terça-feira, 28 de maio de 2013

A origem das coisas (cont.)

Passados dois anos da separação surreal contada aqui e com o 1º tratamento  orientado pelo Dr. Allen Gomes, voltou-me a coragem para acrescentar algo à minha vida. 
Voltei à música e ao convívio das pessoas que dela faziam parte. Não conseguia nem queria ter nenhum relacionamento. Não, depois do amor se ter desfeito como um vaso de barro mal cozido.

Nos finais de 1977 houve um concerto na Aula Magna que reuniu três grupos distintos: a Brigada Víctor Jara, da qual fazia parte; os Trovante (que integrei de 1979 a 1980) e a Banda do Casaco (com quem viria a descobrir novos horizontes cantando em dois álbuns, No Jardim da Celeste (1981) e Também Eu (1982).

Na assistência estava alguém amigo de um dos membros da Brigada Victor Jara, que me foi apresentado no fim daquela noite memorável. Era uma pessoa simpática que convidou o grupo para uma ceia em sua casa e que durante a noite de convívio se mostrou muito espirituosa, inteligente, prestativa e muito curiosa sobre a minha pessoa.
Trocámos correspondência durante alguns meses e cada carta sua acrescentava mais pormenores quanto ao impacto que lhe tinha causado, a voz no concerto, e os sentimentos incontornáveis que surgiram daí. Talvez pela distância que me fazia sentir segura, comecei a dar atenção aos pormenores das missivas  não só pela poesia representada, como pelo gosto estético que  apresentavam. Colagens, pinturas, desenhos, tudo à volta de um enamoramento cada vez mais assumido de quem os escrevia. A isto, creio, chama-se capacidade de sedução que os meus verdes anos não sabiam reconhecer. E passei a gostar de receber essas cartas que eram enviadas dia sim dia não. Penso que o namoro começou a meio dessa correspondência. Para uma mente traumatizada como a minha, o facto de ser cortejada desta forma (distância + arte multi-poética) foi decisivo para deixar de ter tanto medo dos rapazes e acreditar, aos poucos, que poderia haver um amor mais bonito depois do fracasso do primeiro. Foi, sem dúvida,  a confirmação de uma ENORME excepção à regra do ditado popular  "não há amor como o primeiro".

Mas este sentimento, que ainda não era amor, lido ao longo dos meses, nas palavras que não falavam de deveres para com a revolução, mas sim da urgência de amar porque o mundo estava a sofrer uma enorme mudança, despertou em mim uma crença, de que algo melhor podia ser encontrado  e que o mesmo equívoco não se repetiria. Havia a experiência que tinha sido vivida e, agora, havia uma porta enorme que se abria ao que ainda não tinha acontecido.  Não achei  que fosse uma forma de recompensa pelo sofrimento  sentido, mas sim um começo verdadeiro e puro de um amor a construir. E acreditei. Acreditei em cada palavra.
Os primeiros meses da minha vivência com o Paulo foram muito felizes. Ensinou-me muitas coisas nos livros que me sugeria, nas exposições a que me levava; pensava no meu bem-estar quotidiano e eram frequentes as mensagens carinhosas espalhadas pela casa, as tertúlias que organizava para a minha integração no seu mundo, através do convívio com os seus amigos e amigas fascinantes; no estímulo de outras potencialidades que me reconhecia (foi com ele que aprendi a trabalhar na câmara escura e a descobrir-me mais intensamente no gosto pela fotografia); na loucura saudável das gargalhadas cúmplices quando descobríamos Lisboa na sua vespa e, sobretudo, no respeito que demonstrava pelo que eu era e pela minha arte.
Eu sabia que a sua paixão era maior do que aquela que eu podia sentir, mas à minha maneira eu iria reaprender o que podia ser o amor.

Os meses foram passando e começou a haver da parte de um dos principais elementos da família do Paulo, a sua mãe, um nervosismo desconfortável.  
De início não terá ligado para aquela aventura porque seria, de certeza, uma coisa de semanas, sem importância nenhuma. Depois, passou a dar mais atenção ao caso que se prolongava já há meses, e as  visitas surpresa, de observação ao objecto estranho, passaram a ser constantes. 
Não era simpática, mas não era antipática. Sentia-lhe uma frieza imposta pela distância que me demonstrava, uma superioridade que eu não sabia classificar. Acho que ela vivia apavorada que o seu filho preferido ficasse com uma namorada cantora em vez de uma namorada doutora. 
O Paulo era filho de um arquiteto e para arquiteto estava a estudar. 
As mães querem sempre o melhor para os filhos e esta dava muita importância aos títulos antes do nome.
Ao mesmo tempo sentia-se uma tensão crescente entre mãe e filho e eu suspeitava que, na minha ausência, haveria muita pressão para as coisas tomarem outro rumo.

E chegou o dia em que descobri que estava grávida. Não tinha sido planeado, mas ambos sabíamos que podia acontecer. Pelas contas o bebé nasceria em Junho ou Julho próximos e falei abertamente com o Paulo. Não sabia se ele queria ter uma família. E ele queria. Apesar de ainda  estudar, trabalhava no atelier do pai e eu trabalhava com os Trovante. Tínhamos concertos e esta era uma altura em que já não se tocava de graça. 
A chegada deste bebé era muito abençoada e eu acreditei que agora estavam criadas as condições para ter a minha família. Aquela que eu muitas vezes anunciava aos meus pais, quando me sentia ferida por eles, que iria ter e que seria a coisa mais importante da minha vida.
 A mãe do Paulo odiou a ideia e ficou contra. Por arrasto alguns dos irmãos também, com excepção do Zé Pedro, o único irmão do Paulo que sorria, e do pai João Maria que gostava verdadeiramente de mim.
Não vou contar a quantidade de situações irreais e dramáticas que se desenrolaram a partir daqui, mas ainda hoje me lembro da frase marcante da matriarca que me disse à porta de casa: “não tem o direito de ter um filho do meu filho. A única coisa sensata que deve fazer é abortar. Você já foi casada.”

Mas o Miguel veio ao mundo num belo fim de tarde de Julho suave e sem dor, uma das maiores alegrias que jamais havia experimentado, que apagou todos os contras.
 O meu menino, que passou a andar comigo para todo o lado, era a minha verdadeira paixão e, talvez por isso mesmo, a vida com o Paulo começou a deteriorar-se. A pessoa que tinha sido foi mudando, alterou o tom de voz, passou para uma frieza seca parecida com a da mãe, até chegar às acusações sem fundamento que me ofenderam muitíssimo. Vida de cantora, vida de promiscuidade, dizia. 
Não queria acreditar no que ouvia. Fazia muito esforço para desempenhar o meu papel de profissional e de mãe. Cada dia era pior que outro, por vezes quando chegava a casa depois de um ensaio ou de um concerto era recebida com copos e pratos partidos. 

E um dia, depois de estar a filmar nas Guerras do Mirandum (do Fernando Matos Silva), na Tapada de Mafra, a seguir a ter levado o Miguel para ser filmado numa cena em que lhe dava de mamar, não encontrei ninguém em casa. Pai e filho não se encontravam. Esperei. Enervei-me. Telefonei para onde calculava que estariam. Sim, era aí que estavam, mas a ameaça veio de imediato: nunca mais o vês.
Fiquei uns dias pensando que regressariam. Mas não. Caí de novo no poço. Mal conseguia falar. Encontrei apoio em alguns elementos do grupo. As semanas passaram, a depressão tomava conta de mim e reduzia o meu campo de acção e discernimento. Fui à quinta onde se encontravam. Ninguém abriu o portão. Não me deixaram entrar. Porquê, perguntava incrédula. Porquê? 

A razão assentava numa paranóia instalada na cabeça do Paulo (e desconfio de quem a provocou) que eu estava envolvida com todos os elementos dos Trovante e com todos os actores do filme. 
A pior coisa que se pode fazer a alguém é culpá-la por algo que não fez.  
Em 1979 as coisas eram muito diferentes. As influências existiam, mas os mecanismos de apoio eram quase nenhuns. E eu não sabia para onde me virar. 
A raiva tomou conta de mim. E por raiva então envolvi-me. Fui magoada e iria  magoar alguém, mesmo que me desejasse o melhor. E foi isso que aconteceu. Só conseguia sentir frustração e mais raiva. 
Mas o meu menino não vinha para mim e eu tinha de pensar em algo que mo devolvesse.

Regressei para a humilhação da casa dos meus pais. Não me lembro de ter dito uma palavra. Estava disposta a suportar o que fosse. Deixei tudo para trás. Casa, trabalho, e as coisas que me pertenciam. Queria lá saber disso para alguma coisa. A minha mãe preocupava-se com o destino do meu enxoval e das coisas que  tinha oferecido para a casa. É certo que muitas delas foram "guardadas" pelos familiares do Paulo, mas isso não me interessava para nada.

Surgiu, tempos depois, uma possibilidade remota de poder ver o meu menino e voltei a Lisboa. Era só para passear com ele no jardim da Gulbenkian, foram as instruções. Sim, eu vou para o jardim. Mas em vez disso entrei num táxi e fui para Santa Apolónia. Apanhei o foguete para Coimbra e lá chegada telefonei a avisar que de agora em diante as coisas iam mudar. Fui ameaçada de tudo. O Paulo enviava-me todo o ódio que tinha.

Apesar de estar a salvo com o meu Miguel, não estava da  inflexibilidade dos meus pais que se tornou ainda mais rígida. Não era suposto, por exemplo,   levar o Miguel a uma esplanada para conversar com amigos. O meu pai foi claro: tens cá o teu filho e de agora em diante a tua vida vai ser como a de uma freira. Só vives para ele e o resto não existe.
Estava totalmente dependente deles. Económicamente, também. Aí estava a factura de lhes ter dito que um dia seria feliz com a minha própria família. E tudo o que eu fazia ao Miguel era criticado. Se o punha no carrinho para o levar ao jardim, se lhe colocava o chapéu por causa do sol, se lhe dava de comer aquela papa, era sempre tudo mal feito.
Fiquei em Coimbra por mais uns meses até que surgiu a oportunidade de um emprego. Não me importava que fosse outra coisa que não cantar. Tinha que sustentar o meu filho e a mim. A proposta em questão era de tratar de uma casa de um jornalista do Expresso. No fundo, era limpar-lhe a casa. E decidi que ia mesmo para as limpezas.  Foi o descalabro. A minha mãe chamou-me de tudo. Mas não me importei. Tinha as malas feitas e ia viver para o meu bebé.
Levantaram-se as vozes dos amigos da família e dos irmãos. 
"A mãe não se sente bem e se lhe acontecer alguma coisa a culpa é tua".
Já na estação de Coimbra B jogaram a última cartada para me demoverem.  O enviado foi uma pessoa que eu respeitava muitíssimo e que me disse: Pelo menos deixa cá o menino. A tua mãe está a chorar muito e sente-se mal do coração. Já pensaste que vais carregar com o remorso para toda a vida se ela morrer ou ficar incapacitada? Deixa-o ficar por uns tempos e depois vens buscá-lo. Faz isso, não te precipites com a tua atitude. Depois vens buscá-lo. É por pouco tempo, até a tua mãe se habituar à ideia.
Não sei o que me deu. O comboio estava quase a chegar e eu coloquei o Miguel ao colo do Dr. Moura. Entreguei-lhe a mala com as coisinhas dele. “Não quero que aconteça nada de mal à mãe. Mas eu volto daqui a 1 semana. Não mais. E venho buscá-lo haja o que houver".

Parti para Lisboa e comecei a trabalhar. Liguei à minha irmã todos os dias para saber do meu filho e na sexta também, para combinar as horas a que chegaria a Coimbra no sábado. Ia trazê-lo de volta como estava combinado.
A minha irmã diz-me, então, com uma voz estranha:
- Não vale a pena, Né.
- O que dizes?
- Não vale a pena vires.
- Não estou a entender. Dei uma semana, uma, para ele ficar e os achaques da mãe se resolverem. Vou buscá-lo e acabou.
- Não venhas porque ele já cá não está.
Parecia que tinha levado um soco e fiquei sem perceber o que tinha ouvido.
- Não está como?
- Os pais ligaram ao Paulo e ele veio buscar o menino.
Antes de entrar em estado de choque lembro-me de ter perguntado: 
- Porquê? Porque fizeram isso?

- Os pais disseram ao Paulo que não tinham vida para isto, para tomar conta de um bebé, e que o melhor era ele vir buscá-lo o mais depressa possível.


Desta vez não regressei a Coimbra. Fiquei em Lisboa. Não fui parar a nenhum internamento. Entreguei-me à dor procurando em todas pessoas um afecto que me compensasse. Na verdade isso nunca aconteceu porque me era tirado algo mais, mas eu permitia. Andei assim meses. Foi a fase dos casos atrás de casos, mas sem me entregar nunca a nenhum deles. Fazia-o para deixar ficar um rasto de dor em todos e principalmente em mim. Era a punição de ter acreditado que podia ter a minha família e ser feliz.
Durante esse período fui convidada para cantar na Banda do Casaco. Gravámos No Jardim da Celeste que foi o éden à margem da minha autodestruição. Em Argila de Luz senti que era eu. O António Avelar Pinho tinha escrito uma letra que, sem saber, descrevia o estado da minha alma e do meu corpo.  
Cresci musicalmente com este trabalho, mas estava um farrapo psicológico e humano. Ninguém se apercebeu até que ponto. E quando fui informada que não valia a pena ir a tribunal para reaver o meu filho – já que tinham sido os próprios avós maternos a entregá-lo ao pai – decidi sair de Portugal.
No dia 17 de Novembro de 1981 , às 14:30, apanhei o Sudexpress com uma mochila às costas e a viola na mão. Procurava outro lugar, outra vida. 
Não fazia intenção de voltar.

domingo, 26 de maio de 2013

Bioquímica versus Emoção


Os antidepressivos tratam a dor da depressão, mas não curam o sentimento de culpa nem tratam a angústia da solidão.


in a Saga de um Pensador de Augusto Cury

sábado, 25 de maio de 2013

Quatro semanas depois

Mais uma semana de internamento.
Ainda sobre as recaídas depressivas - trabalho que continuou a ser desenvolvido nas aulas de psicoeducação - tentámos identificar, com maior especificidade, os factores desencadeantes que o stress nos provoca.
O que é esta ansiedade? Em que estado de tensão e sob que pressão fazemos esforço para viver?
De novo uma variedade de sintomas que nos passam invisíveis, de novo a necessidade de os reduzir até encontrarmos aqueles que sinalizam esta guerra interna.
- dores de cabeça
- transpiração
- aceleração do ritmo cardíaco  
- dores de costas  
- alterações de apetite  
- dificuldade em adormecer  
- maior necessidade de dormir 
- tremor nas mãos ou no corpo, “tremores internos”
- problemas de digestão
- dores de estômago
- boca seca
- dificuldade de concentração 
- exaltação com factos ou situações pouco importantes
- irritabilidade
- inquietação
- choro frequente  
- aparência descuidada
- tendência para acidentes (normalmente tenho-os na cozinha e nunca percebi porquê. Coisas que me caem, queimaduras e cortes). Esta alínea resulta da falta de concentração perante um trabalho automático, como o de cozinhar, em que o pensamento está focado não no que fazemos, mas naquilo que nos incomoda
- uso de álcool ou drogas


Os factores desencadeantes dividem-se em
1 – acontecimentos de vida marcantes
2 – transtornos diários mais pequenos

O primeiro grupo é composto por motivos de mudança e tudo o que lhe está implicado:
- mudança de casa
- mudança de emprego/ desemprego
- casamento/ divórcio   
- nascimento de um filho/morte de um filho
- doença grave
- receber herança/ ganhar muito dinheiro
- problemas financeiros
- problemas de saúde ou morte de um familiar
- ser vítima de um crime
- problemas com a justiça
- ter um relacionamento/ romper um relacionamento
- deixar de fumar
- iniciar uma dieta
- novas responsabilidades
- ficar hospitalizado
- não ter casa
- problemas com o consumo de álcool e drogas


No segundo grupo as questões do quotidiano são igualmente várias :
- falta de dinheiro para as despesas básicas
- frequentar ambientes agitados e confusos
- transportes públicos
- discussões em casa ou no trabalho
- lidar com pessoas desagradáveis
- não ter privacidade em casa
- não ter intimidade com as pessoas mais chegadas
- tarefas domésticas desagradáveis
- viver numa zona de risco ou de que não se gosta


Deu para perceber que a lista  pode nunca mais ter fim porque cada pessoa encontra motivos perturbadores consoante a sua realidade de vida. 
Poucas são as coisas que nos podem dar alguma paz, o que me leva a pensar que, aquilo que o homem constrói para seu conforto não passa de uma mentira. 
Há sempre uma razão que nos provoca infelicidade e os desgostos acumulados dessa infelicidade torna-nos doentes.

Depois de algumas horas de trabalho elaborei o meu "plano"

Plano de Prevenção de Recaídas
Aviso de acontecimentos ou situações que desencadearam no passado uma recaída:
1. Problemas familiares
2. Fim de relacionamentos e mudanças de casa
3. redução de trabalho (a área cultural é a primeira a cair)
4. Conflitos interpessoais

Aviso dos sinais precoces de alerta vividos anteriormente:
1. Dificuldade em dormir/insónia
2. “Assalto” de memórias angustiantes
3. Cansaço/falta de energia/desinteresse
4. Desilusão com os outros

O que me pode ajudar em caso de estar a ter um sinal precoce de recaída:
1. Consultar psiquiatra/psicólogo
2. Encontrar uma pessoa honesta com quem pudesse falar (mas creio que isso já passou para o lado da utopia porque não existem pessoas honestas e muito menos amigas)
3. Recorrer a um hobbie para canalizar o meu desencantamento com a vida (colocar a minha criatividade, também, como expressão dos sintomas a limpar)

Quem eu desejo que me ajude, e o que quero que me façam:
1. Desejar, desejava que quem criou tudo isto falasse comigo.
Na impossibilidade de receber respostas da fonte principal, conhecer um sábio que me dissesse o que não sei e respondesse ao que eu pergunto há tanto tempo... na impossibilidade de ser um sábio acessível ou de terem deixado de existir sábios, seguir para o ponto 2.
2. Uma terapia que me seja adequada e na qual possa confiar para me ajudar a encontrar as supostas ferramentas com que nasci para minha defesa pessoal e crescimento. Não me limitar à medicação porque esta tem somente atenuado alguns aspectos da crise. Os motivos que a causam permanecem enraizados há demasiado tempo.  
Também desejaria dominar uma forma de estar que pacificasse os meus medos/demónios numa expressão artística que não a música porque não quero mais servir-me dela.

3 e 4 }Estes números são dispensados porque não vejo mais pessoas.
Quem eu quero contactar em caso de emergência:
Bom, se depois das démarches que efectuei, identificando sintomas, reconhecendo o problema desencadeante, procurar ajuda e mesmo assim entrar em crise, só mesmo chegar às urgências e ser internada. 
Não há ninguém para contactar. 
 






Emoções Positivas ou viajar na maionese?


Quando entrei na sala olhei para a frase escrita no quadro:

Saborear as coisas agradáveis da vida.

A psiquiatra que a tinha escrito aguardava que nos sentássemos para começar.

Isto é um pouco estranho, pensei. Quando o nosso pensamento ainda está no polo oposto que coisas agradáveis podemos recordar?

E a sessão começou:

O mecanismo tem de ser activado para prolongarmos momentos agradáveis. No passado não existiram só coisas negativas - olhava para nós à espera de aprovação -  Vivemos momentos felizes - acrescentou -  Não temos controlo sobre o que se passa à nossa volta e não podemos sofrer por algo que não podemos evitar. Ao tentar controlar situações negativas que não dependem de nós devemos perguntar-nos se vale a pena ficarmos por aí ou deixá-las e seguirmos em frente.

Ok – disse para os meus botões - estou a ter uma aula de auto-ajuda à Louise Hay... - e procurei uma posição mais confortável na cadeira.


A Drª L. é uma mulher bem resolvida e enérgica. De facto, transpira positividade por todos os poros e o sotaque venezuelano que não perdeu, embora resida há muitos anos em Portugal, dá-lhe uma expressividade cativante e alegre. Pelo menos as minhas colegas do internamento ouviam-na concentradíssimas, absorvendo cada palavra como alforges de água para matar a sede de toda uma vida.

Isto é o efeito que os livros da Louise Hay suscitam – pensei enquanto as observava. 
Sim, já houve uma época em que li a "pioneira de auto-ajuda" a conselho de uma pessoa conhecida, que me jurou a pés juntos sobre a mudança de vida que  aconteceria se me entregasse  ao  ensinamentos da... qual é mesmo a designação da senhora? Autora motivacional...
Pode Curar a sua Vida e o Poder está Dentro de Si foram lidos, mas não causaram nenhuma mudança em mim. Não sou do tipo de pessoa que se deixa levar embevecida por uma quantidade de clichés e frases feitas e cuja profundidade não vai mais que um degrau raso da entrada de uma porta ao nível da rua.
Retomei a palestra da nossa médica que estava a dar o exemplo de África. 
Fora em tempos voluntária num país em guerra e trabalhou com crianças que nada tinham. Perderam os pais, perderam as aldeias, perderam uma vida e ali estavam , não com o básico, mas com o mínimo dos mínimos e, ainda assim, sorriam e eram felizes. Viviam o presente e agradeciam por estarem vivas.


Mas doutora -  interrompi -  sabemos que o pensamento gera perguntas e respostas, questiona e põe em causa. Qualquer criança vivendo uma situação semelhante ainda não chegou a esse processo de pensamento por ser criança e pelo instinto único de sobrevivência. Os operários que estão concentrados a colocar um parafuso dentro de uma porca não pensam noutra coisa enquanto  estão concentrados na porca e no parafuso. Ora, as pessoas que aqui se encontram, e ficaram como se vê, romperam  com a mecanização das suas vidas. Ao pensar no que tinham e no que lhes faltava colocaram tudo em causa. A consciência tomou conta delas e, seja sobre o passado ou sobre o futuro, o beco foi construído por uma forte emoção. Ninguém vive confortável no beco. Por isso vieram parar aqui. A inocência de aceitar o que se tem, o pouco que se tem, não é duradoura. Essas crianças africanas quando crescerem vão pensar no que passaram e  muitas  caixas de Pandora vão ser abertas... como se constrói um pensamento positivo sobre algo que nos afectou negativamente? A vida, a nossa vida,  planos, sonhos,  expectativas...


Há uma característica estudada na física – interveio a médica – chamada resiliência que é a capacidade de acumular energia sob stress sem haver ruptura, que também pode ser aplicada às pessoas. Perante um choque, um desgosto, um problema grave, supera-se a dor aprendendo com ela e revertendo-a positivamente a nosso favor. Isto é, existe uma capacidade de nos levantarmos depois de cairmos e é isso que temos de aprender.

Depois contou que teve uma paciente no internamento a quem lhe tinha morrido o único filho. A dor que sentia era insuportável, mas ao fim de algum tempo de tratamento decidiu tirar um curso superior e escolheu Direito. E porquê? O facto da morte do seu filho ter sido causada por outra pessoa, num acidente de viação, deu-lhe inspiração para defender os que passam pelo mesmo, a fim de obterem justiça, sentirem apoio e consolo, e prosseguirem com as suas vidas. Foi o que esta pessoa descobriu que tinha de fazer, depois do desgosto terrível por que passou, para prosseguir com a sua.
O que precisamos fazer é começar a dar valor às pequenas coisas - afirmou -  Vocês acham que ter um carro, um telemóvel e muito dinheiro é a única fonte de felicidade? Porque é que aquelas pessoas famosas, habituadas a ter tudo, reagem de forma tão destrutiva? Citou alguns nomes conhecidos ligados à música e ao cinema. Todas concordaram.
Não é melhor sentir o que a natureza pode fazer por nós?  - continuou - O prazer de um aroma, uma paisagem, um canto de um pássaro? Porque não procurar aí uma ligação forte que fique na memória e ao recordá-la sentirmos prazer com isso? E porque não partilhar com alguém sobre essa actividade positiva que fizemos? Comunicar também é uma forma de ser feliz...


Mas doutora – voltei eu – isso seria perfeito, claro...  mas se  todos os dias somos bombardeados para consumirmos o carro, o telemóvel... tudo está feito para a lavagem cerebral nos levar a desejar o que não nos faz feliz. E sobre a natureza? Não há a mínima preocupação, as pessoas nem se apercebem que existe nem a respeitam. Os mesmos que lançam a mensagem de consumo do carro, do telemóvel são os que poluem, estragam, destroem essa possibilidade de recordação feliz... nós não somos nada ao pé desse poder... (não devia falar, mas é mais forte que eu -  pensei. É importante passar uma mensagem positiva, mas isto está idílico demais...)


Devemos autocongratular-nos com o que sentimos, aumentar a nossa percepção, o olfacto, o tacto, deixarmo-nos absorver pela situação e desfrutar ao máximo o momento. Podemos encontrar um novo amor, um novo trabalho! Temos de criar essa possibilidade em nós mesmos. Se permanecermos fechados às coisas, então sim, não vamos conseguir sair da negatividade – insistiu a médica.


Um emprego? - interrompi já arrependida de o ter feito– um emprego para nós que  nada representamos para o mercado de trabalho? E o facto de termos estado internadas? A sociedade estigmatiza-nos, não nos quer dar responsabilidades, não acredita no que valemos porque um dia ficámos “mal da cabeça”. Desculpem estar-vos a dizer isto – e olhei para todas – mas é a realidade que nos espera lá fora. Eu não quero construir sonhos que vão ser novamente pisados.


Mas sonhar é importante! - exclamou a médica – e sim, é verdade que a sociedade é preconceituosa com este tipo de doença, mas vocês têm que ajudar a combater isso!


Olhou para mim e disse por cima dos óculos: eu não conheço o seu caso, mas posso falar com a sua médica e ajudá-la. Vamos ajudá-la.


Obrigada, estou aqui para isso mesmo, para ser ajudada, mas também quando me fala em encontrar o amor parece que estou a ser levada para uma dimensão irreal porque isso não existe e não acredito que seja assim.


Conhecem o Woody Allen? - perguntou-nos sorrindo - Ele tem muitos talentos e um deles é o de saber como as pessoas são. Vou-vos ler uma frase, e com isto queria acabar a sessão de hoje: O talento para ser feliz é apreciar e gostar do que se tem, em vez de se apreciar e gostar do que não se tem – recitou - A tarefa que vos proponho é a de fazerem um plano de actividades agradáveis para serem executadas.


Não sei o que possa planear para mais tarde saborear recordações felizes – disse para mim enquanto saía da sala.
Não tenho nada contra a médica que iniciou esta terapia de grupo sobre pensamento positivo, mas não quero que encha chouriços com coisas tão inalcançáveis como o que tinha acabado de ouvir. Ser-se positivo é importante, mas não acredito que  se chegue lá desta maneira. Se as afirmações terapêuticas de Louise Hay curassem os  seus leitores, metade da humanidade estava salva e não seria preciso escrever cerca de 30 livros à volta do mesmo assunto - ( Pode Curar a sua Vida vendeu 40 milhões) e é só fazer as contas.


No dia a seguir, enquanto dávamos uma caminhada com os enfermeiros estagiários, falámos um pouco sobre a sessão da Drª. L. Perguntaram-me o que tinha achado. Bom... gostei da senhora, percebi que foi voluntária em África, isso tem muito valor para mim, mas não me rendo ao que foi dito. As coisas não são assim.  Mesmo sabendo que a natureza nos pode dar o que tem de melhor, e com isso melhorarmos também, acho que o outro tipo de natureza, a humana, estraga tudo. E a minha preocupação é a de como me vou defender disso. Como posso evitar mais dor vinda desse lado...


Perguntaram-me se acreditava no amor. De quem? - perguntei – no amor dos animais acredito e naquele que a natureza nos oferece em todas as maravilhas que só dela são. Do resto nem pensar. O amor não é fodido como diz o livro. O amor é uma invenção impraticável que faz da nossa vida uma merda.

Passámos por uma rua que nos chamou a atenção. Na esquina havia uma garagem cheia de coisas penduradas. Cestos de vime, patos de borracha, bicicletas, leques, decorativos, carrinhos de bebé, triciclos... decidimos espreitar. Era um ferro-velho/alfarrabista. 
Logo à entrada havia uma pequeno armário a abarrotar de livros. Os meus olhos aumentaram. Agachei-me e a minha mão puxou por um ao calha. Quando virei a capa para ler o título achei estranho : Só o Amor é Real – a história do reencontro de Almas Gémeas, por Brian L. Weiss. Virei-me para o grupo e disse-lhes: este autor é um psiquiatra muito conceituado, especialista em depressões, fobias, ansiedade, um sábio para muitos esotéricos. Olharam para mim seriamente. É verdade! Não é nenhuma Alexandra Solnado. É director do departamento de psiquiatria de um hospital em Miami. Escreve sobre o que foi desenvolvendo com os seus pacientes, regressão e terapia sobre vidas passadas. E neste livro diz que só o amor é real. Interpreto isto como um desafio e vou levá-lo. Elas riram-se.
Entrámos na lojinha cheia de tudo o que se possa imaginar. Máquinas de escrever,  carteiras e malas de senhora, porta-chaves mirabolantes, frascos de perfume do século passado, canetas de tinta permanente, revistas de banda desenhada, cavalos de corda, chávenas de café, tachos de esmalte, candeeiros de porcelana, bijouteria vintage...um mundo de pó e de muitas estórias.
São 3 € - disse o dono do lugar quando lhe estendi o livro.


Reparei que estava assinado por uma Luzia Antunes com a data de 2000. Será que reencontrou a sua metade? Será que não? Terá morrido? O que leva alguém a desfazer-se de um livro? Como chegou a esta loja de velharias? 


Porque me veio parar às mãos?




domingo, 19 de maio de 2013

Três semanas depois

Esta semana, o “trabalho de casa” de psicoeducação foi o de procurar sinais precoces de alerta. Quando surgem, por um factor desencadeante qualquer, e não são tratados de imediato, conduzem-nos a uma recaída. Por vezes são sintomas imperceptíveis à nossa avaliação. 
 
Porém, aquilo que me ocorre quando penso em todas as “pré-crises”, é a vergonha e a culpa crescentes por estar de novo no limiar da depressão e falhar no desempenho do que estiver a fazer. O desejo de camuflar esses sinais, para continuar dentro da normalidade que esperam de mim, faz com que não queira saber dos sintomas. Costumo argumentar comigo mesma que vou ter força suficiente para ultrapassar a ameaça eminente, sem ter de voltar ao médico e à medicação. Erro meu. É muito pior.

Segundo os apontamentos que tirei, a dificuldade em dormir é um dos sintomas que pode evoluir para a insónia que, por si só, já é uma forma declarada de recaída.

Tive meses de insónia, ao longo dos anos, que começaram sempre por um certo desconforto em adormecer. Ler até cair para o lado, ver um filme e adormecer antes do fim, (na verdade via 2 a 3 filmes seguidos) jogar solitário até as cartas ficarem desfocadas, pequenos truques para protelar as evidências que se iam avolumando até não haver mais truques para as contornar...
Mas existem outras que rondam o nosso quotidiano:
- sensação de tensão e ansiedade;
- dores de cabeça e músculos contraídos;
- alterações no apetite (comer de mais ou de menos);
- diminuição da necessidade de dormir (na doença bipolar e na psicose é muito comum) indicador de um estado de euforia em que a pessoa fica com bastante energia apesar de não descansar;
- cansaço, isolamento em casa, não ter vontade de estar com outras pessoas, não lhe apetecer conversar, dificuldade em ambientes sociais;
- irritação, conflitos com os outros;
- parar um tratamento por achar que a medicação não está a fazer efeito ou por esquecimento de a tomar (nos casos de euforia a pessoa acha que já não precisa);
- dificuldade de concentração, de atenção nas conversas, estar na “lua”;
- sensação de que os outros estão contra nós, que nos querem prejudicar, mania da perseguição;
- refúgio no álcool e drogas;
- gastos excessivos em compras de forma descontrolada;
- surgimento de ataques de pânico;
- convicção nas capacidades invencíveis e excesso de confiança (na euforia);
- descuido nos hábitos de higiene, usar a mesma roupa;
- praticar uma actividade durante horas (pode ser uma actividade física como estar em frente a um computador);

Quando a pessoa opta por aguentar/ignorar o desconforto que sente, seja por não querer incomodar ninguém e mostrar a sua “parte fraca” ou por acreditar que é capaz de ultrapassar sozinha essa fase menos boa, fica irremediávelmente ferida sem se aperceber da gravidade da situação. Aquilo que acha ser determinação contra a doença é mais uma renda de filé de vulnerabilidade, tecida pela negação. A pessoa não quer pensar, sentir, viver e encarar as causas da depressão. Na verdade, quando decide pedir ajuda é para sair da crise e não para a evitar...

Segundo o psiquiatra, que orienta estas "aulas", havendo um empenhamento no tratamento ou seja, frequentar um grupo de psicoterapia ou outro grupo de apoio, avaliar com o médico um ajuste na medicação, gerir o stress em actividades que distraiam e aliviem quando se nota alguma alteração, praticar diariamente exercício físico,  não se chegará à temerosa recaída, normalmente pior que a anterior...

O plano de prevenção de recaída é como um estojo de primeiros socorros. Com os sintomas identificados pode evitar-se o que não queremos que aconteça.

Para quem quiser, este questionário existe para ajudar a identificar o que sentimos e nos parece difícil resumir.

 

Questionário de Sinais Precoces de Alerta
(adaptação e autorização, Herz and Melville, 2001)


Sinais precoces de alerta
Eu tive estas manifestações ou sintomas
A minha disposição andava aos altos e baixos
Momentos de tristeza profunda alternados com vontade para desempenhar tarefas sem falhar


Tinha imensa energia

não
Tinha pouca energia

sim
Perdi o interesse em fazer coisas

sim
Perdi o interesse na minha aparência ou em me vestir

sim
Sentia-me desanimada em relação ao futuro
Sim e com razão.
Novas  músicas que não se conseguem gravar; concertos condicionados pela situação actual de crise; paragem do projecto de  levantamento do PCI; em suma, perdas de toda a espécie
Tinha dificuldade em concentrar-me e em pensar correctamente

Tinha dificuldade na concentração. Pensar, pensava demais...
Os meus pensamentos eram tão rápidos que eu não conseguia acompanhá-los

não
Tinha medo de ficar louca

Por vezes...
Ficava desconcentrada e confusa com o que estava a acontecer à minha volta
Sim.
Sobretudo estranheza perante o “funcionamento” da sociedade e do mundo

Sentia-me distante da minha família e dos meus amigos
Sim.
Na verdade constatei que não tinha nem família nem amigos verdadeiros

Sentia-me desajustada
Sim.
Não entendia a “linguagem” dos outros perante a vida. Sentia que tinha nascido no momento errado

A religião tornou-se para mim mais importante do que antes
Este sintoma declarou-se inúmeras vezes em crises anteriores, embora    a minha vida tenha andado à volta do transcendente e de um sinal de Deus. Na crise actual o sintoma foi totalmente oposto. Cansei-me. Afastei-me de tudo. Creio que é o que se designa por crise de fé.

Temia que algo de errado estivesse para acontecer
Sim, sobretudo com a saúde dos meus filhos

Sentia que os outros tinham dificuldade em compreender o que eu dizia

Sim.
E isso transformou-se num sentimento de frustração enorme.
Sentia-me só
Sim.
Terrivelmente só e com muito medo dessa solidão.

Sentia-me incomodada por pensamentos dos quais não me conseguia livrar
Pensamentos não. MEMÓRIAS e tudo o que se relacionasse com o passado , sentindo-me profundamente infeliz e revoltada. Levantava-me e deitava-me com essa dor cravada no coração.

Sentia-me submersa em pedidos ou sentia que exigiam demasiado de mim
Nas tarefas caseiras TUDO dependia de mim. Sentia-me cansada ao ponto de descascar uma cebola ser = a uma travessia no deserto a pé e sem água

Sentia-me aborrecida
Sim.
Comigo mesma

Tinha problemas em dormir
Sim.
Trocava as noites pelos dias

Sentia-me mal sem razão aparente
Não

Achava que tinha doenças físicas
Sim.
Tudo doía...

Sentia-me tensa e nervosa
Sim, e com muita vontade de “partir” tudo.

Irritava-me facilmente pela mais pequena coisa
Desesperava por todas as coisas, pequenas e grandes

Tinha dificuldade em permanecer sentada, tinha de andar de um lado para o outro

Não
Sentia-me desanimada e sem palavras
Sim.
As palavras só aconteciam se as escrevesse.

Tinha dificuldade em lembrar-me das coisas
Sim, no que dizia respeito a coisas recentes, não do passado. Esse está bem vivo na memória

Comia menos que o habitual
Sim.
Saltava refeições e quando comia era pouco.

Ouvia vozes e via coisas que os outros não viam nem ouviam

Não
Achava que os outros olhavam para mim ou falavam de mim

Não
Tinha cada vez menos necessidade de dormir

Não
Irritava-me com facilidade

Não
Tinha um excesso de confiança em relação às minhas capacidades

Não
As minhas despesas e os meus gastos aumentaram
Sim.
Atribuía prioridades consumistas ao meu refúgio para permanecer em isolamento o melhor possível: Livros, coisas para a casa, para o bem-estar dos meus animais e das minhas plantas

Outros
Chorar compulsivamente sempre que o assunto se relacionasse com crianças ou animais, fosse em notícia, em filme ou presencial, (numa esplanada, na rua, no supermercado) independentemente de ser uma coisa má ou boa. Se fosse má era choro de injustiça e impotência; se fosse boa era um choro de comoção profunda


Ataques de pânico na rua, diminuição de actividade física, desconsideração por mim mesma (julgamentos, culpas, com enfoque para todas as minhas imperfeições)



A primeira sessão de psicoterapia aconteceu depois de uma manhã um tanto difícil. Por vezes, queremos o silêncio onde não o há e uma voz, como a de uma das doentes, que compulsivamente vai enchendo a sala, a copa e o corredor, pode ser a gota de água. Preciso de silêncio, de não ouvir nada ou o menos possível.

A psicóloga acha-me ainda muito deprimida apesar da medicação e do internamento de mais de 15 dias, mas acredita que este trabalho é necessário para me ajudar a criar outra perspectiva de vida e uma nova forma de me olhar.
Falar do que vivi não vai ser fácil por ter sido muito e intenso. Houve alguém que me disse em tempos que gostava de fazer um filme sobre a minha vida porque matéria não faltava, nem tempos mortos. Pois não. Alguns aconteceram contra a minha vontade, outros porque  permiti mas, no todo quase surreal da minha sobrevivência, o nível de dor ultrapassou os limites. E há muito tempo que vivo assim. Sei que preciso de abrir cada ferida para a cura. Não aguento mais viver neste estado onde nada cabe, onde tudo é sofrimento e eu uma merda.


O internamento é um mundo à parte onde sentimos uma protecção que não existe cá fora. É uma rampa onde iniciamos passo a passo o treino para voltarmos à realidade, mais preparadas e fortalecidas.
A dúvida que me ronda é que passemos por outros episódios mascarados de incompreensão, desconhecimento, ilusão, fingimento, desprezo, esquecimento, e desconsideração de quem não sente empatia por pessoas como nós. Quantas vão conseguir trabalho? Quantas irão encontrar uma relação que as respeite? Quantas serão avaliadas positivamente pelos maridos, filhos e família depois desta luta? Que delicadeza nos será proporcionada para não voltarmos a sofrer assim? Que credibilidade teremos para as nossas vidas prosseguirem? Mas sobre isto não falo quando conversamos em grupo. Vejo-lhes os rostos semi-abertos num vestígio de esperança e não os quero fechar com a minha descrença. 


Uma da sessões de psicomotricidade foi dada na piscina. 
Há mais de um ano que não entrava numa, desde que um ataque de pânico desconcertante ditou que não havia mais piscina para meu prazer. Não compreendi porque aconteceu, eu que adoro água e preciso dela para me equilibrar, mas conformei-me e deixei de pensar que existiam piscinas. O pânico venceu-me. 
Perguntaram-me se eu gostaria de experimentar, hesitei, mas se me acontecesse de novo teria quem cuidasse de mim. E arrisquei. Que bom ter ido.

Senti de novo o terno acolhimento da água, que me aquietou quanto à ameaça panicosa. Senti-me leve, tranquila, sem espaço para as emoções mais renitentes, as minhas pernas voltaram a ser asas, os meus braços livres de peso, e os movimentos de uma doçura infantil. 
Brincar na água é bom. Quando dava banho aos meus filhos ou quando íamos para a praia a água produzia sons felizes. O cansaço que mais tarde sentia era reconfortante e as imagens dos risos chapinhados ofereciam-me um sono feliz. A terapia finalizou com uma sessão de watsu que me fez adormecer.  Há muito que não sentia este bem-estar.
O watsu é como o shiatsu, mas na água. O relaxamento que proporciona é tão profundo que se pode descobrir um estado harmonioso até então desconhecido. Chegar a esse estado é o mesmo que encontrar uma pérola no fundo mais fundo do mar. A generosidade deste momento acompanhou-me o resto do dia.
E porque se deu início a uma actividade, horas depois, que não condizia com o meu estado de graça, fugi para uma sala onde pude ficar a ler sem ouvir nada.
Na verdade, o grupo de enfermeiros estagiários, que chegou há dois dias, está a fazer o seu melhor para nos acompanhar. Mas a ideia de formar uma tuna, com indumentária própria, ensaios de canções e execução de instrumentos é tudo o que não quero.

A enfermeira chefe, mulher com olho clínico e sensibilidade, propôs um trabalho sobre a história da cidade que me aliciou de imediato e a mais três colegas do internamento. Vai ser necessário pesquisar em livros de História e Geografia e consultar mapas da região. A M. que é perita neste departamento sobre  superfícies terrestres, propôs a requisição de cartas militares para estudarmos as linhas de água que predizem a forma como a cidade se foi formando, para além de muitos outros pormenores importantes que só as cartas militares possuem. Duas das estagiárias decidiram acompanhar-nos neste projecto, que para mim já voa alto: a realização de um mapa devidamente sinalizado com o que deixou de existir (monumentos, bairros étnicos, mesquita, sinagoga, portas, enfim, tudo o que desapareceu para dar lugar ao novo...) e colocá-lo à disposição de quem  quiser saber onde foi o quê.

Ficámos a falar sobre o assunto sem dar conta do tempo. É necessário ir aos núcleos museológicos, à biblioteca, ao turismo, aos monumentos, caminhar um pouco pela cidade com o apoio das enfermeiras, claro. Isto revela motivação no meio da inércia que a depressão provoca e isto só foi possível porque há profissionais que percebem a necessidade de cada doente. Se para algumas a cantoria é terapêutica, para outras é uma tortura. 
E eu não tenho vontade nenhuma de cantar. Nenhuma.

 

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