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segunda-feira, 1 de julho de 2013

9 semanas depois

Sinto-me cansada.

Sinto-me sem esperança.

Sinto-me regredir na dor.

Sinto-me sem nada. 





quinta-feira, 27 de junho de 2013

Até chegar lá

Ao vivermos num estado de culpa permanente reagimos de duas formas:


a) - projectamos a culpa no outro (o que poderá dar uma aparente sensação de alívio, mas que comigo não funciona)
b) - aplicamos um auto-castigo, sabotando tudo aquilo que mais desejamos (adoecendo e tendo uma especial propensão para acidentes de vária ordem, que é o resumo da minha vida).

Impeço-me de analisar o cerne do erro e de aprender com ele. 
Quisera eu  pegar-lhe pelos colarinhos e abaná-lo até ficar nu e insignificante, mas tenho fugido de muitas formas, fugido da possibilidade de me consertar e de crescer com o que poderia aprender, embora tenha procurado de outras formas, a estabilidade na base dos meus frágeis alicerces. E procurei muito na espiritualidade...

O medo de enfrentar o que não quero ver e a impotência diante deste medo atira-me para um poço, o da culpa.

Na verdade, pelo facto de sentir que nunca fui aceite pelo que fui e sou, de perceber que não era capaz de corresponder às expectativas que esperavam de mim, de passar de fracasso em fracasso emocional, fui enfraquecendo e ficando extremamente manipulável no sector afectivo. 
Assim, tenho visto a minha liberdade  diminuir e a culpa aumentar.

Penso que, para já, o monstro nº 1 está identificado, só que ainda não sei o  que fazer. 

Estou numa sucessão de causas e efeitos incompatíveis com a felicidade.







domingo, 23 de junho de 2013

Oito semanas depois - Uma tournée e muitas viagens no tempo

Esta semana, para além das sessões que constam do programa do hospital, foi consagrada à "tournée" da Anima Tuna. As minhas colegas, juntamente com a equipa de enfermagem estagiária, fizeram concertos em várias escolas e, também,  na sala de palestras do hospital. 

Eu participei como fotógrafa da digressão.

Não conseguindo estar ligada à música desta forma, tentei não me excluir procurando um motivo útil. E que melhor senão o de registar as expressões que se abriram diante de palmas calorosas e elogios? As minhas colegas estavam felizes.

O público pequenino é muito exigente e reage espontâneamente quando a coisa não corre bem. A tuna foi um sucesso junto destas crianças que cantavam e batiam palmas com entusiasmo. 

Houve, porém, uma manhã em que eu não consegui participar. Os meninos do infantário, de chapéus amarelinhos, agarrados uns aos outros pelos bibes foram de encontro às memórias de uma infância que ainda não consigo superar. 
A Enf. C. que adora fotografia executou muito bem a reportagem.

Das muitas fotos tiradas seleccionámos 452. Destas serão escolhidas umas quantas para ilustrar estes momentos no jornal do hospital de psiquiatria. 

Aqui fica um cheirinho...




Prossegue o levantamento das portas da cidade (a menina dos meus olhos, da M. e da V.) que está em fase de revisão. 
Fomos ao terreno com as enfermeiras estagiárias para fotografar, tirar coordenadas com o GPS, visitas essas que se repetem para cumprir  o rigor que desejamos.

Uma das últimas saídas implicou um estratagema para identificarmos a localização de uma das portas que há muito não existe na zona ribeirinha. Seguindo uma iluminura de Pier Maria Baldi (séc.XVII) a M. com as enfermeiras Marlene e Catarina posicionou-se à entrada da ponte D. Luís, no sentido Tapada/Santarém.  A enf. Marlene (responsável pelo levantamento fotográfico) tirou várias fotos que centravam a cúpula da Igreja de S. João Evangelista situada no Alfange, apanhando postes de electricidade pelo caminho para depois se fazer uma linha até ao rio com um ângulo de 45º. Aí, e segundo o que a iluminura revela, estaria a porta desaparecida.

Fazia imenso calor, lembro-me bem... regressámos ao local das nossas investigações e caminhámos até chegar ao dito ponto. Mas não foi assim tão fácil. Precisámos de identificar os postes de electricidade pelo caminho, bem como alguma vegetação que se via nas fotos captadas anteriormente. Mas acreditamos que demos com a Porta das Almas, hoje um local de vegetação por cima de um muro.

Estas portas foram totalmente destruídas aquando da construção da linha de caminho de ferro, no séc.XIX, o que gerou muitos protestos por parte da população.

Aliás, nesta altura, a destruição era a palavra de ordem em nome de uma modernização que depois utilizava a pedra das muralhas e portas para calcetar as ruas ... a este propósito escreveu Alexandre Herculano:

Santarém, sendo uma das povoações do reino mais rica em monumentos, parece que por isso mesmo tem merecido mais o ódio de certa gente, que das três potências da alma, memória, entendimento, e vontade, só admite a última; e com razão: porque, para fechar e descarregar uma camartelada, é mais que suficiente.


 Por aqui foi a Porta das Almas

 Aqui ainda se vêem vestígios da Porta de Palhais

Entre o final do muro à esquerda e as árvores foi a Porta de Valada


Este trabalho, por tudo o que implica, é apaixonante. De uma bibliografia passamos para outra fonte, mais o contacto com arqueólogos e historiadores que trabalharam neste tema, mais uma ida ao núcleo museológico, mais um pedido de esclarecimento nas dúvidas que se colocam, porque somos leigos e queremos muito aprender, sobretudo fazer uma apresentação dos acontecimentos o mais rigorosa possível.

Penso que quando se conhece melhor o local onde vivemos mais respeito e admiração lhe temos, mais cuidado com a sua preservação desejamos. E eu desejo que tudo isto não se perca porque foi fruto de muito trabalho e sacrifício daqueles que a história não reza, da maioria que não tem o nome gravado em placas comemorativas, os anónimos insubstituíveis e indispensáveis na construção de um tempo.


domingo, 16 de junho de 2013

Início do caminho ou o encontro com os monstros de estimação

Durante muito tempo procurei nos outros algo que me completasse. Queria ver através dos seus olhos a avaliação que fazia de mim mesma. Erro. Coloquei qualquer possibilidade de ser feliz nas mãos que, não sendo as minhas, pouco puderam fazer. Só dependia única e exclusivamente de mim.

O que isto deu foi algo parecido com:  se for amada é porque sou boa pessoa, se não for é porque sou lixo.

E cá estou, a separar o lixo interno de culpa e julgamento acumulados, depois de anos de castigos e auto-sabotagens...

Eu sentia o meu desejo de liberdade inexplicavelmente grande e o facto de não me apegar muito a  grupos e mentores já era o início do caminho. Mas o medo dos meus monstros foi maior.

Mais cedo ou mais tarde chega a hora de nos olhar e descobrir quem verdadeiramente somos.

Não faço ideia do que vou encontrar, mas preciso de fazer a minha parte.




sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sete semanas depois e um deus que não existe



Semana difícil. Parece que regredi. Não sinto que tenha sido abençoada pelo que tanto procurei.

No refeitório do hospital olhei com horror para o que não queria.

Tolerância ZERO para o João Moura jr. um energúmeno em crescimento.

Aguardo que a providência  o coloque fora de órbita antes que cresça demais e espero  que sofra lenta e profundamente como o vitelo que serviu de publicidade para os seus cães .

Tolerância ZERO com monstros iguais ao jogador argentino que atirou contra a bancada um pobre cão indefeso.

Tolerância ZERO com tudo o que se está a passar sobre um mundo perigosamente vulnerável onde uma grande maioria vive mal desde que o mundo foi criado.

Deus dorme descansado, sem interferir, fazendo-nos gozar do tal livre arbítrio que não serve para nada, quando o mais forte descarrega, como sempre, de forma insana e violenta.

Sabe, sr. deus, sempre que os meus filhos eram ameaçados, fosse por quem fosse, eu atirava-me de cabeça e defendia-os.
Não é isso que o vejo fazer com nenhum de seus. E o sr é perfeito, eu não.
O sr. não passou anos com depressões que o tornaram incapaz de velar pelos que ama.


Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus e que ele não existe realmente - Madre Teresa de Calcutá

sábado, 8 de junho de 2013

Seis semanas depois

Depois do ciclo completo de sessões, sobre o nosso transtorno psicológico e seu tratamento, ficou-se com uma ideia da situação que cada doente enfrenta.
Não quer dizer que consigamos seguir a par e passo - e neste ponto falo exclusivamente por mim e das incapacidades ainda existentes – mas reconheço que as horas que passámos durante este mês de internamento, com o psiquiatra João da Cruz, foram importantes para confirmar que há uma psiquiatria que dialoga e explica as nossas dúvidas e temores.
Continuo a não aceitar cegamente a terapia da medicação. Acredito que no início de uma depressão sejam necessárias algumas “drogas” para os níveis de ansiedade descerem e o descanso cerebral ser reposto mas, atingido esse propósito, outras formas devem ser aplicadas na reabilitação do doente.
Não falo em cura porque, sinceramente, acho que é uma doença crónica. Falo numa “desintoxicação” de emoções negativas e falta de perspectivas de vida que podem ser revertidas. Isso a medicação não faz. Não limpa a nódoa deixada pela dor. Não arranca a raiz dos problemas e dos traumas que a causaram. Adormece-os por uns tempos, o tempo que se consegue aguentar sem dor, até novo embate por essas experiências vividas. E embora, depois destas sessões, os sintomas precoces de alerta tenham ficado mais fáceis de identificar bem como o respectivo plano de prevenção de recaídas, na minha opinião nada  impede que um novo  mergulho na escuridão depressiva suceda.

As tácticas de distracção anti-angústia não deixam de ser válidas – dar uma caminhada, ler um livro, falar com alguém, ter um hobbie – mas depende em muito do quanto ela pesa e dos fantasmas que a empurram para nos subjugar. Depende de nós e dos outros.

Eu queria enfrentar esses monstros que convivem comigo já há demasiado tempo. Perceber o porquê de tantas escolhas mal feitas, de tanto complexo de culpa, de tanto falhanço com os outros, de padrões que me levaram a repetir a credulidade de ser aceite e amada sem, no entanto, o conseguir, o porquê de não ter tido uma família, o porquê de caminhar para o precipício sem ver onde ponho os pés, o estar quase a chegar a algo feliz e tudo se desfazer, o porquê de tanta escuridão na minha busca pela luz.
Lamento que os profissionais especializados na regressão e hipnoterapia não pratiquem nos hospitais. Também isto é um negócio... e a forma de seleccionar os que podem e os que não podem, por questões monetárias, encontrar uma cura ou repetir internamentos, é profundamente injusto.
Olho para cada uma das internadas e sei que todas têm um imenso desejo de viver, uma capacidade extraordinária de amar a vida que a maioria não entende e, por isso, rotula levianamente.

Quando alguém tenta o suicídio, por exemplo, as “vozes sãs” da sociedade consideram a maior das fraquezas e cobardias. Eu não acho.
Quem ama desta forma incomensurável não encaixa a dor que lhe está proporcionalmente relacionada. São seres raros, de enorme coração, logo extraordinariamente indefesos mediante uma palavra, uma atitude, um golpe de maldade dado por outrem. Esta fragilidade é confundida, normalmente, com fraqueza e da fraqueza nasce o descrédito que se espalha sobre estes seres com tanto para dar.
Tenho testemunhado habilidades e dons que vocês, comuns mortais, nem imaginam.
A maioria das actividades são feitas em conjunto e os casos que levaram a pessoa fechar-se numa redoma de quase loucura revelam-na perspicaz e assertiva num raciocínio analítico, consciente de detalhes que mais ninguém vê mediante um enigma, sorrindo sinceramente quando tocada por algo que a faz sentir especial. Vejo isso na psicomotricidade, no relaxamento, na estimulação cognitiva, na terapia ocupacional, na participação interessada destas aulas de psicoeducação.
Eu não quero ter alta e muitas das internadas também não. Esse dia é pensado com temor. E embora haja quem sinta saudades da sua casa e dos que lhes são mais próximos, nota-se sempre um abatimento quando a novidade é dada pelos médicos.
Funcionamos numa comunidade que aí fora não existe. O conceito de interajuda é real. Dar apoio a quem se sente pior, num determinado dia, é verdadeiro. Não há falta de tempo nem sensações de impotência com o mal estar dos outros.
Os outros que estão por fora assustam-nos. Eles desconhecem os sintomas que sentimos e a forma como procuramos estratégias para os resolver. Não compreendem o esgotamento que nos toma depois de tanto tempo sob emoções encapeladas. Não vêem para além do seu extremo egoísmo por dentro da sua vida plástica. Não valem nada. Não sabem nada de nada.
E é neste preciso ponto que entra o que se designa por competências sociais e a gestão de conflitos.
Por mim mandava esta gente toda à merda porque quando me explicam que:
- reflectir
- ouvir a outra pessoa mostrando compreensão e atenção
- reduzir a hostilidade
- expor a nossa perspectivas
e por fim dar o passo para
- negociar
eu pergunto: mas não foi isso que tentei desde que nasci? Porque será que desisti de o fazer?
O psiquiatra reforça que prestar atenção ao que estamos a sentir é o passo inicial para chegar à capacidade de controlar as emoções e sentimentos ou seja, autocontrole. O nosso futuro melhorará se não agirmos por impulso.
Este instinto primordial tem a sua origem na amígdala, localizada no sistema límbico, identificadora do perigo e que, mediante as situações, nos leva a atacar ou a ser atacados.
A esta marca de sobrevivência, que se mantém desde sempre, para que não seja activada de forma automática, gerando resultados imprevisíveis, deve juntar-se o exercício de autocontrole a fim de não sermos escravos dos nossos instintos.

Existe o oposto – autocontrole excessivo – prejudicial pelo bloqueio que causa favorecendo um descontrole no futuro...

Um conflito – prossegue o psiquiatra - gera sentimentos negativos direccionados à outra pessoa levando-nos a agir de forma mais agressiva. A capacidade de reflexão dá-nos algum tempo para saber o que fazer perante as circunstâncias, mas também depende do estado de espírito em que nos encontramos.
Podemos modelar a nossa forma automática de agir, mas é verdade que não o podemos fazer em relação à forma de agir dos outros. Ao mudarmos a nossa perspectiva e expondo-a podemos chegar ao passo da “negociação”.
Os instintos são inatos. O autocontrole ou força de vontade é o que nos diferencia dos outros animais, permitindo-nos ter controle sobre os instintos:

- autocontrole 
- compromisso e negociação 
- sair de uma situação de stress
- discordar sem discutir
- responder a acusações falsas

Ao reler os apontamentos durante o intervalo concluí que não sei o que fazer com isto. Negociar o quê? O que me foi interdito e continua a ser?
Optei por me afastar de qualquer tentativa de colocar os meus pontos de vista à consideração de quem me magoou. Não sei responder a acusações falsas com autocontrole. O meu instinto diz-me para permanecer longe de quem me quer alienar.

Recorri ao meu bem amado Teixeira de Pascoaes para nunca me esquecer:
“A finalidade da vida é a definição da existência. E digo finalidade, porque todo o esforço da Natureza se dirigiu e dirige num sentido humano ou consciente. O destino do homem é ser a consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus. O homem é ele e o seu habitat. É céu e terra contidos numa definição espiritual ou consciente. O homem, sonhando, transborda de si mesmo, amplia o mundo, porque ilumina as suas dimensões desconhecidas. O sonho é alta temperatura, um estado térmico da alma, a sua incandescência. O absoluto é dos poetas e o relativo é da ciência. O sábio observa, analisa, decompõe; o filósofo generaliza, dá o conjunto; o poeta dá o significado anímico das coisas, a sua própria natureza. A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade fria da razão “
É disto que se trata no nosso mundo invisível, entre as paredes de um hospital psiquiátrico, de um quarto onde ninguém entra, da nossa cabeça.  
Mostramo-lo à nossa maneira.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Dor crónica

Pensar no perdão é impensável, apagar o que me feriu é impossível.

O passado não ficou no seu devido lugar.

Não consigo viver o presente, não consigo libertar-me. 

A dor roubou-me o futuro.





sábado, 1 de junho de 2013

Cinco semanas depois

Competências Sociais ou a importância de nos relacionarmos com os outros.


Este tema pareceu-me muito complexo e difícil.
Com o desgaste gerado por uma comunicação deficitária desde a minha infância e adolescência (nunca se conversava na família. Os tons irritado do meu pai e recriminatório da minha mãe, empurravam-nos directamente para a discussão) e pelas desilusões pessoais posteriores, coloca-se a dúvida sobre esta incompetência comunicativa se ter tornado num traço do meu carácter e se, com o treino que se pretende com estas sessões,  é possível atingir o que sempre foi tão inacessível: sentir-me melhor na coexistência com os outros.
Segundo o psiquiatra, a gestão de conflitos proporciona satisfação no relacionamento social sem a interferência de mágoas, ansiedade e a costumada frustração de não compreendermos nem sermos compreendidos.
Ora isso já eu imaginava. Soa bem.
Como reagimos perante um conflito?
a) – afastamo-nos da discussão
b) – respondemos na mesma moeda (entrando na discussão com agressividade)
c) – ignoramos a discussão

Eu fui muito b) e passei para  a)
Mas não me sinto bem em nenhuma das formas
Ignorar também não consigo. Fica tudo registado, o que me provoca muita ansiedade e ressentimento.
Perguntei se isto, a falta de jeito para falarmos com os outros num momento crítico, é uma desvantagem química ou algo mais.

O psiquiatra explicou:


O stress não altera os genes, mas contribui para a vulnerabilidade... pode desorganizar a parte química do cérebro.


E depois acrescentou: 
Com o tempo vão-se perdendo capacidades na organização do pensamento, à conta dos surtos e crises.

Então é isto? Somos um mundo químico? A inteligência, a filosofia, a poesia, a arte, Epicuro, Confúcio, Einstein, Sartre, Sophia, Eça, Baush, Mozart, exprimiram-se por um consentimento  químico?
Como explicamos o medo e as emoções? Como podemos colocar dúvidas e estimular a arte de pensar?

Não estou nada sossegada  quanto ao assunto, e menos ainda por imaginar que o meu cérebro químico, de tão danificado estar, pode não "querer" evoluir para  coexistir com o resto.

E sendo assim, "mesmo a calhar", esta semana vivi um episódio no âmbito deste assunto:
Cortei com uma pessoa (a única que me mantinha ligada à área profissional) que me decepcionou muitíssimo. Alguém, de quem esperei, ao longo deste mês de internamento, uma maior compreensão sobre a minha miséria interior e não provocasse uma situação de maior vulnerabilidade.
Outro "marco" no meu caminho de perdas, outra ferida que precisa de sarar.

Agora sei que o meu retorno à música, já muito remoto, não se fará.
Esgotaram-se as hipóteses de confiança naquela parte da "máquina" que me organizava a vida  para eu poder ser o que era. E isto é tudo tão estúpido. Porque se magoa uma pessoa que está doente?

Sei que sou demasiado sensível. Sei que não possuo  um escudo emocional. Quando sou ofendida fico com a minha vida estragada. Sinto-me numa prisão de medo. Vivo com uma tonelada de culpa. Sinto dor física pelos que vivem maltratados. As memórias perturbam-me. O pânico e não aceitação da morte torturam cada dia que vivo.

Onde está a parte química do meu "disco rígido" para deletar?


Houve uma saída a Lisboa com o grupo de internadas, terapeutas e médicos. Não fui por falta de entusiasmo. Lisboa ainda permanece confusa para as minhas possibilidades de orientação e a ideia de visitar ao Pavilhão do Conhecimento não me entusiasmou. Iria chocar com as visitas que eu programava com os meus filhos e todas as memórias de quem teve alguma coisa e agora não tem nada. Preferi ficar com os meus livros e rever o trabalho que estou  a desenvolver com a M., V., P. e R. sobre  a história da cidade.

Já andámos pelo terreno para realizar o levantamento das coordenadas, que vão sinalizar com precisão o que vai ficar no mapa, bem como o registo fotográfico dos locais. Passámos a contar com o apoio da câmara municipal para a sua elaboração, e o projecto foi bem acolhido quando se transmitiu a vontade  de se criar uma parceria.

Quem vier de futuro ficará a saber onde se situam as 14 portas da cidade, os bairros mouro e judeu, assim como os seus templos de culto.

A equipa de enfermagem e de terapeutas tem sido incansável e muito organizada. No meio de tantas actividades diárias há sempre o cuidado de nos proporcionar o tempo que necessitamos para trabalhar no projecto.

O jornal trimestral editado pelo serviço de psiquiatria foi-me dado para paginar e modificar gráficamente. Assim, enquanto os ensaios da tuna se vão realizando ficarei resguardada, mas a produzir uma coisa que me dá prazer.
Vontade de cantar - 0

Ontem tive um momento feliz. 
Voltei à ASPA com uma voluntária que me pediu para a ajudar. 
O caso é o de um gatinho bebé, abandonado no Cartaxo e que a APAAC (Associação de Proteção dos Animais Abandonados do Cartaxo) vergonhosamente não quis recolher, que precisa de ser amamentado. Todos os voluntários se têm revezado para o fazer.

Eu sei que quem me ajudou foi a voluntária. Intuiu que aos poucos e no meu rítmo posso colaborar. E estou-lhe muito grata por isso.

Aquele corpinho minúsculo embrulhado no meu colo abraçava o biberão com as duas patinhas a mamar sofregamente. Depois, já saciado da fome, começou a querer brincar. Deu uns passinhos desajeitados, esticou as patinhas de encontro os meus dedos que corriam à volta dele para lhe fazer cócegas e mimos. Limpei-o com um toalhete como as mães gatas fazem com a língua. Senti-lhe o ronronron junto ao meu peito.  
Meu pequenino lindo, quero-te muito. E estás no lugar certo.  
A boxe dele tem uma bela caminha amarela, brinquedos, a caixinha de areia que ele utiliza muito afoito, a tacinha de água, e ainda sobra muito espaço para explorar a sua curiosidade de bebé.

Eu sei que vai ser muito feliz. 
Ter sido rejeitado não lhe vai diminuir a confiança para viver com um humano. Ele saberá gerir qualquer conflito futuro...


Eu e Davi, numa foto recente. 
Este gatinho tão maltratado que foi, também é um exemplo de sucesso na gestão de conflitos.
O que ainda há para aprender com eles é tanto...



terça-feira, 28 de maio de 2013

A origem das coisas (cont.)

Passados dois anos da separação surreal contada aqui e com o 1º tratamento  orientado pelo Dr. Allen Gomes, voltou-me a coragem para acrescentar algo à minha vida. 
Voltei à música e ao convívio das pessoas que dela faziam parte. Não conseguia nem queria ter nenhum relacionamento. Não, depois do amor se ter desfeito como um vaso de barro mal cozido.

Nos finais de 1977 houve um concerto na Aula Magna que reuniu três grupos distintos: a Brigada Víctor Jara, da qual fazia parte; os Trovante (que integrei de 1979 a 1980) e a Banda do Casaco (com quem viria a descobrir novos horizontes cantando em dois álbuns, No Jardim da Celeste (1981) e Também Eu (1982).

Na assistência estava alguém amigo de um dos membros da Brigada Victor Jara, que me foi apresentado no fim daquela noite memorável. Era uma pessoa simpática que convidou o grupo para uma ceia em sua casa e que durante a noite de convívio se mostrou muito espirituosa, inteligente, prestativa e muito curiosa sobre a minha pessoa.
Trocámos correspondência durante alguns meses e cada carta sua acrescentava mais pormenores quanto ao impacto que lhe tinha causado, a voz no concerto, e os sentimentos incontornáveis que surgiram daí. Talvez pela distância que me fazia sentir segura, comecei a dar atenção aos pormenores das missivas  não só pela poesia representada, como pelo gosto estético que  apresentavam. Colagens, pinturas, desenhos, tudo à volta de um enamoramento cada vez mais assumido de quem os escrevia. A isto, creio, chama-se capacidade de sedução que os meus verdes anos não sabiam reconhecer. E passei a gostar de receber essas cartas que eram enviadas dia sim dia não. Penso que o namoro começou a meio dessa correspondência. Para uma mente traumatizada como a minha, o facto de ser cortejada desta forma (distância + arte multi-poética) foi decisivo para deixar de ter tanto medo dos rapazes e acreditar, aos poucos, que poderia haver um amor mais bonito depois do fracasso do primeiro. Foi, sem dúvida,  a confirmação de uma ENORME excepção à regra do ditado popular  "não há amor como o primeiro".

Mas este sentimento, que ainda não era amor, lido ao longo dos meses, nas palavras que não falavam de deveres para com a revolução, mas sim da urgência de amar porque o mundo estava a sofrer uma enorme mudança, despertou em mim uma crença, de que algo melhor podia ser encontrado  e que o mesmo equívoco não se repetiria. Havia a experiência que tinha sido vivida e, agora, havia uma porta enorme que se abria ao que ainda não tinha acontecido.  Não achei  que fosse uma forma de recompensa pelo sofrimento  sentido, mas sim um começo verdadeiro e puro de um amor a construir. E acreditei. Acreditei em cada palavra.
Os primeiros meses da minha vivência com o Paulo foram muito felizes. Ensinou-me muitas coisas nos livros que me sugeria, nas exposições a que me levava; pensava no meu bem-estar quotidiano e eram frequentes as mensagens carinhosas espalhadas pela casa, as tertúlias que organizava para a minha integração no seu mundo, através do convívio com os seus amigos e amigas fascinantes; no estímulo de outras potencialidades que me reconhecia (foi com ele que aprendi a trabalhar na câmara escura e a descobrir-me mais intensamente no gosto pela fotografia); na loucura saudável das gargalhadas cúmplices quando descobríamos Lisboa na sua vespa e, sobretudo, no respeito que demonstrava pelo que eu era e pela minha arte.
Eu sabia que a sua paixão era maior do que aquela que eu podia sentir, mas à minha maneira eu iria reaprender o que podia ser o amor.

Os meses foram passando e começou a haver da parte de um dos principais elementos da família do Paulo, a sua mãe, um nervosismo desconfortável.  
De início não terá ligado para aquela aventura porque seria, de certeza, uma coisa de semanas, sem importância nenhuma. Depois, passou a dar mais atenção ao caso que se prolongava já há meses, e as  visitas surpresa, de observação ao objecto estranho, passaram a ser constantes. 
Não era simpática, mas não era antipática. Sentia-lhe uma frieza imposta pela distância que me demonstrava, uma superioridade que eu não sabia classificar. Acho que ela vivia apavorada que o seu filho preferido ficasse com uma namorada cantora em vez de uma namorada doutora. 
O Paulo era filho de um arquiteto e para arquiteto estava a estudar. 
As mães querem sempre o melhor para os filhos e esta dava muita importância aos títulos antes do nome.
Ao mesmo tempo sentia-se uma tensão crescente entre mãe e filho e eu suspeitava que, na minha ausência, haveria muita pressão para as coisas tomarem outro rumo.

E chegou o dia em que descobri que estava grávida. Não tinha sido planeado, mas ambos sabíamos que podia acontecer. Pelas contas o bebé nasceria em Junho ou Julho próximos e falei abertamente com o Paulo. Não sabia se ele queria ter uma família. E ele queria. Apesar de ainda  estudar, trabalhava no atelier do pai e eu trabalhava com os Trovante. Tínhamos concertos e esta era uma altura em que já não se tocava de graça. 
A chegada deste bebé era muito abençoada e eu acreditei que agora estavam criadas as condições para ter a minha família. Aquela que eu muitas vezes anunciava aos meus pais, quando me sentia ferida por eles, que iria ter e que seria a coisa mais importante da minha vida.
 A mãe do Paulo odiou a ideia e ficou contra. Por arrasto alguns dos irmãos também, com excepção do Zé Pedro, o único irmão do Paulo que sorria, e do pai João Maria que gostava verdadeiramente de mim.
Não vou contar a quantidade de situações irreais e dramáticas que se desenrolaram a partir daqui, mas ainda hoje me lembro da frase marcante da matriarca que me disse à porta de casa: “não tem o direito de ter um filho do meu filho. A única coisa sensata que deve fazer é abortar. Você já foi casada.”

Mas o Miguel veio ao mundo num belo fim de tarde de Julho suave e sem dor, uma das maiores alegrias que jamais havia experimentado, que apagou todos os contras.
 O meu menino, que passou a andar comigo para todo o lado, era a minha verdadeira paixão e, talvez por isso mesmo, a vida com o Paulo começou a deteriorar-se. A pessoa que tinha sido foi mudando, alterou o tom de voz, passou para uma frieza seca parecida com a da mãe, até chegar às acusações sem fundamento que me ofenderam muitíssimo. Vida de cantora, vida de promiscuidade, dizia. 
Não queria acreditar no que ouvia. Fazia muito esforço para desempenhar o meu papel de profissional e de mãe. Cada dia era pior que outro, por vezes quando chegava a casa depois de um ensaio ou de um concerto era recebida com copos e pratos partidos. 

E um dia, depois de estar a filmar nas Guerras do Mirandum (do Fernando Matos Silva), na Tapada de Mafra, a seguir a ter levado o Miguel para ser filmado numa cena em que lhe dava de mamar, não encontrei ninguém em casa. Pai e filho não se encontravam. Esperei. Enervei-me. Telefonei para onde calculava que estariam. Sim, era aí que estavam, mas a ameaça veio de imediato: nunca mais o vês.
Fiquei uns dias pensando que regressariam. Mas não. Caí de novo no poço. Mal conseguia falar. Encontrei apoio em alguns elementos do grupo. As semanas passaram, a depressão tomava conta de mim e reduzia o meu campo de acção e discernimento. Fui à quinta onde se encontravam. Ninguém abriu o portão. Não me deixaram entrar. Porquê, perguntava incrédula. Porquê? 

A razão assentava numa paranóia instalada na cabeça do Paulo (e desconfio de quem a provocou) que eu estava envolvida com todos os elementos dos Trovante e com todos os actores do filme. 
A pior coisa que se pode fazer a alguém é culpá-la por algo que não fez.  
Em 1979 as coisas eram muito diferentes. As influências existiam, mas os mecanismos de apoio eram quase nenhuns. E eu não sabia para onde me virar. 
A raiva tomou conta de mim. E por raiva então envolvi-me. Fui magoada e iria  magoar alguém, mesmo que me desejasse o melhor. E foi isso que aconteceu. Só conseguia sentir frustração e mais raiva. 
Mas o meu menino não vinha para mim e eu tinha de pensar em algo que mo devolvesse.

Regressei para a humilhação da casa dos meus pais. Não me lembro de ter dito uma palavra. Estava disposta a suportar o que fosse. Deixei tudo para trás. Casa, trabalho, e as coisas que me pertenciam. Queria lá saber disso para alguma coisa. A minha mãe preocupava-se com o destino do meu enxoval e das coisas que  tinha oferecido para a casa. É certo que muitas delas foram "guardadas" pelos familiares do Paulo, mas isso não me interessava para nada.

Surgiu, tempos depois, uma possibilidade remota de poder ver o meu menino e voltei a Lisboa. Era só para passear com ele no jardim da Gulbenkian, foram as instruções. Sim, eu vou para o jardim. Mas em vez disso entrei num táxi e fui para Santa Apolónia. Apanhei o foguete para Coimbra e lá chegada telefonei a avisar que de agora em diante as coisas iam mudar. Fui ameaçada de tudo. O Paulo enviava-me todo o ódio que tinha.

Apesar de estar a salvo com o meu Miguel, não estava da  inflexibilidade dos meus pais que se tornou ainda mais rígida. Não era suposto, por exemplo,   levar o Miguel a uma esplanada para conversar com amigos. O meu pai foi claro: tens cá o teu filho e de agora em diante a tua vida vai ser como a de uma freira. Só vives para ele e o resto não existe.
Estava totalmente dependente deles. Económicamente, também. Aí estava a factura de lhes ter dito que um dia seria feliz com a minha própria família. E tudo o que eu fazia ao Miguel era criticado. Se o punha no carrinho para o levar ao jardim, se lhe colocava o chapéu por causa do sol, se lhe dava de comer aquela papa, era sempre tudo mal feito.
Fiquei em Coimbra por mais uns meses até que surgiu a oportunidade de um emprego. Não me importava que fosse outra coisa que não cantar. Tinha que sustentar o meu filho e a mim. A proposta em questão era de tratar de uma casa de um jornalista do Expresso. No fundo, era limpar-lhe a casa. E decidi que ia mesmo para as limpezas.  Foi o descalabro. A minha mãe chamou-me de tudo. Mas não me importei. Tinha as malas feitas e ia viver para o meu bebé.
Levantaram-se as vozes dos amigos da família e dos irmãos. 
"A mãe não se sente bem e se lhe acontecer alguma coisa a culpa é tua".
Já na estação de Coimbra B jogaram a última cartada para me demoverem.  O enviado foi uma pessoa que eu respeitava muitíssimo e que me disse: Pelo menos deixa cá o menino. A tua mãe está a chorar muito e sente-se mal do coração. Já pensaste que vais carregar com o remorso para toda a vida se ela morrer ou ficar incapacitada? Deixa-o ficar por uns tempos e depois vens buscá-lo. Faz isso, não te precipites com a tua atitude. Depois vens buscá-lo. É por pouco tempo, até a tua mãe se habituar à ideia.
Não sei o que me deu. O comboio estava quase a chegar e eu coloquei o Miguel ao colo do Dr. Moura. Entreguei-lhe a mala com as coisinhas dele. “Não quero que aconteça nada de mal à mãe. Mas eu volto daqui a 1 semana. Não mais. E venho buscá-lo haja o que houver".

Parti para Lisboa e comecei a trabalhar. Liguei à minha irmã todos os dias para saber do meu filho e na sexta também, para combinar as horas a que chegaria a Coimbra no sábado. Ia trazê-lo de volta como estava combinado.
A minha irmã diz-me, então, com uma voz estranha:
- Não vale a pena, Né.
- O que dizes?
- Não vale a pena vires.
- Não estou a entender. Dei uma semana, uma, para ele ficar e os achaques da mãe se resolverem. Vou buscá-lo e acabou.
- Não venhas porque ele já cá não está.
Parecia que tinha levado um soco e fiquei sem perceber o que tinha ouvido.
- Não está como?
- Os pais ligaram ao Paulo e ele veio buscar o menino.
Antes de entrar em estado de choque lembro-me de ter perguntado: 
- Porquê? Porque fizeram isso?

- Os pais disseram ao Paulo que não tinham vida para isto, para tomar conta de um bebé, e que o melhor era ele vir buscá-lo o mais depressa possível.


Desta vez não regressei a Coimbra. Fiquei em Lisboa. Não fui parar a nenhum internamento. Entreguei-me à dor procurando em todas pessoas um afecto que me compensasse. Na verdade isso nunca aconteceu porque me era tirado algo mais, mas eu permitia. Andei assim meses. Foi a fase dos casos atrás de casos, mas sem me entregar nunca a nenhum deles. Fazia-o para deixar ficar um rasto de dor em todos e principalmente em mim. Era a punição de ter acreditado que podia ter a minha família e ser feliz.
Durante esse período fui convidada para cantar na Banda do Casaco. Gravámos No Jardim da Celeste que foi o éden à margem da minha autodestruição. Em Argila de Luz senti que era eu. O António Avelar Pinho tinha escrito uma letra que, sem saber, descrevia o estado da minha alma e do meu corpo.  
Cresci musicalmente com este trabalho, mas estava um farrapo psicológico e humano. Ninguém se apercebeu até que ponto. E quando fui informada que não valia a pena ir a tribunal para reaver o meu filho – já que tinham sido os próprios avós maternos a entregá-lo ao pai – decidi sair de Portugal.
No dia 17 de Novembro de 1981 , às 14:30, apanhei o Sudexpress com uma mochila às costas e a viola na mão. Procurava outro lugar, outra vida. 
Não fazia intenção de voltar.

domingo, 26 de maio de 2013

Bioquímica versus Emoção


Os antidepressivos tratam a dor da depressão, mas não curam o sentimento de culpa nem tratam a angústia da solidão.


in a Saga de um Pensador de Augusto Cury

sábado, 25 de maio de 2013

Quatro semanas depois

Mais uma semana de internamento.
Ainda sobre as recaídas depressivas - trabalho que continuou a ser desenvolvido nas aulas de psicoeducação - tentámos identificar, com maior especificidade, os factores desencadeantes que o stress nos provoca.
O que é esta ansiedade? Em que estado de tensão e sob que pressão fazemos esforço para viver?
De novo uma variedade de sintomas que nos passam invisíveis, de novo a necessidade de os reduzir até encontrarmos aqueles que sinalizam esta guerra interna.
- dores de cabeça
- transpiração
- aceleração do ritmo cardíaco   ✓
- dores de costas   ✓
- alterações de apetite   ✓
- dificuldade em adormecer   ✓
- maior necessidade de dormir  ✓
- tremor nas mãos ou no corpo, “tremores internos”
- problemas de digestão
- dores de estômago
- boca seca
- dificuldade de concentração  ✓
- exaltação com factos ou situações pouco importantes
- irritabilidade
- inquietação
- choro frequente   ✓
- aparência descuidada
- tendência para acidentes (normalmente tenho-os na cozinha e nunca percebi porquê. Coisas que me caem, queimaduras e cortes). Esta alínea resulta da falta de concentração perante um trabalho automático, como o de cozinhar, em que o pensamento está focado não no que fazemos, mas naquilo que nos incomoda
- uso de álcool ou drogas


Os factores desencadeantes dividem-se em
1 – acontecimentos de vida marcantes
2 – transtornos diários mais pequenos

O primeiro grupo é composto por motivos de mudança e tudo o que lhe está implicado:
- mudança de casa
- mudança de emprego/ desemprego
- casamento/ divórcio   
- nascimento de um filho/morte de um filho
- doença grave
- receber herança/ ganhar muito dinheiro
- problemas financeiros
- problemas de saúde ou morte de um familiar
- ser vítima de um crime
- problemas com a justiça
- ter um relacionamento/ romper um relacionamento
- deixar de fumar
- iniciar uma dieta
- novas responsabilidades
- ficar hospitalizado
- não ter casa
- problemas com o consumo de álcool e drogas


No segundo grupo as questões do quotidiano são igualmente várias :
- falta de dinheiro para as despesas básicas
- frequentar ambientes agitados e confusos
- transportes públicos
- discussões em casa ou no trabalho
- lidar com pessoas desagradáveis
- não ter privacidade em casa
- não ter intimidade com as pessoas mais chegadas
- tarefas domésticas desagradáveis
- viver numa zona de risco ou de que não se gosta


Deu para perceber que a lista  pode nunca mais ter fim porque cada pessoa encontra motivos perturbadores consoante a sua realidade de vida. 
Poucas são as coisas que nos podem dar alguma paz, o que me leva a pensar que, aquilo que o homem constrói para seu conforto não passa de uma mentira. 
Há sempre uma razão que nos provoca infelicidade e os desgostos acumulados dessa infelicidade torna-nos doentes.

Depois de algumas horas de trabalho elaborei o meu "plano"

Plano de Prevenção de Recaídas
Aviso de acontecimentos ou situações que desencadearam no passado uma recaída:
1. Problemas familiares
2. Fim de relacionamentos e mudanças de casa
3. redução de trabalho (a área cultural é a primeira a cair)
4. Conflitos interpessoais

Aviso dos sinais precoces de alerta vividos anteriormente:
1. Dificuldade em dormir/insónia
2. “Assalto” de memórias angustiantes
3. Cansaço/falta de energia/desinteresse
4. Desilusão com os outros

O que me pode ajudar em caso de estar a ter um sinal precoce de recaída:
1. Consultar psiquiatra/psicólogo
2. Encontrar uma pessoa honesta com quem pudesse falar (mas creio que isso já passou para o lado da utopia porque não existem pessoas honestas e muito menos amigas)
3. Recorrer a um hobbie para canalizar o meu desencantamento com a vida (colocar a minha criatividade, também, como expressão dos sintomas a limpar)

Quem eu desejo que me ajude, e o que quero que me façam:
1. Desejar, desejava que quem criou tudo isto falasse comigo.
Na impossibilidade de receber respostas da fonte principal, conhecer um sábio que me dissesse o que não sei e respondesse ao que eu pergunto há tanto tempo... na impossibilidade de ser um sábio acessível ou de terem deixado de existir sábios, seguir para o ponto 2.
2. Uma terapia que me seja adequada e na qual possa confiar para me ajudar a encontrar as supostas ferramentas com que nasci para minha defesa pessoal e crescimento. Não me limitar à medicação porque esta tem somente atenuado alguns aspectos da crise. Os motivos que a causam permanecem enraizados há demasiado tempo.  
Também desejaria dominar uma forma de estar que pacificasse os meus medos/demónios numa expressão artística que não a música porque não quero mais servir-me dela.

3 e 4 }Estes números são dispensados porque não vejo mais pessoas.
Quem eu quero contactar em caso de emergência:
Bom, se depois das démarches que efectuei, identificando sintomas, reconhecendo o problema desencadeante, procurar ajuda e mesmo assim entrar em crise, só mesmo chegar às urgências e ser internada. 
Não há ninguém para contactar. 
 






Emoções Positivas ou viajar na maionese?


Quando entrei na sala olhei para a frase escrita no quadro:

Saborear as coisas agradáveis da vida.

A psiquiatra que a tinha escrito aguardava que nos sentássemos para começar.

Isto é um pouco estranho, pensei. Quando o nosso pensamento ainda está no polo oposto que coisas agradáveis podemos recordar?

E a sessão começou:

O mecanismo tem de ser activado para prolongarmos momentos agradáveis. No passado não existiram só coisas negativas - olhava para nós à espera de aprovação -  Vivemos momentos felizes - acrescentou -  Não temos controlo sobre o que se passa à nossa volta e não podemos sofrer por algo que não podemos evitar. Ao tentar controlar situações negativas que não dependem de nós devemos perguntar-nos se vale a pena ficarmos por aí ou deixá-las e seguirmos em frente.

Ok – disse para os meus botões - estou a ter uma aula de auto-ajuda à Louise Hay... - e procurei uma posição mais confortável na cadeira.


A Drª L. é uma mulher bem resolvida e enérgica. De facto, transpira positividade por todos os poros e o sotaque venezuelano que não perdeu, embora resida há muitos anos em Portugal, dá-lhe uma expressividade cativante e alegre. Pelo menos as minhas colegas do internamento ouviam-na concentradíssimas, absorvendo cada palavra como alforges de água para matar a sede de toda uma vida.

Isto é o efeito que os livros da Louise Hay suscitam – pensei enquanto as observava. 
Sim, já houve uma época em que li a "pioneira de auto-ajuda" a conselho de uma pessoa conhecida, que me jurou a pés juntos sobre a mudança de vida que  aconteceria se me entregasse  ao  ensinamentos da... qual é mesmo a designação da senhora? Autora motivacional...
Pode Curar a sua Vida e o Poder está Dentro de Si foram lidos, mas não causaram nenhuma mudança em mim. Não sou do tipo de pessoa que se deixa levar embevecida por uma quantidade de clichés e frases feitas e cuja profundidade não vai mais que um degrau raso da entrada de uma porta ao nível da rua.
Retomei a palestra da nossa médica que estava a dar o exemplo de África. 
Fora em tempos voluntária num país em guerra e trabalhou com crianças que nada tinham. Perderam os pais, perderam as aldeias, perderam uma vida e ali estavam , não com o básico, mas com o mínimo dos mínimos e, ainda assim, sorriam e eram felizes. Viviam o presente e agradeciam por estarem vivas.


Mas doutora -  interrompi -  sabemos que o pensamento gera perguntas e respostas, questiona e põe em causa. Qualquer criança vivendo uma situação semelhante ainda não chegou a esse processo de pensamento por ser criança e pelo instinto único de sobrevivência. Os operários que estão concentrados a colocar um parafuso dentro de uma porca não pensam noutra coisa enquanto  estão concentrados na porca e no parafuso. Ora, as pessoas que aqui se encontram, e ficaram como se vê, romperam  com a mecanização das suas vidas. Ao pensar no que tinham e no que lhes faltava colocaram tudo em causa. A consciência tomou conta delas e, seja sobre o passado ou sobre o futuro, o beco foi construído por uma forte emoção. Ninguém vive confortável no beco. Por isso vieram parar aqui. A inocência de aceitar o que se tem, o pouco que se tem, não é duradoura. Essas crianças africanas quando crescerem vão pensar no que passaram e  muitas  caixas de Pandora vão ser abertas... como se constrói um pensamento positivo sobre algo que nos afectou negativamente? A vida, a nossa vida,  planos, sonhos,  expectativas...


Há uma característica estudada na física – interveio a médica – chamada resiliência que é a capacidade de acumular energia sob stress sem haver ruptura, que também pode ser aplicada às pessoas. Perante um choque, um desgosto, um problema grave, supera-se a dor aprendendo com ela e revertendo-a positivamente a nosso favor. Isto é, existe uma capacidade de nos levantarmos depois de cairmos e é isso que temos de aprender.

Depois contou que teve uma paciente no internamento a quem lhe tinha morrido o único filho. A dor que sentia era insuportável, mas ao fim de algum tempo de tratamento decidiu tirar um curso superior e escolheu Direito. E porquê? O facto da morte do seu filho ter sido causada por outra pessoa, num acidente de viação, deu-lhe inspiração para defender os que passam pelo mesmo, a fim de obterem justiça, sentirem apoio e consolo, e prosseguirem com as suas vidas. Foi o que esta pessoa descobriu que tinha de fazer, depois do desgosto terrível por que passou, para prosseguir com a sua.
O que precisamos fazer é começar a dar valor às pequenas coisas - afirmou -  Vocês acham que ter um carro, um telemóvel e muito dinheiro é a única fonte de felicidade? Porque é que aquelas pessoas famosas, habituadas a ter tudo, reagem de forma tão destrutiva? Citou alguns nomes conhecidos ligados à música e ao cinema. Todas concordaram.
Não é melhor sentir o que a natureza pode fazer por nós?  - continuou - O prazer de um aroma, uma paisagem, um canto de um pássaro? Porque não procurar aí uma ligação forte que fique na memória e ao recordá-la sentirmos prazer com isso? E porque não partilhar com alguém sobre essa actividade positiva que fizemos? Comunicar também é uma forma de ser feliz...


Mas doutora – voltei eu – isso seria perfeito, claro...  mas se  todos os dias somos bombardeados para consumirmos o carro, o telemóvel... tudo está feito para a lavagem cerebral nos levar a desejar o que não nos faz feliz. E sobre a natureza? Não há a mínima preocupação, as pessoas nem se apercebem que existe nem a respeitam. Os mesmos que lançam a mensagem de consumo do carro, do telemóvel são os que poluem, estragam, destroem essa possibilidade de recordação feliz... nós não somos nada ao pé desse poder... (não devia falar, mas é mais forte que eu -  pensei. É importante passar uma mensagem positiva, mas isto está idílico demais...)


Devemos autocongratular-nos com o que sentimos, aumentar a nossa percepção, o olfacto, o tacto, deixarmo-nos absorver pela situação e desfrutar ao máximo o momento. Podemos encontrar um novo amor, um novo trabalho! Temos de criar essa possibilidade em nós mesmos. Se permanecermos fechados às coisas, então sim, não vamos conseguir sair da negatividade – insistiu a médica.


Um emprego? - interrompi já arrependida de o ter feito– um emprego para nós que  nada representamos para o mercado de trabalho? E o facto de termos estado internadas? A sociedade estigmatiza-nos, não nos quer dar responsabilidades, não acredita no que valemos porque um dia ficámos “mal da cabeça”. Desculpem estar-vos a dizer isto – e olhei para todas – mas é a realidade que nos espera lá fora. Eu não quero construir sonhos que vão ser novamente pisados.


Mas sonhar é importante! - exclamou a médica – e sim, é verdade que a sociedade é preconceituosa com este tipo de doença, mas vocês têm que ajudar a combater isso!


Olhou para mim e disse por cima dos óculos: eu não conheço o seu caso, mas posso falar com a sua médica e ajudá-la. Vamos ajudá-la.


Obrigada, estou aqui para isso mesmo, para ser ajudada, mas também quando me fala em encontrar o amor parece que estou a ser levada para uma dimensão irreal porque isso não existe e não acredito que seja assim.


Conhecem o Woody Allen? - perguntou-nos sorrindo - Ele tem muitos talentos e um deles é o de saber como as pessoas são. Vou-vos ler uma frase, e com isto queria acabar a sessão de hoje: O talento para ser feliz é apreciar e gostar do que se tem, em vez de se apreciar e gostar do que não se tem – recitou - A tarefa que vos proponho é a de fazerem um plano de actividades agradáveis para serem executadas.


Não sei o que possa planear para mais tarde saborear recordações felizes – disse para mim enquanto saía da sala.
Não tenho nada contra a médica que iniciou esta terapia de grupo sobre pensamento positivo, mas não quero que encha chouriços com coisas tão inalcançáveis como o que tinha acabado de ouvir. Ser-se positivo é importante, mas não acredito que  se chegue lá desta maneira. Se as afirmações terapêuticas de Louise Hay curassem os  seus leitores, metade da humanidade estava salva e não seria preciso escrever cerca de 30 livros à volta do mesmo assunto - ( Pode Curar a sua Vida vendeu 40 milhões) e é só fazer as contas.


No dia a seguir, enquanto dávamos uma caminhada com os enfermeiros estagiários, falámos um pouco sobre a sessão da Drª. L. Perguntaram-me o que tinha achado. Bom... gostei da senhora, percebi que foi voluntária em África, isso tem muito valor para mim, mas não me rendo ao que foi dito. As coisas não são assim.  Mesmo sabendo que a natureza nos pode dar o que tem de melhor, e com isso melhorarmos também, acho que o outro tipo de natureza, a humana, estraga tudo. E a minha preocupação é a de como me vou defender disso. Como posso evitar mais dor vinda desse lado...


Perguntaram-me se acreditava no amor. De quem? - perguntei – no amor dos animais acredito e naquele que a natureza nos oferece em todas as maravilhas que só dela são. Do resto nem pensar. O amor não é fodido como diz o livro. O amor é uma invenção impraticável que faz da nossa vida uma merda.

Passámos por uma rua que nos chamou a atenção. Na esquina havia uma garagem cheia de coisas penduradas. Cestos de vime, patos de borracha, bicicletas, leques, decorativos, carrinhos de bebé, triciclos... decidimos espreitar. Era um ferro-velho/alfarrabista. 
Logo à entrada havia uma pequeno armário a abarrotar de livros. Os meus olhos aumentaram. Agachei-me e a minha mão puxou por um ao calha. Quando virei a capa para ler o título achei estranho : Só o Amor é Real – a história do reencontro de Almas Gémeas, por Brian L. Weiss. Virei-me para o grupo e disse-lhes: este autor é um psiquiatra muito conceituado, especialista em depressões, fobias, ansiedade, um sábio para muitos esotéricos. Olharam para mim seriamente. É verdade! Não é nenhuma Alexandra Solnado. É director do departamento de psiquiatria de um hospital em Miami. Escreve sobre o que foi desenvolvendo com os seus pacientes, regressão e terapia sobre vidas passadas. E neste livro diz que só o amor é real. Interpreto isto como um desafio e vou levá-lo. Elas riram-se.
Entrámos na lojinha cheia de tudo o que se possa imaginar. Máquinas de escrever,  carteiras e malas de senhora, porta-chaves mirabolantes, frascos de perfume do século passado, canetas de tinta permanente, revistas de banda desenhada, cavalos de corda, chávenas de café, tachos de esmalte, candeeiros de porcelana, bijouteria vintage...um mundo de pó e de muitas estórias.
São 3 € - disse o dono do lugar quando lhe estendi o livro.


Reparei que estava assinado por uma Luzia Antunes com a data de 2000. Será que reencontrou a sua metade? Será que não? Terá morrido? O que leva alguém a desfazer-se de um livro? Como chegou a esta loja de velharias? 


Porque me veio parar às mãos?