quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Coisas

Meu refúgio de noite acontece. Um silêncio tímido fala sozinho, mão na boca, vozes a abrir brechas.


Quando o sono não vem sento-me no muro de granito, ajeito a minha saia sobre os joelhos e conto os risos.


Porque nos tornam naqueles que insistem em não conhecer?
 
*
Música: Fortune Presents Gifts Not According to the Book - Dead Can Dance

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O capote e a bandarilha

Triste triste são estas corridas que falam de raça, de alma, de tradições.


Um estorial de vergonha nestas exibições televisivas.



Montadas e toiros ao serviço inexplicável da crueldade e desrespeito.



 
Noite lindíssima de toiros - diz a Helena Coelho...




quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Corsária I


E depois houve qualquer coisa que me avisou de uma inspiração.

Desde há um tempo que me encontrava focada em Greta Garbo. Lia tudo o que fui encontrando sobre a sua vida, (The Divine Garbo-Frederick Sands; The Great Garbo - Robert Payne; Greta Garbo: Portraits 1920-1951 - Klaus Sembach) revia os filmes que passavam na RTP (Anna Karenina, Rainha Cristina, Ninotchka, Mata Hari, A Dama das Camélias), coleccionava fotografias que colocava numa parede enorme até deixar de se ver que era parede e fui aguardando por um sinal.

A 1ª "aparição" já tinha acontecido quando estava na Suécia em 1980. Voltou 2 anos mais tarde, na altura de Hotel Ámen. Na fase "Sonho Azul" tornou-se mais assídua e, definitivamente, veio instalar-se na tal casa do Quebra Costas, em Coimbra.
Esta forma voluntariosa de coabitação não me incomodava nada. Era, aliás, uma óptima companhia. Já cirandava pelo apartamento antes do meu despertar, abria a torneira do chuveiro ao mesmo tempo que eu, tomava as refeições com igual apetite e saíamos juntas cheias de ideias para organizar. Ao longo do dia tricotávamos, escrevíamos (in)confidências, ouvíamos os nossos Lp's, tínhamos grandes conversas.
Os apontamentos das leituras amontoavam-se em cima da mesa numa certa ordem. Permitiam-me reavivar as particularidades de uma rota terrena e ajudavam-me no guião que eu queria o mais fiel à sua imagem.
Memorizei alguns dos seus diálogos cinematográficos, que por vezes repetia quando estava a cozinhar ou a limpar a casa. O meu dia a dia desenrolava-se desta forma natural como uma gravidez sem percalços e abençoada por um conforto estável.
Foi por esta altura que conheci Alma Om. Chegou repentinamente, apresentada por alguém que conhecia as duas. Comecei por lhe dizer que era um trabalho conceptual sobre Greta Garbo e fui desenvolvendo o tema sobre como o sentia e como queria que fosse feito. Fez-se um esboço do plano: As letras primeiro as músicas depois. Mas também podia acontecer ao contrário. Concordámos.
O todo foi surgindo. Garbo era já uma forma com conteúdo e passou a ser.
Gravei as canções numa cassete que ia ouvindo enquanto mais ideias surgiam. Fui idealizando o aspecto da capa e escrevi o storyboard para o teledisco (que nunca viria a ser feito) e decidi mostrar tudo ao Nuno Rodrigues, que durante este intervalo me dizia para eu nunca deixar de compor. Ele achava piada às minhas ideias sobre corsárias vindas dos confins, teimosas na resolução do contínuo labirinto.
Eu sabia que a única forma de salvar a jangada do mar alto dos desencontros e desilusões era deixar que a musica acontecesse. Na intimidade do meu espaço. E ser eu. E ser eu passava por seguir a rota de uma lenda viva e tentar perceber o porquê da escolha daquelas coordenadas.

Pensámos em conjunto sobre quem seria o arranjador das canções e após algumas conversas chegámos à pessoa ideal. Tinha sido editado, nesse ano, um disco excepcional de Luis Cília, A Regra do Fogo. A sua sonoridade tinha muito a ver com o que eu procurava para Corsária e trabalhar com um Músico como o Luís era uma honra.

Estava felicíssima.

Contudo, uma condição foi colocada ao Nuno. Teria de haver uma cláusula no contrato, que ressalvasse a sua não edição caso acontecesse alguma coisa com Greta Garbo.
A"coincidência" de fazer um disco póstumo estava fora de questão. Nem foi preciso inventar uma cláusula. O Nuno entendeu a minha vontade e concordou totalmente com ela. Também, por algum motivo tinha saído de uma editora grande para ter a sua (Transmédia) e humanizar estes aspectos normalmente vistos como "exigências bizarras dos artistas"...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O medo e o Mestre


Entre 1985 e 1989 vivi entre Coimbra e Sintra. Comecei a compor outras músicas e fiz algumas incursões que marcaram a minha rota desigual. Uma participação no Festival RTP da Canção com um tema de Rui Veloso e Carlos Tê - Jura (que nunca gravei) - e o convite que me chegou num telefonema do Júlio Pereira para participar no último trabalho de Zeca Afonso, Galinhas do Mato.
Já tinha vivido a experiência em Fura Fura (1979) quando os Trovante foram convidados a colaborar. Cantei a segunda voz n' As Sete Mulheres do Minho e lembro bem a importância que teve para a minha vida aqueles dias passados no estúdio Arnaldo Trindade com o Zeca e os meus colegas de andanças Luís Represas, João Gil, Manuel Faria, Artur Costa e João Nuno Represas.

O Zeca era uma pessoa especialíssima. Um génio da música e das palavras (daí a minha "luta" para que cantem SEMPRE em português e não aceitar que o façam numa língua que não esta. Sobre este ponto hei-de explicar-me melhor, não hoje) muito distraído (como os génios são), com um humor inigualável e uma coerência de que tenho muitas saudades.

O avanço progressivo da sua doença não o impediu de dirigir os ensaios e as sessões de estúdio. E de que maneira! Nunca conheci ninguém com tanta força e humor. Ele animava-nos com anedotas e peripécias que tinha vivido. Deitado na cama acompanhava os ensaios e escutava as ideias dos arranjos do Júlio Pereira. Num desses dias revelou que Benditos (a canção que escolheu para eu cantar) era o seu testamento. De repente fiquei insegura e apavorada. Apercebi-me da enorme responsabilidade. Eu cantar o testamento daquele homem? do Mestre? Não estava à altura. Não estava. Disse-o repetidamente ao Júlio, que tratava de desdramatizar o medo tranquilizando-me com ensaios extra e muita paciência. Mas o que é certo é que crescia de dia para dia sob várias formas: rouquidão, insónia, acessos de tosse, vontade de chorar e até raiva de mim. Cresceu e tomou conta de tudo, o que revelou uma imensa falta de profissionalismo da minha parte... Eu não estava no meu melhor. Tinha problemas com a realidade de certas dimensões universais e a minha pequenez. Um minúsculo granículo de areia nesta imensidão...

Infelizmente, com as mudanças de casa, perdi alguns dos meus diários, o de 1985 incluído. Conto com a memória parcial. Os pormenores que precisava para completar a estória (por serem mais precisos) perderam-se.

No dia em que gravei Benditos deu-se o apagão vocal. O Zeca com o seu sorriso rasgado dizia-me da cabine de som: calma, não estás a fazer nenhum exame!
Repeti não sei quantos takes. Cada um mais horrivel que o outro. Olhava para o Júlio desesperada e uma das vezes pedi-lhe: deixa-me gravar noutro dia, hoje não. Não consigo.
Saí do estúdio com uma vontade enorme de me desintegrar. Achei-me um monstro por estar a desiludir o Zeca. Desiludi todos. Fiquei mesmo muito zangada comigo. Muito.

Galinhas do Mato conta com interpretações magníficas de Helena Vieira (Tu Gitana), Luís Represas (Agora), Janita (Moda do Entrudo, Tarkovsky, Alegria da Criação), José Mário Branco (Década de Salomé) e do próprio Zeca (Escandinávia Bar). Foi gravado pelo mítico Zé Fortes e Rui Novais no Angel Estúdios.

Talvez um dia pegue na guitarra e cante Benditos na maior entrega que descobrir no fundo de mim.

Zeca Afonso faria ontem 80 anos.
*
Música: Por trás daquela janela - Zeca Afonso

Astronomy Picture of the Day