insignificantes.

Animada por uma direcção aleatória a rapariga decidiu escrever uma página da sua vida. Sentiu necessidade de o fazer pela chama que se acendia numa alegria vagarosa. Alhear-se das imagens a que se acostumara, fora da estrada amarga. Nos subúrbios de Odengaten compreendi a rapariga resplandecente. Recolhera-se na meia-luz subterrânea com o telefone desligado e sem campainha na porta. Construíra o isolamento possível para as memórias tombarem da mesma forma que a neve solene se desprende dos telhados da cidade.

Acendeu-se um semáforo vermelho neste quase fim de tour em frente ao Dramaten Teatern. A mulher fatal acabou de entrar no palco onde encarnará uma mulher da rua em Den osynlige*. Passou a achar divertidos os papéis tristes que representava. No início sentia-se relutante, tinha dificuldade em dormir a pensar que atraía mágoas a mais. Depois experimentou despi-las como vestidos de noiva e lavava-as com paciência noite após noite. Inclinava-se para o público com o rosto irisado de maquilhagem, murmurando tack tack… här är underbart…Jag förtjänar inte**…

Amavam-na naqueles momentos, amavam a sua beleza quer fosse falsa ou sincera. Foi assim que se tornou mito e lenda. Um dia quando tudo corria bem, colocou o amuleto guardado e caminhou na imensidão boreal. Descobriu pela primeira vez de que era feita e decidiu nunca mais voltar.


ao som de Sweetheart, Marianne Faithful (Dangerous Acquaintances -1981)

*
Peça de Pär Lagerkvist, representada por Greta Garbo em Outubro de 1924

**
Obrigada…obrigada… isto é maravilhoso… eu não mereço…

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Este é o meu fim e o teu



O pássaro da alma voará
E deixará o corpo desabitado
A relva crescerá sobre o túmulo,
E talvez desabroche uma flor.


Abdullah Ansari
Poeta persa nascido em Herat, no século XI

terça-feira, 15 de junho de 2010

Çarandilheira e algumas memórias

Foto de Susana Paiva (em Montesinho)

A caminho de Picões com o rio Sabor a acompanhar :)

Póvoa - Miranda do Douro

Foto de Susana Paiva

Adélia Garcia (Foto de Susana Paiva)

A burrica de Deilão

Em Miranda do Douro

Esmeraldino Raposo Fernandes (pauliteiro de Malhadas)

Acampada em Santo Antão da Barca junto ao Sabor onde fiz a primeira recolha sonora: um concerto de relas (4/07/93)

Foto de Susana Paiva

Pauliteiros de Constantim

Foto de Susana Paiva - Caçarelhos: as fiandeiras

Vista sobre o vale do Sabor

Em Montezinho ( Foto de Susana Paiva )

Foto de Susana Paiva - Em Caçarelhos com Adélia Garcia (filmagens de Çarandilheira)

Foto de Susana Paiva

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Dia de Che

Fidel, infelizmente, aparece nestas imagens. Na época talvez fosse um sonhador, mas sem Che deixou de servir causas para servir somente o seu Ego. Humildade e entrega foram-se quando Ernesto partiu deste mundo.

Devotion