segunda-feira, 22 de junho de 2009

Sonho Azul IV

A reunião do NÃO

Depois da "ressaca" do estúdio, havia uma capa para fazer, fotos para tirar e uma promoção para planear.
Quiseram ir a fundo e a sério com o lançamento da minha pessoa e para começar nada melhor, que modificar o meu nome. Aliás, devia desaparecer por completo!
Incrédula, assisti a várias propostas, numa sala de reuniões da Valentim de Carvalho, sugeridas pelo Pedro e pelo David Ferreira. A questão prendia-se com “Né Ladeiras”. Não era nome para uma cantora quando atingisse os 40 anos...

- “Mas eu ainda só tenho 23!!!! - protestei - "Além de que este é o meu nome, sempre foi. Né, diminutivo de Nazaré, Ladeiras, apelido paterno. Sempre fui Né Ladeiras em casa, na escola, no liceu, na Brigada Victor Jara, nos Trovante, na Banda do Casaco”.... Nunca foi “nome artístico” .


Atónita e a pensar que algo de muito errado - diria mesmo aberrante - se passava, assisti a uma cena irreal, que consistia em 2 listas telefónicas nas mãos do promotor e do produtor com a respectiva avaliação dos nomes alternativos para o novo baptismo.

Nesse dia deixei de sentir qualquer respeito pelos "power rangers" editoriais. Aqui estava a máquina, no seu início, do desrespeito e da vergonha. Seria uma questão de tempo, quando se iniciasse a escolha dos decotes em detrimento de um projecto conceptual, de uma voz, de um canção bem escrita. Eis o epicentro do terramoto quase a estoirar contra a individualidade dos artistas: “tens de te tornar numa Rita Lee portuguesa, ou "porque não te inspiras nas bandas pop estrangeiras?”, " precisas de um hit que entre logo no top"...
Não abdiquei do nome, que era meu. Dei um ponto final àquela reunião ridícula e as hostilidades começaram.
A fama do mau feitio
Não ia ser o meu ano, como havia pressentido desde o início. Se não soubesse o queria fazer da minha vida, se não tivesse a certeza de quem era, teria sido uma presa fácil de manipular por muitos e longos discos. Só que, felizmente, não era! Desejei que o contracto acabasse naquele segundo, mas havia cláusulas a cumprir. Surgiu uma característica que me daria alguma fama no futuro: um certo "mau feitio"...
lololololol
Recursos de personagem
Quanto mais cedo o pesadelo acabasse, mais rápida seria a minha libertação. Assim, assumi-o como um lindo Sonho Azul e dizia, nas entrevistas, que o mundo era maravilhoso. Agarrei-me à memória dos meus pais a dançar na sala ao som de Glenn Miller e Tommy Dorsey, às actrizes e actores dos filmes que se viam lá em casa, às estórias românticas dos tempos de adolescente da minha mãe, à nostalgia que ficou para sempre no meu pai, quando deixou os clubes de jazz de St. Louis...
Enfim, construí uma personagem para levar até ao fim, aguentar com o que ainda havia a fazer, ser forte para engolir o sapo e depois bater com a porta.

A capa ...

Imagem retirada do site http://www.miau.pt/ porque não tenho este disco
A capa foi uma traição. Nem azul ficou .... Um abominável roxo indefinido revestiu uma viela de Lisboa... e prolongou-se pela contracapa com o meu retrato “pintado” . A sessão de fotografias não fora aprovada pelo David Ferreira...
Imagem retirada do site rockemportugal.blogspot.com pela mesma razão....


Sessão de fotografias chumbada
Algumas das fotos "chumbadas" da sessão realizada por Eduardo Keil Carvalho da Silva no dia 17 de Fevereiro de 84 (nota: alguns percalços no seu arquivo - uma mala no sótão - causaram a perda da qualidade que possuíam)


Vestido e chá Dançante com "voz ao vivo" e "orquestra ao morto"
O convite para o chá Dançante/lançamento que terá ocorrido algures entre os dias 4 e 6 de Maio de 84
Comprei um vestido para o lançamento do disco, programado para a Casa do Alentejo, o mais metálico e frio, que descobri na loja da Ana Salazar. Fartei-me de rir com a coluna de mexericos O bom e o bonito, assim se chamava, de um certo Conde de Vila Faia, que rezava assim: “A Né Ladeiras anda numa de azul. Não sei se a moda vai pegar. Certo é que a menina apareceu no lançamento discográfico com um volumoso vestido de zinco! Gostava de saber quem foi o estilista...” para o “jornalista” que aproveitou a festa para comer e beber, o lançamento resumiu-se a um vestido e não a um disco... O que para mim era exactamente igual. Vestido e disco condiziam. Não valiam NADA!
Eis o vestido de "zinco" e volumoso made by Ana Salazar. Foto tirada por Inácio Ludgero para o Semanário Se7e no dia do lançamento, na Casa do Alentejo.

Em cena às 18H.
Luz 75% + introdução de Hotel Astória;
luz a 50% + 30 seg. Luz a 25% ainda com música. Sou anunciada.

Subi ao palco ao som da música e disse: Ora, eu queria cantar um bocadinho - com a voz ao "vivo" e a orquestra "ao morto" ...

Foto de Carlos Gil para a revista Mais
Um abraço de verdade
O único abraço que me soube bem, nesse dia, foi o do António Variações, que vinha de gravar o teledisco É p'ra manhã, ainda com o papagaio de plástico ao ombro. Saiu a correr das filmagens (que estavam a decorrer no Campo Grande) e foi assistir ao mini-concerto de lançamento.
António, alma gentil, coração gigante, um talento que ultrapassava todos. Ele sabia o que eu pensava do panorama... Falávamos muito sobre a direcção que as coisas estavam a tomar. Ele, melhor que ninguém, sentiu na pele a forma deficiente desta industria provinciana, atamancada, pouco aberta a projectos que saíam duma bitola estipulada e na franja das tendências estrangeiras (das piores, saliente-se).

A "prateleira" do António

De realçar que o António assinou contrato, com a Valentim de Carvalho, em 1978 e esteve na “prateleira” durante 4 anos. Não sabiam o que fazer com tanta excentricidade! Só, em 1982, lhe foi dada a oportunidade de gravar o single Estou Além/Povo que Lavas no Rio, que se revelou uma pedrada no charco. Até àquele momento ninguém se atrevera a pegar num fado (e logo este, que não era qualquer um) e o assumia tão fora dos cânones tradicionais. Estou Além, é um manifesto filosófico perante a vida. O single, com produção e arranjos de Tóli César Machado, Vítor Rua e Moz Carrapa, é brilhante, moderno, muito de acordo com o som que o António procurava e que realça o tipo de grande artista que é. Ousado e extremamente honesto. Excêntrico sim, mas não para a fotografia ou como estratégia de publicidade. Ele era assim todos os dias, em qualquer lugar. Na sua barbearia, na sua casa, na rua, no estúdio.

A rapariga romântica rodopiava
Durante a promoção e entrevistas vesti o meu melhor sorriso, afirmei umas frases feitas, algumas autênticas baboseiras, dei-me ares de rapariga romântica e deslumbrada, rodopiei com a leveza possível, apesar do desencanto... e fiz a parte que me competia.

Preparada para sair de cena
Saí-me bem. Não sabia desta capacidade de adaptação da minha pessoa. Considero que fez parte do meu crescimento, ser quem se não é, para se ter a certeza indubitável do que se quer ser de verdade.
A minha verdade não estava destruída. Ficou em stand-by. Por uns tempos...



*
Música: Anjo da Guarda (álbum) - António Variações


3 comentários:

  1. oh né, mas eu tenho o lp do sonho azul! e do corsaria!! tenho todos os teus álbuns, pá!

    se precisares eu digitalizo-te e mando-te ou sei lá!

    anabela, mas nao a tavares

    ResponderEliminar
  2. lololololol obrigada Anabela. Se perderes o sonho azul ou assim não faz mal.... ;-)

    ResponderEliminar
  3. foi com alguma surpresa que fui lendo a partilha da experiência de gravação do disco Sonho Azul. percebi a angústia de alguém que de repente se viu no filme errado e que dentro dos possíveis marcou a sua identidade e went on with the show. no que diz respeito à música do disco, tenho de afirmar que até onde a música ligeira dos anos 80 podia ir, é um belo espécime. adoro os arranjos vocais, a secção de sopro e o baixo gingão do pedro ayres. embora com o sofrimento descrito, tenho de lhe dizer que fez um excelente trabalho né. é o disco que tenho ouvido nos últimos dias. quer saber porquê? na semana passada entrei num bar bem localizado no centro do porto e era o "sonho azul" que soava. li aqui que o pedro ayres foi um ser irredutível e que pensa tudo à grande. tenho dúvidas de que os madredeus tenham sido concebidos para serem grandes, foram, de facto, mas penso que a ideia não era essa, nada que se compare com os heróis ou resistência. quero que saiba que alguém aprecia esse seu filho mal amado.

    ResponderEliminar

Dentro da nave

Astronomy Picture of the Day