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terça-feira, 5 de agosto de 2014

O sr. Ego



 
Tenho pensamentos recorrentes que, por vezes, vêm numa avalanche que faz com que toda a minha atenção fique subjugada dentro das emoções retidas de cada memória. Ora, eu tenho muitas memórias na minha memória...

Depois de muito ter lido a respeito, nestes últimos meses, encontrei o nome que se dá a isto: viver dominada pelo ego.

Andei anos convencida de que o ego era uma forma de superioridade e de arrogância mas, pelo que parece, pode disfarçar-se de muitas maneiras e tornar-se o inquilino enraizado de formas-pensamento, estados emocionais ou mentais, que vai chutando, nos tais pensamentos recorrentes, o desagrado e a infelicidade que nos torna tão vulneráveis e prostrados, ao invés do causador deste mal-estar, próspero e gordo de satisfação.

Segundo Eckhart Tolle “o ego surge quando a sua noção de Ser, de “Eu Sou”, que é consciência sem forma, se confunde com a forma.”

O ego adora a forma deformada das coisas e faz finca-pé quanto à estratégia de ir debitando, naquela corrente incessante e cansativa que atravessa a mente, tudo o que quer que acreditemos que é feio ou desajustado para/em nós: o mundo, os outros, a vida.

Quando me deparei com este alerta percebi que o trabalho aplicado, com o objectivo de enfraquecer o sr. Ego, está ainda longe da sua acção definitiva.  Não posso dizer que tenha feito um mau trabalho, mas sem a devida instrução sobre como se desliga a ficha, é o mesmo que desconhecer o que eu sou na minha forma egóica.

Já passei por algumas situações-limite, em que perdi muito, quase tudo, grandes abanões e quedas, mas não cheguei a experienciar a Paz ou a Voz que muitas pessoas referem como a origem da reviravolta total nas suas vidas.
Antes pelo contrário. Esses momentos trouxeram-me angústia e medo, e isso pode querer dizer que, depois de uma determinada noção de identidade me ter sido retirada pelas circunstâncias da vida, o sr. Ego não ficou arruinado como devia. O que foi que ele fez? Identificou-se rapidamente com outras forma-pensamento e o meu Ser ficou preso na armadilha.

Reconheço a capacidade de luta do meu ego em relação a mim. Ele não desiste e eu deixo que sobreviva às minhas custas, e de que maneira...
O que interessa verdadeiramente a este hospedeiro oportunista é alimentar-se de uma identidade, seja qual for, desde que me incomode; da minha parte não entregando o que não faz parte de mim e não aceitando o que tenho e sou, faz-me gerar mais resistências fechando o meu campo de visão. É como se vivesse com as portadas da casa fechadas à espera de ver o céu azul que sei existir do lado de fora.
Assim está ele, o sr. Ego, todo enérgico, e eu cambaleante na minha peregrinação.

Acredito que “depor armas” e entregarmo-nos a uma outra consciência de nós mesmos, é o caminho para lá chegar, para pôr os pontos nos is ao sr. Ego e convidá-lo a sair deste alojamento com direito a reserva de admissão!

Meditar é um estado poderoso de limpeza e de abertura. Sinto, aos poucos, algumas mudanças (têm sido passinhos pequeninos), quanto às resistências a que este ego me sujeita. Sinto que vão sendo modificadas por uma energia diferente e que o vão enfraquecendo (sim, o objectivo é mesmo esse). Gostava que fosse mais rápido (sim, que fosse totalmente desintegrado e me deixasse respirar sem medo) porque esta convivência não me tem sido nada saudável, mas está a ser ao ritmo que consigo e isso é muito mais que nada.

Hoje, no jardim onde estava, dei ouvidos a um pensamento que se atravessou e interferiu na beleza que observava: senti-me a pessoa mais triste do mundo.
Arrepiei-me apesar do calor e quando começou a crescer aquela emoção ligada à tristeza (mais uma série de pensamentos prontinhos a serem disparados lá do covil-passado), apercebi-me do pequeno sinal que apontava na direcção deste boicotador: lá estava o sr. Ego a intrometer-se na minha alegria. Estaria a ficar com apetite de desgraças e achou que já era demasiado tempo para eu estar ligada a outras coisas que não a ele.
Não me fez chorar, não fiquei amarga, não me fechei no quarto.
Agradeci por esta experiência que me permitiu ver o quanto ainda tenho para realizar e sentir.

E um alegre passarinho voou rasante no jardim, fez uns círculos perto de mim e seguiu caminho. Foi uma aula prática sobre o que fazer comigo.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Da voz e do voo






Este sonho de voo persiste ainda antes de ter nascido.

Desci à terra. Assim que pude escalei os céus rumo às estrelas.

E porque caía sempre que me lançava no firmamento um anjo deu-me metade das suas asas para acabar com os voos interrompidos.

Aprendi que as fragilidades terrenas me lançavam para lá das nuvens, um mundo raro, menina-borboleta, menina-pássaro, um castelo visto de cima, um príncipe errante à procura do Santo Graal.

Tudo me enchia a boca sedenta de asas.
O coração deixou de ser um poço fundo e escuro. Jorrou sons desenhados no ar.

Depois a descoberta das palavras, nas minhas mãos em concha, vindas de lugares onde nunca estive.

E o voo da voz surgiu do ai da terra.


sábado, 26 de novembro de 2011

Surto



Que ideia esta de se fazer à tempestade exterior quando a borrasca interna já se começava a manifestar. Pára uns segundos na borda do passeio e respira fundo. Que aconteceu ao seu abrigo interior? Pensava ter ultrapassado alguns episódios menos bons, aliás bastante maus, com as sessões de regressão, de reiki e EMDR que lhe identificaram os porquês, limparam as marcas mais renitentes e reverteram as suas múltiplas perdas em recursos positivos.

 


Vê-se  num sótão enorme onde algumas vezes se perdeu a arrumar e a deitar fora coisas velhas, coisas ainda novas, sobretudo restos de colecções de desgostos presos por alfinetes em mostruários de veludo e vidro, que lhe escancara a miséria mais escura da sua memória ainda atulhada de tralhas.

Sente o coração fechar-se, a mente de novo presa, o corpo já sem autonomia e uma estranha sensação de fim eminente. Enquanto procura um apoio para a queda não a magoar  e poder sobreviver, vão-lhe passando flashes de tudo o que quis fazer e que o tempo não  bastou. O pânico atinge o auge. Faltava tão pouco para chegar a casa...

 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sazonal

 

Regresso ao meu isolamento numa espécie de conforto limitado pelo que não sou e tentei ser.

 

Passo longe dos locais de rotina. Desvio-me de desconhecidos suspeitos. Não gosto de socializar sobre inconfidências. Não me identifico com risos despudorados sobre o que se desconhece. Não me identifico com a ignorância que sentencia o alheio.

 

Nos livros que leio sou todas as palavras que muitos desprezam; na música que escuto sou todos os mundos que não querem conhecer.

 

Escolho a sombra do desamor por mim própria porque faz parte "disto".

Refaço-me em auto-análises para saber onde falhei, porque falhei, se é que falhei, com toda a certeza que sim...

Adormeço e acordo entre o desgaste e a inércia que os meus pensamentos produzem até chegar à dor física.

 

Talvez seja um exemplo estranho de intranquilidade na paz que tento cultivar. Talvez seja esta a forma de me dar com ela, por oposição.

Este isolamento é uma escolha,  a prova diária  da  conciliação comigo mesma.



 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Porta vozes




Isto já foi bonito – diz olhando o rio e lembra-se da festa que sentia de cada vez que uma nova ideia a fazia correr para casa, aquele sossego monástico onde registava a sequência harmónica no seu gravador. E já numa concentração metamórfica que ascendia qualquer estado de transcendência inexplicável, procurava incoerências que não podiam constar do vocabulário que dava à fala daquelas mulheres silênciosas um sentimento que a preenchia.

E assim ficava dias e dias à volta das estórias que aquelas almas lhe haviam confiado.

Não sabe ao certo o que fará com tantas vidas provavelmente continuar pelas margens de cada uma e seguir o rasto de mais silêncios urgentes, que precisem de ser cantados, antes de se despedir do rio que já quase nada lhe diz.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Biodegradável

                                              
 
As mulheres de meia-idade são a curva descendente do sol, o último comboio sem passageiros, a erva seca  num campo abandonado.

Estas incuráveis-dos-anos ainda aguardam por coordenadas que acreditam poder resgatar-lhes o percurso mais à frente, elas que um dia decidiram achar generoso esperar pela virtude e acreditar no tempo para tudo, não se dando conta da emboscada imoral  que as enganou.


Há mulheres de meia-idade que passam a ferro e tiram o pó das molduras, outras mudam a terra dos vasos e cortam as unhas do gato e esta que testemunha o tempo a tirar identidades que eram suas. E como lhe custa.
As mulheres que entre promessas de futuro não chegaram a ser presente coleccionam para sempre as culpas de todos os equívocos acumulados às costas como uma cordilheira montanhosa.

A estas depressivas-dependentes dos desafectos resta a insónia das madrugadas que a rádio  programa. A mim cabe-me o cansaço dos dias sob o peso do pânico que o medo me traz.

De nós, amostras da cronologia biodegradável, acerca-se a inevitabilidade do tempo que nos destrói.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Quase afirmado



Rodava a torneira calcinada do lavatório na tentativa de acabar com os pingos de água que caíam como lágrimas quando lhe vieram à ideia todas as estórias que quis cantar ao longo dos anos: Kahlo, Eberhardt, Claudel, Woolf…

No caderno de papel reciclado escrevia noite dentro sobre como as iria resgatar para este lado, os tons e acordes que as diferenciavam, a melodia abstracta que cada uma sugeria para renascer, as imagens que iam ficando mais nítidas depois de ter construído sobre todas elas, a sua própria vida.

Mulheres que lhe falavam ao longo das horas, dentro dos seus sonhos, nos gestos de rotina dos dias, que riam e choravam com ela, que a afastavam dos que a queriam de outro modo.
Mulheres a quem prometeu dar voz ao seu silêncio.

Mas quem as quer verdadeiramente ouvir?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mais-que-tudo



Uma ideia, um estado, uma decisão.. imagens que se fixam dentro da vontade maior que o receio de não conseguir.
 
Já dei voltas do avesso, subi por cordas esgaças até à borda do poço, várias partidas do  grande-zero que se afigurava medonho, ainda assim com um ânimo que nem sei explicar.
 
Inconsciente?  Em tudo um pouco disso mas também ciente de que sem avançar para um destino qualquer acabo-me antes do tempo.
 
Opto por  chegar onde quer que me esperam, o que quer que me espera, sem saber o que me espera.
Antes isso.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Na superfície


E cheguei a uma superfície alhures. Há 2 anos (os aqui  registados) que derivo por esse espaço, umas vezes aos comandos, outras em piloto automático.

Holoteta pediu para colocar os pés no chão e a nave aterrou... Viver (n)outra estória, construir uma base, ficar por um tempo, encontrar respostas, resolver os medos. Ainda não sou livre ainda não estou preparada como pensava.


Preciso de caminhar e isso leva tempo.

*ao som de um inédito.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Acordar



Porque me lembro de ti nas pequenas coisas. Todos os dias.
Carrego a imensa memória da grandeza que és, como se isso fosse o bastante para suportar a falta que me fazes.
Lembras-te? Chovia na praça.
Ficaste para sempre e tudo deixou de me servir.

sábado, 1 de janeiro de 2011

1 de Janeiro



Pratico-me na escuridão diária para regressar à luz dos meus dias.

Assim, quando chegar ao canto de Gobi no dorso de um Przewalski, fico a saber como serei.

domingo, 5 de dezembro de 2010

A estória da laranja

Promenade - Marc Chagall


Almas gémeas sobem juntas ao infinito, dizes.
O resto que não é assim chama-se solidão, digo.
Depois de algum tempo em silêncio vem a certeza como um clarão que cala os meus argumentos.
Eu acredito, clamas triunfal, que pessoas como nós não se abandonam, vivem enlaçadas por atóis o resto da vida. E ficam para sempre!
Possivelmente com um véu de misericórdia a cobrir-lhes a casca sem gomos, acrescento.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ser mulher



é…

… intuir a divindade que habita em si.
… descrever sentimentos que ainda não têm nome.
… acabar e recomeçar, ser de novo e concluir.
co-criar e agir, semear à revelia do tempo.
… abraçar causas que não lembram a mais ninguém.
… ser poesia a todas as horas.
… reprogramar o ADN emocional da sua imagem.
… libertar-se de todo o preconceito com amor-próprio.
… fiar memórias à imagem de Penélope.
… despertar na terra prometida de si mesma.
… transcender o ego com humildade.
… iluminar a aprendizagem do menos bom com gratidão.
… consagrar-se ao amor de Ulisses porque um dia será absoluto!
… olhar para o passado dando-lhe as boas-vindas.
… chorar porque sim…
… ter coragem para se revelar mesmo quando não lhe é permitido.
… amar o seu corpo acima de todas as culpas.
… entregar os restos que ficaram numa bandeja de prata.
… reconhecer cada experiência como a obra da sua vida.
… entoar um mantra no meio do caos.
… manifestar sempre a verdade, seja qual for o resultado da acção.
… saudar o surgimento da própria sombra.
… ver-se ao espelho, em cada transformação, sem cobranças.
… irradiar auto-estima nos bastidores internos.
… ampliar a consciência como uma tecelã hábil na sua arte.
… nunca deixar de ser uma guerreira da Paz.
… unir-se ao silêncio da sua essência.
… desejar que tudo o que foi dito seja concretizado noutra mulher.

sábado, 30 de outubro de 2010

Fuga

Aqui como em outro tempo o mesmo labirinto o projecto de voo em fase experimental a construção de asas que cada um tenta em qualquer céu sobre o mesmo mar quase a fundir no calor que necessitamos dos outros para cairmos incrédulos com o coração entristecido muito longe do que queríamos.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Oráculo



Os sussurros da minha alma e o conselho divino da Luz são ouvidos com muita clareza.
Sei o que tenho a fazer. Estou disposta e preparada para o conseguir.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Hoje


Eu junto-me aqui comigo. Sou o que vês nem menos nem mais.

Entro e saio, desperto-me junto dos homens que deixam marcas, atiram raízes para o pântano e ateiam fogo às pedras.

O meu corpo não está só entre margens. É tudo o que queiras abraçar. Um mar que já foi rio e um rio que já foi ar.

O ciclo do fogo surge porque é próprio dos abraços incendiar quem espera.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Templo


À noite quando me deito na rede sertaneja sou despertada por um rumor de asas quase voz que sopra ao meu ouvido.  Quero entregar-me à sensação daquela presença, mas desdobro-me em conjecturas, negoceio os medos e as dúvidas, reflicto na parte incomensurável que devo ser algures para, enfim, me aguardar no sono.
 
Ainda a resistir acendo um incenso e medito, tomo um banho e entoo uma oração, abraço uma luz que surge na escuridão do alpendre e olho para o jardim. Vejo a  vida passar por horas e tonalidades diferentes. Esta energia no espaço e fora dele conduz-me a um quase estado de graça que não compreendo porque me é dirigido.

 

Vão surgindo  presenças que se aconchegam,  Frida, Isabelle, Virgínia, Sophia, Camille… paixões em carne viva, amores no tempo errado, somas decrescentes para a solidão, mulheres descosidas, inadaptadas, indecifráveis, atingidas pela mesma sofreguidão escarnecedora do amor, mulheres iguais a Clarice deformada sobre as compras na cozinha, Marguerite deitada sob o ópio espiralado da sala, Agatha aparando crimes na relva do jardim, Isadora nua no palco da dor, Violeta tingida de sangue nas tapeçarias Mapuches, mulheres com quem me casei há muito, ficando-lhes com as estórias, tomando para mim o desgaste, a desilusão, os pedaços, as vidas em cruz e tudo o mais que tentei exorcizar  para que houvesse um final feliz, sem mágoas, em nome de todas. Não consegui. Olho-as com tristeza a olharem para mim de igual modo. Que fazemos? Porque continuamos?


Este bater de asas parece redimir a falta de amor-próprio que nos atingiu, fosse o talento grande ou pouco para aceitar o que não se compreende. Raciocinar com o coração, obrigar a mente a entrar no sistema circulatório e percorrer cada artéria para sentir. É nisto que penso enquanto a pré-sonolência me prepara para o templo. Espalho a fragrância do Lotus Branco na rede que me aguarda como um útero. Escolho-me para dizer o erro de todos os desencontros e esbarro na mudança de escala de cada voo que não passou da imaginação. Serei só e só antes de chegar.

A presença quase voz acompanha-me como fez com outras mulheres solitárias que se viram no fim. Haverá um abraço? Uma luz? Uma cara conhecida? E as mulheres? Onde estarão as mulheres? Luto acordada, volto à sonolência, fico livre no sonho. É por aqui o caminho das asas, sinto o ar que deslocam à sua passagem, inspiro a sua essência dourada, fecho os olhos.

 

Estou do lado de fora, entrelaçada no jardim. Pode ser isto, pode ser mais e outra coisa. A presença esclarece a parte irredutível de mim e apazigua as inconstâncias do meu himalaia pessoal, transmuta o fosso de himeneu onde todas as mulheres caíram. Agora estão salvas de qualquer provação e as suas enormes lágrimas guardadas no rio pelos devas que contemplam a longa viagem.

A presença das asas quase voz e de todas as mulheres que fui deita-se na rede sertaneja comigo e vigia o templo que nos aguarda do outro lado.




ao som de This Woman's Work, Kate Bush (The Sensual World - 1989)

domingo, 12 de setembro de 2010

Macramé



Teço fios com os dedos, os meus, porque os teus não são daqui. Teço fios do teu cabelo, da tua voz, dou nós entre um sorriso e um olhar, cruzo-os com as emoções da minha fuga porque nada disto é real ou humano. Sou fio que foi célula, que foi nada antes de decidir ser o nó, que prende esta história na geometria desalinhada. Prendo-me nos lados e no fundo de ti. Antecipo a obra de arte, projecto-te nos meus espaços, só meus, porque os teus são o mundo todo.

Na sala, no quarto, na parede, no sótão, alongo-te a forma, és meu objecto, minha criação. Teço, torço, fio a fio, nó entre nó. As mulheres que nasceram de Penélope sabem a difícil arte de desfazer sem desfiar. O fio frágil nas mãos de quem o trabalha, entre nós, cria possibilidades infinitas na força da seda, nos sorrisos infantis, entre pontos de antecipação. Dores de Penélope no roteiro de Ulisses, filhos nascidos fora de tempo, do lado de lá do véu, também tecido de madrugadas grávidas. Na orla do meu descanso teço com os meus dedos palavras poderosas, rosários compassivos, todos os dias, para que nós e dedos se transformem em destreza transcendendo impossíveis.

E teço à luz da lua, pela torreira do sol, afogada em lágrimas que Penélope me oferece, ainda com esperança de não desfiar a minha criação. Na ilha para onde fui levada, há centenas de salas de mármore com janelas rasgadas para o mar, por onde entra uma luz intensa que cega a impaciência. Teço-te para que resguardes os gestos impensados do teu reflexo sobre as paredes nuas, porque podem ser, e quase de certeza são, um tremendo engano. O padrão flui quando te pego, fio simples e suave, liso e solto de qualquer nó, mas sabes, é preciso que te prenda entre os dedos porque se o não fizer as janelas desprotegidas vão deixar entrar demasiado mar e tu, que nunca mais chegas, vais-me doer para sempre.

Penélope sorri-me em cada fio. Aponta na direcção de Ítaca, onde desenterro conchas e búzios que guardo nos bolsos, pequenos tesouros, para juntar aos nós do macramé. E com os meus dedos, entre nós e nácar, fio a tua voz irreal nos meus olhos e misturo sorrisos desacertados do tempo, a nossa criação contra as paredes de mármore, a minha história com a de Penélope, o teu espaço infinito dentro de uma concha, as janelas no lugar da lua, o mar dentro do sol, a fogueira de lágrimas onde sou queimada, os rosários com a tua forma, Ítaca dando à luz mais filhos. Dedos que se ferem no trabalho árduo de cruzar nós de dia e descruzar fios à noite. Dedos que se deixam pegar por fios invisíveis do teu cabelo que adornam o meu pescoço.

Estou atenta ao intervalo geométrico da malha que pesa nos braços uma longa cortina que fio a fio vai tapando a frieza das salas e estreitando a vista para o mar claro. Sei o que me pedes, uma espera indeferida no tempo, uma outra guerra de Tróia, a renúncia heróica de fios sob nós, a paz nacarada da minha forma usual, a bonança dentro da tempestade que se aproxima.

Desço pela noite dos fios desfeitos até à praia onde entrego as conchas e búzios que não me pertencem. Resolvo que bastam só os nós da malha, o resto fica onde é mais preciso. A espuma do mar enfeita os dedos exaustos da artesã, veste-lhe alianças e jura  eternidade.

Ela pensa entregar-se às ondas porque não quer passar mais dias a fio entre nós repetidos. Tem que haver um remate para a malha crua que se tornou áspera de tantas expectativas. Olha para o que ele deixou dentro de si e decide que de agora em diante os fios ficarão soltos como os sorrisos que trocaram.


Ao som de Midnight Walker, Davy Spillane (The Sea Of Dreams, 1998)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Aviador

Fernando Ladeiras
30 de Junho 1921 - 24 de Agosto de 2010


Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;Ec 3:1-2

É noite de estrelas com quarto crescente. Olho através da janela rasgada que dá para o jardim seguindo os movimentos de início de noite dos visitantes que se vão chegando. Uns trepam às árvores, outros farejam cuidadosamente os troncos e esfregam-se nas plantas que foram regadas ao fim da tarde. Cheira a terra molhada e a uvas morangueiras. Dentro da casa o chá de lúcia-lima, acabada de colher, aromatiza o alpendre da janela rasgada sobre o jardim. A terra que já teve rosas e hortelã aguarda agora que lhe revolvam as entranhas e a preparem para outras oportunidades. Tempo para abraçar e tempo para se separar. Quais são as minhas possibilidades? Estou num caminho desconhecido sem saber o que imaginar. As minhas certezas ruíram (talvez não fossem bons planos), não sei por onde começar, nem se quero continuar. Há um tempo que se esgota e determina a nossa permanência que de repente passa a outra coisa. Acho que chegou o tempo de morrer e de apagar o que se estiolou. Não me apetece sentir o que sinto, nem ser o que já não quero ser mais. Não acredito nas palavras penhoradas pela falta de jeito duma verdade que se esconde. Colocam-se intenções que se pensam as melhores, mas tudo acaba em silêncio. Tempo para calar e tempo para falar. O chá está pronto, no jardim os visitantes aconchegam-se. Toca o telefone que me traz novas sobre o estado de saúde do meu pai. Admiro-lhe a estatura e a constituição física do aviador-desportista, a queda para a música e o gosto pela leitura, a rapidez dos cálculos matemáticos e as soluções intrincadas de engenharia que projectava e, também, o romantismo e a habilidade para a dança que partilhava com a minha mãe.

A mãe e o pai.
Está a reagir bem, conta o meu irmão, acordou e disse que tinha excelentes novidades para todos. A minha irmã levou-lhe o rádio com os headphones, para ouvir o mundo pela Antena1. Há um programa de música jazz que ele adora e lhe recorda a América que tanto amou. A Menina Dança? É assim que revisita o Louisiana e os bares dos negros de New Orleans, que depois de colherem o algodão se entregavam aos blues onde já muitos deles jazem e o meu pai com o sonho americano cortado ao meio, a voar pelos limites dos céus no seu fato de couro, a descrever-se nos loopings da alma em postais ilustrados com destino ao Porto, a treinar canções da moda para os serões de anos que me iriam acontecer.

O pai entre dois camaradas antes de levantar voo

Sinto falta de Setembro, da casa dos avós, da família numerosa e barulhenta, da capela onde se sussurrava entre véus e terços, dos picnics sobre os penedos com a vista a perder-se, da voz do meu pai a cantar “you are my sunshine, my only sunshine”, das tempestades que se abatiam sobre vales e montes e que nos obrigava a fechar as janelas rasgadas do casarão, do meu pai contar que no deserto Mojave assistiu a muitas sobre o maior cemitério de aviões e que a temperatura dos relâmpagos era três vezes mais elevada que a da superfície do sol, das vozes das tias-avós a redobrarem-se nesta altura em rezas a Santa Bárbara por tamanho castigo vindo do céu. Tempo para destruir e tempo para construir. Depois dizem-me que as energias estão a ser trabalhadas numa rapidez irreversível, que há muito trabalho pela frente, que nos está a ser pedida uma entrega sem resistências, que são tempos de profundas mudanças e que haverá perdas, mas que ascenderemos. O que fui? O que sou? Não sei, nem sei se me procuro desse modo. Há pessoas com uma certeza molecular que me aflige de tanta precisão. Não sei se são as mais felizes, mas enquanto detonam o pior que têm dentro delas socorrem-se ao mesmo tempo. Eu afundo-me nas incertezas e imperfeições do meu ADN. Duvido dele, do meu resultado em desalinho. Lá fora é perfeito. A natureza fala com o céu e a lua em quarto crescente responde em nome de todos os corpos etéreos. Estão ligados às raízes com o grande sol central e este com o interior de todos os elementos naturais. Ciclo perfeito. Os visitantes dormem pela noite dentro enquanto os observo da janela iluminada pela luz exterior, que não chega para me cegar. Tempo para ganhar e tempo para perder. Este canto da vida, meu desde o início, atravessa um tempo determinado a deslocar-me no tempo. Mesmo que eu não queira ser um aviador.

Ao som de: Turn! Turn! Turn! The Birds (Turn! Turn! Turn! - 1966)

O meu pai partiu para o imenso céu esta madrugada.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Mater


 
O terraço da casa é cercado por uma amurada de sebes lunares. De lá, todas as manhãs, a mulher observa o seu mundo azul envolvido por luzes que vão despertando. Pequenos seres acordam, bocejam, brincam com as suas asas e rendem outros que guardam aquele jardim. A mulher saúda-os e oferece os seus cabelos longos para que subam e fiquem mais juntos de si. Recebe-os com gotas de mel e maracujá que lhes prepara de madrugada e um sorriso de gratidão por não a deixarem sozinha. É de noite que as coisas se tornam difíceis, o coração num tumulto, os medos ancestrais, a constante vigília de um sono atribulado.
 
Na subida para o terraço fazem dos seus cabelos aquilo que uma vez espreitaram um homem, que se julgava macaco, fazer com os cabelos das árvores. Soltam pequenos gritos inaudíveis aos humanos, que só à mulher é permitido escutar, e ela ri e tenta-lhes imitar as oitavas.  Os vizinhos alertam-se com estes ensaios vocais  que lhes lembram os bichos marítimos do canal Odisseia, sim, aquelas baleias de bossa que têm um canto para chamar os filhos e que os cientistas gravam e levam depois para o Pentágono excitados com a descoberta de uma quase certa espionagem cetácea.
 
Ela sabe que é um pouco estranha para a vizinhança, mas fala-lhes à mesma da Natureza e de Deus, olha para o que eles olham, vê o que eles não vêem e sabe como são tratadas as inúmeras civilizações dos outros quintais. Ela conhece o que esses gigantes pensam e diz aos pequeninos para terem paciência, um pouco mais, que nem todos estão preparados para a mudança, que é preciso fazer um esforço para resgatar a concórdia nos jardins maltratados e promete que tudo fará para os proteger do medo dos desumanos, ela que mal dorme de tanta coisa sentir.
 
Enquanto sorvem as gotas de mel e maracujá ao seu colo, a mulher conta-lhes como foi o princípio em que a terra era o interior da luz. Como uma fotografia que se perdeu e se procura nos sítios mais improváveis depois de tantas viagens à revelia da ordem ela descobriu uma réplica no seu jardim, uma fonte de informação sobre os tempos que esqueceu. Sentiu-se preparada para conceber outra vida na paz daquele mundo que as luzes refeitas do sono envolvem. Dos seus pés descalços saem-lhe raízes douradas que vão penetrando com doçura as rochas sedimentadas até ancorarem no coração da sua origem. Repete o percurso da semente a caminho de se encontrar livre, coração aberto na matéria, a terra em órbita através das suas contracções, a misericórdia das flores e frutos que o tempo sagrado lhe envia, o amor de dois deuses festejado pela boca das aves.
 
Os vizinhos recolhem-se nas casas, não gostam da assinatura da chuva repentina, não agora, que não é tempo dela, o que plantaram não chegarão a colher e não entendem a criatura do lado que permanece no terraço. Pensam ir acordá-la, mas é melhor cada um fazer a sua vida. Os pequenos seres que lhe saltaram para o colo, escondendo-se atrás das orelhas e do pescoço, escorregam agora pelos seus braços e saem em bicos de pés. Deixam-na sossegada a dormitar, a face virada para o espaço num sorriso invariavelmente enfeitado com claves de sol que outras mães universais lhe oferecem. Sabem que viaja frequentemente de dentro de si para outros lugares na companhia de seres que mais niguém vê e de quem sente saudades.
 
Aqui chegou depois de muitas outras imensidões transatlânticas que se desvendaram diante dos seus olhos frequentes. Entre a terra e o mar um grande mundo cresceu todos os dias e uma nova eternidade deixou-a estar sem ficar. Sob as suas pálpebras essa infinitude perpetua-se e os pequenos seres sabem-lhe a origem. Tocam instrumentos de sebes e flores porque é assim que os anjos se anunciam às mães da terra.

ao som de The Memory of Trees, Enya (The Memory of Trees, 1995)