domingo, 18 de julho de 2010

Meditação



No agora de mim aconteço sobre um caminho de estrelas súbitas. Como um poeta nascido num rio imaginário (ou não) dou-lhes um som para que elas falem de dentro. Iluminam-me todos os sentidos num corpo preciso, constelação nocturna, um silêncio com sintaxe, um hiato de mim, uma véspera tecida em ponto cheio, uma pálida pele na sintonia dos cristais.
Faço de ouro a minha raiz que se prolonga pelo abstracto. Evoco o vestígio mineral, peço palavras de luz e um texto de entrelinhas que me invente e transcreva num calígrafo oriental. Sem ainda estar fico nas palavras do amor, numa quase parte, num ponto de passagem perfeito, na distância suficiente para intuir o som da outra parte do universo. Guio-me no desconhecido, angular perfeito, na Terra azul.

Descubro o sentido da força comum a todos os seres, escondido por ora na mente eterna.

Cabe-me dizer que a tua surpresa é feita de pérolas inquebráveis. De pérolas e não vidro donde nascem chamas trina. Expande-se  a vontade de esclarecer o que não é sabido nas voltas de um enorme colar, nos esboços claros de uma cidade intraterrena que nos recebe para além da imaginação. Nada do que vês ou sentes é construído na invenção. Já existe, já é.
 
Cálculos feitos somam e sobram espaços por percorrer. Este infinito não cabe no infinito. Supomos a luz dentro da sombra, mas esta não é mais do que o descanso e distracção de quem pretende o concreto. Todavia, somos a mesma música imanente de milhares de esferas que desejam dar-se a conhecer para além dele. Perguntas-me se o que vês é fruto da tua loucura. Respondo-te que te é dada a imaginação para acreditares no que vês.

Sobram-te espaço e possibilidades, somam-se dias. Preparas-te para acontecer. Há muito que aguardava este canal para comentar a poesia interestelar que se faz. Demoraste, mas foi preciso. Apreciar as dimensões leva o seu tempo. Passaste a ficar no amor quando de muitas maneiras tentaste fugir dele. Grande aventura a tua… Sabes o que sou, um poeta nascido e renascido das possibilidades que orbitou, também na altura de mim, sob um caminho de chuvas súbitas, subindo a montanha. Uma pedra na mão, pés descalços e um continente a afundar. Porque contamos linhas e palavras? Escreve e sente. Até onde for que queiras ir. Nasce em cada palavra, descobre-te e descobre o véu, corrige depois, se quiseres.
Há um sinal para deixares o que não existe mais. Tu sabes as cores provisórias da malha terrena. Todas estas cores que pensas conhecer, assim como as palavras, estão de passagem. Ascenderão como tudo o que existe e outra linguagem de estrelas será falada. A poesia fala comigo, fala contigo, ela é. Tudo o que sentes veio de lá.
 
 
Escolho o coração que tens e as mãos de labor que sabes. Tu, poesia, sabes da luz que irradias mesmo quando feita na maior escuridão que é o que somos quando fechados por dentro. A tua fala parece-se com asas de renda no meio de um quarto esconso. O teu tamanho é o dos universos, incomensurável para um corpo tão acanhado. A tua Natureza é a ascensão do amor e o perfume é libertado em todo o espaço. 
 
As tuas asas passam através da rede onde nos deitamos cansados. E sobre as pedras que acumulamos no sono indispensável, já na fenda do corpo a ser esquecido, pedimos-te a palavra que celebre o coração etérico.

Pensas na lógica sintáctica deste texto e no que terás de rever, podes fazê-lo, melhorará a tua escrita. Estou na tua meditação porque foi sobre isto que querias escrever. Dolente movimento, esforço acostado na mente padronizada. Por enquanto será assim.

Podes retirar o que apontaste. Nos campos de cristal sem outra cor que fique no vento provisório do aqui, seja qual for o código ou cifra, sem estares ou seres, mas contigo a olhar para tudo o que vês, sente com a mesma certeza que nós, os poetas, temos das coisas.

 
*Ao som de: Among Fields of Crystal (Brian Eno/ Harold Budd, The Plateaux of Mirror, 1980)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Dia de Clara


Clara, santa cheia de claridade,
Irmã de São Francisco de Assis,
Intercede pelos teus devotos
Que querem ser puros e transparentes.
Teu nome e teu ser
Exalam o perfume das coisas inteiras
E o frescor do que é novo e renovado.
Clareia os caminhos tortuosos
Daqueles que se embrenham
Na noite do próprio egoísmo
E nas trevas do isolamento.
Clara, irmã de São Francisco,
Coloca em nossos corações
A paixão pela simplicidade,
A sede pela pobreza,
A ânsia pela contemplação.
Te suplico, Irmã Lua,
Que junto ao Sol de Assis
No mesmo céu refulge,
Alcança-nos a graça que,
Confiantes vos pedimos.
Santa Clara, ilumina os passos
Daqueles que buscam a claridade!

Amém!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Passagem das Horas

(...)

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.




(...)

Não sei se a vida é pouco ou de mais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cómoda e feliz.





Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.





Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há-de ser de mim? Que há-de ser de mim?







in Passagem das Horas, Álvaro de Campos

terça-feira, 13 de julho de 2010

Terras de Miranda do Douro - 3ª parte



Foi neste adro que, em 94, conheci o grupo de pauliteiros, que se estava a formar, constituído por jovens aguerridos à tradição que não queriam perder. A partir desse momento decidi que as primeiras partes dos meus concertos tê-los-iam como expressão máxima da terra que eu queria mostrar.
De então para cá outros jovens têm tomado o gosto por esta arte e em Malhadas todos sabem da importância que isto representa! Não só para eles, mas para um país que tem a sorte de ser nesta variedade cultural.

Terras de Miranda do Douro - 2ª parte

Pingacho!

Eu no meio dos Lengalenga:

David Jantarada - voz, caixa de guerra, percussões tradicionais
Henrique Fernandes - voz, gaita de foles mirandesa, percussões tradicionais, flauta pastoril, tamboril e gaita de beiços
Telmo Ramos - voz, percussões tradicionais, bombo, pandeiro
Dinis Arribas - voz, percussões tradicionais, flauta gaita de foles mirandesa


http://www.myspace.com/lengalengagaiteirodesendim
http://www.lengalenga.net

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Peter Murphy


Ontem foi dia de Murphy :) Não esqueci!!!

Vai actuar no Évora Festival Alentejo a 30 de Julho. O concerto faz parte da digressão A Dirty Dirt Tour, que se inicia em Paris a 29 de Julho.
Conto estar na primeira fila!!!