Sinto-me cansada.
Sinto-me sem esperança.
Sinto-me regredir na dor.
Sinto-me sem nada.
Holoteta é uma pessoa ligada ao computador da nave espacial que, através dos seus pensamentos, dirige a sua deslocação "por meio de um conjunto estabelecido de curvas através de uma série conhecida de configurações". Algumas holotetas transcendem a mera experiência de ligação com o computador. in O Bailado das Estrelas de Spider e Jeanne Robinson (1979)
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segunda-feira, 1 de julho de 2013
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Até chegar lá
Ao vivermos num estado de culpa permanente reagimos de duas formas:
a) - projectamos a culpa no outro (o que poderá dar uma aparente sensação de alívio, mas que comigo não funciona)
b) - aplicamos um auto-castigo, sabotando tudo aquilo que mais desejamos (adoecendo e tendo uma especial propensão para acidentes de vária ordem, que é o resumo da minha vida).
Impeço-me de analisar o cerne do erro e de aprender com ele.
Quisera eu pegar-lhe pelos colarinhos e abaná-lo até ficar nu e insignificante, mas tenho fugido de muitas formas, fugido da possibilidade de me consertar e de crescer com o que poderia aprender, embora tenha procurado de outras formas, a estabilidade na base dos meus frágeis alicerces. E procurei muito na espiritualidade...
O medo de enfrentar o que não quero ver e a impotência diante deste medo atira-me para um poço, o da culpa.
Na verdade, pelo facto de sentir que nunca fui aceite pelo que fui e sou, de perceber que não era capaz de corresponder às expectativas que esperavam de mim, de passar de fracasso em fracasso emocional, fui enfraquecendo e ficando extremamente manipulável no sector afectivo.
Assim, tenho visto a minha liberdade diminuir e a culpa aumentar.
Penso que, para já, o monstro nº 1 está identificado, só que ainda não sei o que fazer.
Estou numa sucessão de causas e efeitos incompatíveis com a felicidade.
domingo, 23 de junho de 2013
Oito semanas depois - Uma tournée e muitas viagens no tempo
Esta semana, para além das sessões que constam do programa do hospital, foi consagrada à "tournée" da Anima Tuna. As minhas colegas, juntamente com a equipa de enfermagem estagiária, fizeram concertos em várias escolas e, também, na sala de palestras do hospital.
Eu participei como fotógrafa da digressão.
Não conseguindo estar ligada à música desta forma, tentei não me excluir procurando um motivo útil. E que melhor senão o de registar as expressões que se abriram diante de palmas calorosas e elogios? As minhas colegas estavam felizes.
O público pequenino é muito exigente e reage espontâneamente quando a coisa não corre bem. A tuna foi um sucesso junto destas crianças que cantavam e batiam palmas com entusiasmo.
Houve, porém, uma manhã em que eu não consegui participar. Os meninos do infantário, de chapéus amarelinhos, agarrados uns aos outros pelos bibes foram de encontro às memórias de uma infância que ainda não consigo superar.
A Enf. C. que adora fotografia executou muito bem a reportagem.
Das muitas fotos tiradas seleccionámos 452. Destas serão escolhidas umas quantas para ilustrar estes momentos no jornal do hospital de psiquiatria.
Aqui fica um cheirinho...
Prossegue o levantamento das portas da cidade (a menina dos meus olhos, da M. e da V.) que está em fase de revisão.
Fomos ao terreno com as enfermeiras estagiárias para fotografar, tirar coordenadas com o GPS, visitas essas que se repetem para cumprir o rigor que desejamos.
Uma das últimas saídas implicou um estratagema para identificarmos a localização de uma das portas que há muito não existe na zona ribeirinha. Seguindo uma iluminura de Pier Maria Baldi (séc.XVII) a M. com as enfermeiras Marlene e Catarina posicionou-se à entrada da ponte D. Luís, no sentido Tapada/Santarém. A enf. Marlene (responsável pelo levantamento fotográfico) tirou várias fotos que centravam a cúpula da Igreja de S. João Evangelista situada no Alfange, apanhando postes de electricidade pelo caminho para depois se fazer uma linha até ao rio com um ângulo de 45º. Aí, e segundo o que a iluminura revela, estaria a porta desaparecida.
Fazia imenso calor, lembro-me bem... regressámos ao local das nossas investigações e caminhámos até chegar ao dito ponto. Mas não foi assim tão fácil. Precisámos de identificar os postes de electricidade pelo caminho, bem como alguma vegetação que se via nas fotos captadas anteriormente. Mas acreditamos que demos com a Porta das Almas, hoje um local de vegetação por cima de um muro.
Estas portas foram totalmente destruídas aquando da construção da linha de caminho de ferro, no séc.XIX, o que gerou muitos protestos por parte da população.
Aliás, nesta altura, a destruição era a palavra de ordem em nome de uma modernização que depois utilizava a pedra das muralhas e portas para calcetar as ruas ... a este propósito escreveu Alexandre Herculano:
Santarém, sendo uma das povoações do reino mais rica em monumentos, parece que por isso mesmo tem merecido mais o ódio de certa gente, que das três potências da alma, memória, entendimento, e vontade, só admite a última; e com razão: porque, para fechar e descarregar uma camartelada, é mais que suficiente.
Por aqui foi a Porta das Almas
Aqui ainda se vêem vestígios da Porta de Palhais
Entre o final do muro à esquerda e as árvores foi a Porta de Valada
Este trabalho, por tudo o que implica, é apaixonante. De uma bibliografia passamos para outra fonte, mais o contacto com arqueólogos e historiadores que trabalharam neste tema, mais uma ida ao núcleo museológico, mais um pedido de esclarecimento nas dúvidas que se colocam, porque somos leigos e queremos muito aprender, sobretudo fazer uma apresentação dos acontecimentos o mais rigorosa possível.
Penso que quando se conhece melhor o local onde vivemos mais respeito e admiração lhe temos, mais cuidado com a sua preservação desejamos. E eu desejo que tudo isto não se perca porque foi fruto de muito trabalho e sacrifício daqueles que a história não reza, da maioria que não tem o nome gravado em placas comemorativas, os anónimos insubstituíveis e indispensáveis na construção de um tempo.
domingo, 16 de junho de 2013
Início do caminho ou o encontro com os monstros de estimação
Durante muito tempo procurei nos outros algo que me completasse. Queria ver através dos seus olhos a avaliação que fazia de mim mesma. Erro. Coloquei qualquer possibilidade de ser feliz nas mãos que, não sendo as minhas, pouco puderam fazer. Só dependia única e exclusivamente de mim.
O que isto deu foi algo parecido com: se for amada é porque sou boa pessoa, se não for é porque sou lixo.
E cá estou, a separar o lixo interno de culpa e julgamento acumulados, depois de anos de castigos e auto-sabotagens...
Eu sentia o meu desejo de liberdade inexplicavelmente grande e o facto de não me apegar muito a grupos e mentores já era o início do caminho. Mas o medo dos meus monstros foi maior.
Mais cedo ou mais tarde chega a hora de nos olhar e descobrir quem verdadeiramente somos.
Não faço ideia do que vou encontrar, mas preciso de fazer a minha parte.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Sete semanas depois e um deus que não existe
Semana difícil. Parece que regredi. Não sinto que tenha sido abençoada pelo que tanto procurei.
No refeitório do hospital olhei com horror para o que não queria.
Tolerância ZERO para o João Moura jr. um energúmeno em crescimento.
Aguardo que a providência o coloque fora de órbita antes que cresça demais e espero que sofra lenta e profundamente como o vitelo que serviu de publicidade para os seus cães .
Tolerância ZERO com monstros iguais ao jogador argentino que atirou contra a bancada um pobre cão indefeso.
Tolerância ZERO com tudo o que se está a passar sobre um mundo perigosamente vulnerável onde uma grande maioria vive mal desde que o mundo foi criado.
Deus dorme descansado, sem interferir, fazendo-nos gozar do tal livre arbítrio que não serve para nada, quando o mais forte descarrega, como sempre, de forma insana e violenta.
Sabe, sr. deus, sempre que os meus filhos eram ameaçados, fosse por quem fosse, eu atirava-me de cabeça e defendia-os.
Não é isso que o vejo fazer com nenhum de seus. E o sr é perfeito, eu não.
O sr. não passou anos com depressões que o tornaram incapaz de velar pelos que ama.
Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus e que ele não existe realmente - Madre Teresa de Calcutá
sábado, 8 de junho de 2013
Seis semanas depois
Depois do ciclo completo de sessões,
sobre o nosso transtorno psicológico e seu tratamento, ficou-se com
uma ideia da situação que cada doente enfrenta.
Não quer dizer que consigamos
seguir a par e passo - e neste ponto falo exclusivamente por mim e
das incapacidades ainda existentes – mas reconheço que as horas
que passámos durante este mês de internamento, com o psiquiatra
João da Cruz, foram importantes para confirmar que há uma
psiquiatria que dialoga e explica as nossas dúvidas e temores.
Continuo a não aceitar cegamente a
terapia da medicação. Acredito que no início de uma depressão
sejam necessárias algumas “drogas” para os níveis de ansiedade
descerem e o descanso cerebral ser reposto mas, atingido esse
propósito, outras formas devem ser aplicadas na reabilitação do
doente.
Não falo em cura porque,
sinceramente, acho que é uma doença crónica. Falo numa
“desintoxicação” de emoções negativas e falta de perspectivas
de vida que podem ser revertidas. Isso a medicação não faz. Não
limpa a nódoa deixada pela dor. Não arranca a raiz dos problemas e
dos traumas que a causaram. Adormece-os por uns tempos, o tempo que se
consegue aguentar sem dor, até novo embate por essas experiências vividas. E embora, depois destas sessões, os sintomas precoces de alerta tenham ficado mais fáceis de
identificar bem como o respectivo plano de prevenção de recaídas, na minha opinião nada impede que um novo mergulho na
escuridão depressiva suceda.
As tácticas de distracção anti-angústia não deixam de ser válidas – dar uma caminhada, ler um livro, falar com alguém, ter um hobbie – mas depende em muito do quanto ela pesa e dos fantasmas que a empurram para nos subjugar. Depende de nós e dos outros.
Eu queria enfrentar esses monstros que convivem comigo já há demasiado tempo. Perceber o porquê de tantas escolhas mal feitas, de tanto complexo de culpa, de tanto falhanço com os outros, de padrões que me levaram a repetir a credulidade de ser aceite e amada sem, no entanto, o conseguir, o porquê de não ter tido uma família, o porquê de caminhar para o precipício sem ver onde ponho os pés, o estar quase a chegar a algo feliz e tudo se desfazer, o porquê de tanta escuridão na minha busca pela luz.
Lamento que os profissionais
especializados na regressão e hipnoterapia não pratiquem nos
hospitais. Também isto é um negócio... e a forma de seleccionar os
que podem e os que não podem, por questões monetárias, encontrar uma
cura ou repetir internamentos, é profundamente injusto.
Olho para cada uma das internadas e
sei que todas têm um imenso desejo de viver, uma capacidade
extraordinária de amar a vida que a maioria não entende e, por
isso, rotula levianamente.
Quando alguém tenta o suicídio, por exemplo, as “vozes sãs” da sociedade consideram a maior das fraquezas e cobardias. Eu não acho.
Quem ama desta forma incomensurável
não encaixa a dor que lhe está proporcionalmente relacionada. São
seres raros, de enorme coração, logo extraordinariamente indefesos
mediante uma palavra, uma atitude, um golpe de maldade dado por
outrem. Esta fragilidade é confundida, normalmente, com fraqueza e
da fraqueza nasce o descrédito que se espalha sobre estes seres com
tanto para dar.
Tenho testemunhado habilidades e
dons que vocês, comuns mortais, nem imaginam.
A maioria das actividades são
feitas em conjunto e os casos que levaram a pessoa fechar-se numa
redoma de quase loucura revelam-na perspicaz e assertiva num
raciocínio analítico, consciente de detalhes que mais ninguém vê
mediante um enigma, sorrindo sinceramente quando tocada por algo que
a faz sentir especial. Vejo isso na psicomotricidade, no
relaxamento, na estimulação cognitiva, na terapia ocupacional, na
participação interessada destas aulas de psicoeducação.
Eu não quero ter alta e muitas das internadas também não. Esse dia é pensado com temor. E embora haja quem
sinta saudades da sua casa e dos que lhes são mais próximos,
nota-se sempre um abatimento quando a novidade é dada pelos médicos.
Funcionamos numa comunidade que aí
fora não existe. O conceito de interajuda é real. Dar apoio a quem
se sente pior, num determinado dia, é verdadeiro. Não há falta de
tempo nem sensações de impotência com o mal estar dos outros.
Os outros que estão por fora
assustam-nos. Eles desconhecem os sintomas que sentimos e a forma
como procuramos estratégias para os resolver. Não compreendem o
esgotamento que nos toma depois de tanto tempo sob emoções
encapeladas. Não vêem para além do seu extremo egoísmo por
dentro da sua vida plástica. Não valem nada. Não sabem nada de
nada.
E é neste preciso ponto que entra o que se designa por
competências sociais e a gestão de conflitos.
Por mim mandava esta gente toda à
merda porque quando me explicam que:
- reflectir
- ouvir a outra pessoa mostrando
compreensão e atenção
- reduzir a hostilidade
- expor a nossa perspectivas
e por fim dar o passo para
- negociar
eu pergunto: mas não foi isso que
tentei desde que nasci? Porque será que desisti de o fazer?
O psiquiatra reforça que prestar
atenção ao que estamos a sentir é o passo inicial para chegar à
capacidade de controlar as emoções e sentimentos ou seja,
autocontrole. O nosso futuro melhorará se não agirmos por impulso.
Este instinto primordial tem a sua
origem na amígdala, localizada no sistema límbico, identificadora
do perigo e que, mediante as situações, nos leva a atacar ou a ser
atacados.
A esta marca de sobrevivência, que
se mantém desde sempre, para que não seja activada de forma
automática, gerando resultados imprevisíveis, deve juntar-se o
exercício de autocontrole a fim de não sermos escravos dos nossos
instintos.
Existe o oposto – autocontrole excessivo – prejudicial pelo bloqueio que causa favorecendo um descontrole no futuro...
Um conflito – prossegue o
psiquiatra - gera sentimentos negativos direccionados à outra pessoa
levando-nos a agir de forma mais agressiva. A capacidade de reflexão
dá-nos algum tempo para saber o que fazer perante as circunstâncias,
mas também depende do estado de espírito em que nos encontramos.
Podemos modelar a nossa forma automática de agir, mas é verdade que não o podemos fazer em relação à forma de agir dos outros. Ao mudarmos a nossa perspectiva e expondo-a podemos chegar ao passo da “negociação”.
Os instintos são inatos. O autocontrole ou força de vontade é o que nos diferencia dos outros animais, permitindo-nos ter controle sobre os instintos:
- autocontrole
Podemos modelar a nossa forma automática de agir, mas é verdade que não o podemos fazer em relação à forma de agir dos outros. Ao mudarmos a nossa perspectiva e expondo-a podemos chegar ao passo da “negociação”.
Os instintos são inatos. O autocontrole ou força de vontade é o que nos diferencia dos outros animais, permitindo-nos ter controle sobre os instintos:
- autocontrole
- compromisso e negociação
- sair de uma situação de stress
- discordar sem discutir
- responder a acusações falsas
Ao reler os apontamentos durante o intervalo concluí que não sei o que fazer com isto. Negociar o quê? O que me foi interdito e continua a ser?
Optei por me afastar de
qualquer tentativa de colocar os meus pontos de vista à consideração
de quem me magoou. Não sei responder a acusações falsas com
autocontrole. O meu instinto diz-me para permanecer longe de quem me
quer alienar.
Recorri ao meu bem amado Teixeira de Pascoaes para nunca me esquecer:
“A
finalidade da vida é a definição da existência. E digo
finalidade, porque todo o esforço da Natureza se dirigiu e dirige
num sentido humano ou consciente. O destino do homem é ser a
consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus. O homem é
ele e o seu habitat. É céu e terra contidos numa definição
espiritual ou consciente. O homem, sonhando, transborda de si mesmo,
amplia o mundo, porque ilumina as suas dimensões desconhecidas. O
sonho é alta temperatura, um estado térmico da alma, a sua
incandescência.
O absoluto é dos
poetas e o relativo é da ciência. O sábio observa, analisa,
decompõe; o filósofo generaliza, dá o conjunto; o poeta dá o
significado anímico das coisas, a sua própria natureza. A essência
das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e
não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade
fria da razão “
É
disto que se trata no nosso mundo invisível, entre as paredes de um
hospital psiquiátrico, de um quarto onde ninguém entra, da nossa cabeça.
Mostramo-lo à nossa maneira.
Mostramo-lo à nossa maneira.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Dor crónica
Pensar no perdão é impensável, apagar o que me feriu é impossível.
O passado não ficou no seu devido lugar.
Não consigo viver o presente, não consigo libertar-me.
A dor roubou-me o futuro.
sábado, 1 de junho de 2013
Cinco semanas depois
Competências Sociais ou a
importância de nos relacionarmos com os outros.
Este tema pareceu-me muito complexo e
difícil.
Com o desgaste gerado por uma
comunicação deficitária desde a minha infância e adolescência
(nunca se conversava na família. Os tons irritado do meu pai e
recriminatório da minha mãe, empurravam-nos directamente para a
discussão) e pelas desilusões pessoais posteriores, coloca-se a
dúvida sobre esta incompetência comunicativa se ter tornado num
traço do meu carácter e se, com o treino que se pretende com estas
sessões, é possível atingir o que sempre foi tão
inacessível: sentir-me melhor na coexistência com os outros.
Segundo o psiquiatra, a gestão de
conflitos proporciona satisfação no relacionamento social sem a
interferência de mágoas, ansiedade e a costumada frustração de
não compreendermos nem sermos compreendidos.
Ora isso já eu imaginava. Soa bem.
Ora isso já eu imaginava. Soa bem.
Como reagimos perante um conflito?
a) – afastamo-nos da discussão
b) – respondemos na mesma moeda
(entrando na discussão com agressividade)
c) – ignoramos a discussão
Eu fui muito b) e passei para a)
Mas não me sinto bem em nenhuma das formas
Ignorar também não consigo. Fica tudo registado, o que me
provoca muita ansiedade e ressentimento.
Perguntei se isto, a falta de
jeito para falarmos com os outros num momento crítico, é uma desvantagem química ou algo mais.
O psiquiatra explicou:
O stress não altera os genes, mas contribui para a vulnerabilidade... pode desorganizar a parte química do cérebro.
E depois acrescentou:
Com o tempo vão-se perdendo capacidades na organização do pensamento, à conta dos surtos e crises.
Então é isto? Somos um mundo químico? A inteligência, a filosofia, a poesia, a arte, Epicuro, Confúcio, Einstein, Sartre, Sophia, Eça, Baush, Mozart, exprimiram-se por um consentimento químico?
Como explicamos o medo e as emoções? Como podemos colocar dúvidas e estimular a arte de pensar?
Não estou nada sossegada quanto ao assunto, e menos ainda por imaginar que o meu cérebro químico, de tão danificado estar, pode não "querer" evoluir para coexistir com o resto.
E sendo assim, "mesmo a calhar", esta semana vivi um episódio no âmbito deste assunto:
Cortei com uma pessoa (a única que me mantinha ligada à área profissional) que me decepcionou muitíssimo. Alguém, de quem esperei, ao longo deste mês de internamento, uma maior compreensão sobre a minha miséria interior e não provocasse uma situação de maior vulnerabilidade.
Outro "marco" no meu caminho de perdas, outra ferida que precisa de sarar.
Agora sei que o meu retorno à música, já muito remoto, não se fará.
Esgotaram-se as hipóteses de confiança naquela parte da "máquina" que me organizava a vida para eu poder ser o que era. E isto é tudo tão estúpido. Porque se magoa uma pessoa que está doente?
Sei que sou demasiado sensível. Sei que não possuo um escudo emocional. Quando sou ofendida fico com a minha vida estragada. Sinto-me numa prisão de medo. Vivo com uma tonelada de culpa. Sinto dor física pelos que vivem maltratados. As memórias perturbam-me. O pânico e não aceitação da morte torturam cada dia que vivo.
Onde está a parte química do meu "disco rígido" para deletar?
Houve uma saída a Lisboa com o grupo de internadas, terapeutas e médicos. Não fui por falta de entusiasmo. Lisboa ainda permanece confusa para as minhas possibilidades de orientação e a ideia de visitar ao Pavilhão do Conhecimento não me entusiasmou. Iria chocar com as visitas que eu programava com os meus filhos e todas as memórias de quem teve alguma coisa e agora não tem nada. Preferi ficar com os meus livros e rever o trabalho que estou a desenvolver com a M., V., P. e R. sobre a história da cidade.
Já andámos pelo terreno para realizar o levantamento das coordenadas, que vão sinalizar com precisão o que vai ficar no mapa, bem como o registo fotográfico dos locais. Passámos a contar com o apoio da câmara municipal para a sua elaboração, e o projecto foi bem acolhido quando se transmitiu a vontade de se criar uma parceria.
Quem vier de futuro ficará a saber onde se situam as 14 portas da cidade, os bairros mouro e judeu, assim como os seus templos de culto.
A equipa de enfermagem e de terapeutas tem sido incansável e muito organizada. No meio de tantas actividades diárias há sempre o cuidado de nos proporcionar o tempo que necessitamos para trabalhar no projecto.
O jornal trimestral editado pelo serviço de psiquiatria foi-me dado para paginar e modificar gráficamente. Assim, enquanto os ensaios da tuna se vão realizando ficarei resguardada, mas a produzir uma coisa que me dá prazer.
Vontade de cantar - 0
Ontem tive um momento feliz.
Voltei à ASPA com uma voluntária que me pediu para a ajudar.
O caso é o de um gatinho bebé, abandonado no Cartaxo e que a APAAC (Associação de Proteção dos Animais Abandonados do Cartaxo) vergonhosamente não quis recolher, que precisa de ser amamentado. Todos os voluntários se têm revezado para o fazer.
Eu sei que quem me ajudou foi a voluntária. Intuiu que aos poucos e no meu rítmo posso colaborar. E estou-lhe muito grata por isso.
Aquele corpinho minúsculo embrulhado no meu colo abraçava o biberão com as duas patinhas a mamar sofregamente. Depois, já saciado da fome, começou a querer brincar. Deu uns passinhos desajeitados, esticou as patinhas de encontro os meus dedos que corriam à volta dele para lhe fazer cócegas e mimos. Limpei-o com um toalhete como as mães gatas fazem com a língua. Senti-lhe o ronronron junto ao meu peito.
Meu pequenino lindo, quero-te muito. E estás no lugar certo.
A boxe dele tem uma bela caminha amarela, brinquedos, a caixinha de areia que ele utiliza muito afoito, a tacinha de água, e ainda sobra muito espaço para explorar a sua curiosidade de bebé.
Eu sei que vai ser muito feliz.
Ter sido rejeitado não lhe vai diminuir a confiança para viver com um humano. Ele saberá gerir qualquer conflito futuro...
Eu e Davi, numa foto recente.
Este gatinho tão maltratado que foi, também é um exemplo de sucesso na gestão de conflitos.
O que ainda há para aprender com eles é tanto...
terça-feira, 28 de maio de 2013
A origem das coisas (cont.)
Passados
dois anos da separação surreal contada aqui e
com o 1º tratamento orientado pelo Dr. Allen Gomes,
voltou-me a coragem para acrescentar
algo à minha vida.
Voltei à música e ao convívio das pessoas que dela faziam parte. Não conseguia nem queria ter nenhum relacionamento. Não, depois do amor se ter desfeito como um vaso de barro mal cozido.
Voltei à música e ao convívio das pessoas que dela faziam parte. Não conseguia nem queria ter nenhum relacionamento. Não, depois do amor se ter desfeito como um vaso de barro mal cozido.
Nos finais de 1977 houve um concerto na Aula Magna que reuniu três grupos distintos: a Brigada Víctor Jara, da qual fazia parte; os Trovante (que integrei de 1979 a 1980) e a Banda do Casaco (com quem viria a descobrir novos horizontes cantando em dois álbuns, No Jardim da Celeste (1981) e Também Eu (1982).
Na
assistência estava alguém amigo de um dos membros da Brigada Victor
Jara, que me foi apresentado no fim daquela
noite memorável. Era
uma pessoa simpática que convidou o
grupo para uma ceia em sua
casa e que durante a noite
de convívio se mostrou muito espirituosa, inteligente, prestativa e
muito curiosa sobre a minha pessoa.
Trocámos
correspondência durante alguns meses e cada carta sua acrescentava
mais pormenores quanto ao
impacto que lhe tinha
causado, a voz no concerto, e os sentimentos incontornáveis que surgiram
daí. Talvez pela distância que me fazia sentir segura, comecei a dar atenção aos
pormenores das missivas
não só pela poesia representada, como pelo gosto estético que apresentavam. Colagens, pinturas, desenhos, tudo
à volta de um
enamoramento cada vez mais assumido de
quem os escrevia. A isto, creio, chama-se capacidade de sedução que
os meus verdes anos não sabiam
reconhecer. E passei
a gostar de receber essas
cartas que eram
enviadas dia sim dia não. Penso que o namoro começou a meio dessa
correspondência. Para uma mente traumatizada como
a minha, o facto de ser
cortejada desta forma (distância + arte multi-poética) foi decisivo
para deixar de ter tanto
medo dos rapazes e
acreditar, aos poucos,
que poderia
haver um amor mais bonito depois
do fracasso do primeiro. Foi, sem dúvida, a confirmação de uma ENORME excepção à regra do ditado popular "não há amor como o primeiro".
Mas
este sentimento, que ainda não era amor, lido ao longo dos meses, nas palavras que não
falavam de deveres para com a revolução, mas sim da urgência de
amar porque o mundo estava a sofrer uma enorme mudança, despertou
em mim uma crença, de que algo melhor podia
ser encontrado e que o
mesmo equívoco não se
repetiria.
Havia a experiência que tinha sido vivida e, agora, havia uma porta enorme que
se abria ao que ainda não tinha acontecido. Não achei que fosse uma forma de recompensa pelo sofrimento sentido, mas sim um começo verdadeiro e puro de um amor a construir. E acreditei. Acreditei em cada
palavra.
Os
primeiros meses da minha vivência com o Paulo foram muito felizes.
Ensinou-me muitas coisas nos livros que me sugeria, nas exposições
a que me levava;
pensava no meu bem-estar
quotidiano e
eram
frequentes
as
mensagens carinhosas
espalhadas pela casa, as
tertúlias que organizava para a
minha integração no
seu mundo, através do convívio com os seus amigos e amigas fascinantes;
no estímulo de outras
potencialidades que me reconhecia
(foi com ele que aprendi a trabalhar na câmara escura e
a descobrir-me mais intensamente no gosto pela fotografia);
na loucura saudável das gargalhadas cúmplices
quando descobríamos
Lisboa na sua vespa e, sobretudo, no respeito que demonstrava pelo que
eu era e pela minha arte.
Eu
sabia que a sua paixão era maior do que aquela
que eu podia sentir, mas à
minha maneira eu iria reaprender o que podia ser o amor.
Os
meses foram passando e começou a haver da parte de um
dos principais elementos
da família do Paulo, a
sua mãe, um nervosismo
desconfortável.
De início não terá ligado para aquela aventura porque seria, de certeza, uma coisa de semanas, sem importância nenhuma. Depois, passou a dar mais atenção ao caso que se prolongava já há meses, e as visitas surpresa, de observação ao objecto estranho, passaram a ser constantes.
Não era simpática, mas não era antipática. Sentia-lhe uma frieza imposta pela distância que me demonstrava, uma superioridade que eu não sabia classificar. Acho que ela vivia apavorada que o seu filho preferido ficasse com uma namorada cantora em vez de uma namorada doutora.
O Paulo era filho de um arquiteto e para arquiteto estava a estudar.
As mães querem sempre o melhor para os filhos e esta dava muita importância aos títulos antes do nome.
De início não terá ligado para aquela aventura porque seria, de certeza, uma coisa de semanas, sem importância nenhuma. Depois, passou a dar mais atenção ao caso que se prolongava já há meses, e as visitas surpresa, de observação ao objecto estranho, passaram a ser constantes.
Não era simpática, mas não era antipática. Sentia-lhe uma frieza imposta pela distância que me demonstrava, uma superioridade que eu não sabia classificar. Acho que ela vivia apavorada que o seu filho preferido ficasse com uma namorada cantora em vez de uma namorada doutora.
O Paulo era filho de um arquiteto e para arquiteto estava a estudar.
As mães querem sempre o melhor para os filhos e esta dava muita importância aos títulos antes do nome.
Ao mesmo tempo sentia-se uma tensão crescente
entre mãe
e filho e eu suspeitava
que, na minha ausência, haveria
muita pressão para as coisas tomarem outro rumo.
E chegou o dia em que descobri que
estava grávida. Não
tinha sido planeado, mas ambos sabíamos que podia acontecer. Pelas
contas o bebé nasceria em Junho ou Julho próximos
e falei abertamente com o
Paulo. Não sabia se ele queria ter uma família. E ele queria.
Apesar de ainda estudar, trabalhava no atelier do pai e
eu trabalhava com os Trovante. Tínhamos concertos e esta era uma
altura em que já não se tocava de graça.
A chegada deste bebé era muito abençoada e eu acreditei que agora estavam criadas as condições para ter a minha família. Aquela que eu muitas vezes anunciava aos meus pais, quando me sentia ferida por eles, que iria ter e que seria a coisa mais importante da minha vida.
A chegada deste bebé era muito abençoada e eu acreditei que agora estavam criadas as condições para ter a minha família. Aquela que eu muitas vezes anunciava aos meus pais, quando me sentia ferida por eles, que iria ter e que seria a coisa mais importante da minha vida.
A mãe do Paulo odiou a ideia e ficou
contra. Por arrasto alguns
dos irmãos também, com excepção do Zé Pedro, o único irmão do
Paulo que sorria, e do pai
João Maria que
gostava verdadeiramente de mim.
Não
vou contar a quantidade de situações irreais e dramáticas
que se desenrolaram a partir daqui, mas ainda hoje me lembro da frase
marcante da
matriarca que me disse à porta de casa: “não tem o direito de ter
um filho do meu filho. A única coisa sensata que deve fazer é
abortar. Você já foi casada.”
Mas o Miguel veio ao mundo num belo fim de tarde de Julho suave e sem dor,
uma das maiores alegrias que jamais havia experimentado, que apagou todos os contras.
O meu
menino, que passou a andar comigo para todo o lado, era
a minha verdadeira paixão e, talvez por isso mesmo, a vida com o
Paulo começou a deteriorar-se. A pessoa que tinha
sido foi mudando, alterou
o tom de voz, passou para
uma frieza seca parecida com a da mãe, até chegar
às
acusações sem fundamento que me ofenderam muitíssimo. Vida de
cantora, vida de promiscuidade, dizia.
Não queria acreditar no que
ouvia. Fazia muito esforço para desempenhar o meu papel de
profissional e de mãe. Cada dia era pior que outro, por vezes quando
chegava a casa depois de um ensaio ou de um concerto era recebida com
copos e pratos partidos. E um dia, depois de estar a filmar nas Guerras do Mirandum (do Fernando Matos Silva), na Tapada de Mafra, a seguir a ter levado o Miguel para ser filmado numa cena em que lhe dava de mamar, não encontrei ninguém em casa. Pai e filho não se encontravam. Esperei. Enervei-me. Telefonei para onde calculava que estariam. Sim, era aí que estavam, mas a ameaça veio de imediato: nunca mais o vês.
A razão assentava numa paranóia instalada na cabeça
do Paulo (e desconfio de
quem a provocou) que eu
estava envolvida com todos os elementos dos Trovante e com todos os actores do filme.
A pior coisa que se pode fazer a alguém é
culpá-la por algo que não fez.
Em 1979 as coisas eram muito diferentes. As influências existiam, mas os mecanismos de apoio eram quase nenhuns. E eu não sabia para onde me virar.
Em 1979 as coisas eram muito diferentes. As influências existiam, mas os mecanismos de apoio eram quase nenhuns. E eu não sabia para onde me virar.
A raiva tomou conta de mim. E por raiva então
envolvi-me. Fui magoada e iria magoar alguém, mesmo que me
desejasse o melhor. E foi isso que aconteceu. Só conseguia sentir frustração e mais raiva.
Mas o meu menino não vinha para mim e eu tinha de
pensar em algo que mo
devolvesse.
Regressei
para a humilhação da casa dos meus pais. Não me lembro de ter dito
uma palavra. Estava disposta a suportar o que fosse. Deixei tudo para
trás. Casa, trabalho, e
as coisas que me pertenciam.
Queria lá saber disso para alguma coisa. A minha mãe preocupava-se com o
destino do meu enxoval e das coisas que tinha oferecido para a casa. É
certo que muitas delas foram "guardadas" pelos familiares do Paulo, mas
isso não me interessava para nada.
Surgiu,
tempos depois,
uma possibilidade remota de poder ver o meu menino e voltei a Lisboa. Era só
para passear com ele no jardim da Gulbenkian, foram as instruções.
Sim, eu vou para o jardim. Mas em vez disso entrei num táxi e
fui para Santa Apolónia.
Apanhei o foguete para Coimbra e lá chegada telefonei a avisar que
de agora
em diante as coisas iam
mudar.
Fui ameaçada de tudo. O
Paulo enviava-me todo o ódio que tinha.
Apesar
de estar a salvo com o meu Miguel, não estava da inflexibilidade dos
meus pais que se tornou ainda mais rígida. Não era suposto, por
exemplo, levar o Miguel a uma esplanada
para conversar com amigos. O meu pai foi claro: tens cá o teu filho e
de agora em diante a tua vida vai ser como a de uma freira. Só vives
para ele e o resto não existe.
Estava
totalmente dependente deles. Económicamente, também. Aí estava a
factura de lhes ter dito
que um dia seria feliz com
a minha própria família.
E tudo o que eu fazia ao Miguel era criticado. Se o punha no
carrinho para o levar ao jardim, se lhe colocava o chapéu por causa
do sol, se lhe dava de comer aquela papa, era sempre tudo mal feito.
Fiquei
em Coimbra por mais uns meses até
que surgiu a oportunidade
de um emprego. Não me importava que fosse outra coisa que não
cantar. Tinha que sustentar o meu filho e a mim. A
proposta em questão era de tratar de uma casa de um jornalista do
Expresso. No fundo, era limpar-lhe a casa. E decidi que ia mesmo para as limpezas. Foi o descalabro. A minha mãe chamou-me de tudo. Mas
não me importei. Tinha as malas feitas e ia viver para
o meu bebé.
Levantaram-se
as vozes dos amigos da família e dos irmãos.
"A mãe não se sente bem e se lhe acontecer alguma coisa a culpa é tua".
"A mãe não se sente bem e se lhe acontecer alguma coisa a culpa é tua".
Já
na estação de Coimbra B jogaram a última cartada para me demoverem. O
enviado foi uma pessoa que eu respeitava muitíssimo e que me disse: Pelo
menos deixa cá o menino. A tua mãe está a chorar muito e sente-se
mal do coração. Já pensaste que vais carregar com o remorso para
toda a vida se ela morrer
ou ficar incapacitada? Deixa-o ficar por uns tempos e depois vens
buscá-lo. Faz isso, não te precipites com a tua atitude. Depois
vens buscá-lo. É por pouco tempo, até a tua mãe se habituar à ideia.
Não
sei o que me deu. O comboio estava quase a chegar e eu coloquei
o
Miguel ao colo do Dr.
Moura. Entreguei-lhe a mala com as coisinhas dele. “Não quero que
aconteça nada de mal à mãe. Mas eu volto daqui a 1 semana. Não
mais. E venho buscá-lo haja o que houver".
Parti
para Lisboa e comecei a trabalhar. Liguei
à minha irmã todos os
dias para saber do meu filho e na sexta também,
para combinar as horas a que chegaria a Coimbra no sábado. Ia
trazê-lo de volta como
estava combinado.
A minha
irmã diz-me, então, com uma voz estranha:
-
Não vale a pena, Né.
-
O que dizes?
-
Não vale a pena vires.
-
Não estou a entender. Dei uma semana, uma, para ele ficar e os
achaques da mãe se resolverem. Vou buscá-lo e acabou.
-
Não venhas porque ele já cá não está.
Parecia que tinha levado um soco e fiquei sem perceber o que tinha ouvido.
-
Não está como?
-
Os pais ligaram ao Paulo e ele veio buscar o menino.
Antes
de entrar em estado de choque lembro-me de ter perguntado:
- Porquê?
Porque fizeram isso?
-
Os pais disseram ao Paulo que não tinham vida para isto, para tomar
conta de um bebé, e que o melhor era ele
vir
buscá-lo
o mais depressa possível.
Desta
vez não regressei a Coimbra. Fiquei em Lisboa. Não fui parar a
nenhum internamento. Entreguei-me
à dor procurando em todas pessoas um afecto que me compensasse. Na
verdade isso nunca
aconteceu porque
me era tirado
algo mais, mas eu
permitia. Andei assim
meses. Foi a fase dos casos atrás de casos, mas sem me entregar nunca
a nenhum deles. Fazia-o para deixar
ficar um rasto de dor em
todos
e principalmente em
mim. Era a punição de ter acreditado
que podia ter a minha
família e ser feliz.
Durante
esse período fui
convidada para cantar na
Banda do Casaco. Gravámos
No Jardim da Celeste
que foi o éden
à margem da
minha autodestruição. Em
Argila
de Luz senti que
era eu. O António Avelar Pinho tinha escrito uma letra que, sem
saber, descrevia o estado da minha alma e do meu corpo.
Cresci
musicalmente com este
trabalho, mas estava um
farrapo psicológico e humano. Ninguém se apercebeu até que ponto. E quando
fui informada que não valia a pena ir a
tribunal para reaver o meu filho – já que tinham sido os próprios
avós maternos a entregá-lo ao pai – decidi sair de Portugal.
No
dia 17 de Novembro de 1981
, às 14:30, apanhei
o Sudexpress com uma
mochila às costas e a viola na mão. Procurava outro lugar, outra
vida.
Não fazia intenção de voltar.
Não fazia intenção de voltar.
domingo, 26 de maio de 2013
Bioquímica versus Emoção
Os antidepressivos tratam a dor da depressão, mas não curam o sentimento de culpa nem tratam a angústia da solidão.
in a Saga de um Pensador de Augusto Cury
sábado, 25 de maio de 2013
Quatro semanas depois
Mais uma semana de
internamento.
Ainda sobre as recaídas
depressivas - trabalho que continuou a ser desenvolvido nas aulas de
psicoeducação - tentámos identificar, com maior especificidade, os
factores desencadeantes que o stress nos provoca.
O que é esta
ansiedade? Em que estado de tensão e sob que pressão fazemos
esforço para viver?
De novo uma variedade
de sintomas que nos passam invisíveis, de novo a necessidade de os
reduzir até encontrarmos aqueles que sinalizam esta guerra interna.
- dores de cabeça
- transpiração
- aceleração do ritmo
cardíaco ✓
- dores de costas ✓
- alterações de
apetite ✓
- dificuldade em
adormecer ✓
- maior necessidade de
dormir ✓
- tremor nas mãos ou
no corpo, “tremores internos”
- problemas de digestão
- dores de estômago
- boca seca
- dificuldade de
concentração ✓
- exaltação com
factos ou situações pouco importantes
- irritabilidade
- inquietação
- choro frequente ✓
- aparência descuidada
- tendência para
acidentes (normalmente tenho-os na cozinha e nunca percebi porquê.
Coisas que me caem, queimaduras e cortes). Esta alínea resulta da falta
de concentração perante um trabalho automático, como o
de cozinhar, em que o pensamento está focado não no que fazemos,
mas naquilo que nos incomoda
- uso de álcool ou
drogas
Os factores
desencadeantes dividem-se em
1 – acontecimentos de
vida marcantes
2 – transtornos
diários mais pequenos
O primeiro grupo é composto por motivos de mudança e tudo o que lhe está implicado:
- mudança de casa
- mudança de emprego/
desemprego
- casamento/ divórcio
- nascimento de um
filho/morte de um filho
- doença grave
- receber herança/
ganhar muito dinheiro
- problemas financeiros
- problemas de saúde
ou morte de um familiar
- ser vítima de um
crime
- problemas com a
justiça
- ter um
relacionamento/ romper um relacionamento
- deixar de fumar
- iniciar uma dieta
- novas
responsabilidades
- ficar hospitalizado
- não ter casa
- problemas com o
consumo de álcool e drogas
No segundo grupo as
questões do quotidiano são igualmente várias :
- falta de dinheiro
para as despesas básicas
- frequentar ambientes
agitados e confusos
- transportes públicos
- discussões em casa
ou no trabalho
- lidar com pessoas
desagradáveis
- não ter privacidade
em casa
- não ter intimidade
com as pessoas mais chegadas
- tarefas domésticas
desagradáveis
- viver numa zona de
risco ou de que não se gosta
Deu para perceber que a
lista pode nunca mais ter fim porque cada pessoa encontra
motivos perturbadores consoante a sua realidade de vida.
Poucas são as coisas que nos podem dar alguma paz, o que me leva a pensar que, aquilo que o homem constrói para seu conforto não passa de uma mentira.
Há sempre uma razão que nos provoca infelicidade e os desgostos acumulados dessa infelicidade torna-nos doentes.
Poucas são as coisas que nos podem dar alguma paz, o que me leva a pensar que, aquilo que o homem constrói para seu conforto não passa de uma mentira.
Há sempre uma razão que nos provoca infelicidade e os desgostos acumulados dessa infelicidade torna-nos doentes.
Depois de algumas horas de trabalho elaborei o meu "plano"
Plano
de Prevenção de Recaídas
|
Aviso
de acontecimentos ou situações que desencadearam no passado uma
recaída:
1.
Problemas familiares
2.
Fim de relacionamentos e mudanças de casa
3. redução de trabalho (a área cultural é a primeira a cair)
4.
Conflitos interpessoais
|
Aviso
dos sinais precoces de alerta vividos anteriormente:
1.
Dificuldade em dormir/insónia
2.
“Assalto” de memórias angustiantes
3.
Cansaço/falta de energia/desinteresse
4.
Desilusão com os outros
|
O
que me pode ajudar em caso de estar a ter um sinal precoce de
recaída:
1.
Consultar psiquiatra/psicólogo
2.
Encontrar uma pessoa honesta com quem pudesse falar (mas creio que
isso já passou para o lado da utopia porque não existem pessoas
honestas e muito menos amigas)
3.
Recorrer a um hobbie para canalizar o meu desencantamento com a
vida (colocar a minha criatividade, também, como expressão dos
sintomas a limpar)
|
Quem
eu desejo que me ajude, e o que quero que me façam:
1.
Desejar, desejava que quem criou tudo isto falasse comigo.
Na
impossibilidade de receber respostas da fonte principal, conhecer
um sábio que me dissesse o que não sei e respondesse ao que eu
pergunto há tanto tempo... na impossibilidade de ser um sábio
acessível ou de terem deixado de existir sábios, seguir para o
ponto 2.
2.
Uma terapia que me seja adequada e na qual possa confiar para me
ajudar a encontrar as supostas ferramentas com que nasci para
minha defesa pessoal e crescimento. Não me limitar à medicação
porque esta tem somente atenuado alguns aspectos da crise. Os motivos que a
causam permanecem enraizados há demasiado tempo.
Também
desejaria dominar uma forma de estar que pacificasse os meus
medos/demónios numa expressão artística que não a música
porque não quero mais servir-me dela.
3 e 4 }Estes números são dispensados porque não vejo mais pessoas.
|
Quem
eu quero contactar em caso de emergência:
Bom,
se depois das démarches que efectuei, identificando sintomas,
reconhecendo o problema desencadeante, procurar ajuda e mesmo
assim entrar em crise, só mesmo chegar às urgências e ser
internada.
Não há ninguém para contactar.
|
Emoções Positivas ou viajar na maionese?
Quando entrei na sala olhei para a frase escrita no quadro:
Saborear as coisas agradáveis da vida.
A psiquiatra que a tinha escrito aguardava que nos sentássemos para começar.
Isto é um pouco
estranho, pensei. Quando o nosso pensamento ainda está no
polo oposto que coisas agradáveis podemos recordar?
E a sessão começou:
O mecanismo tem de ser activado para prolongarmos momentos agradáveis. No passado não existiram só coisas negativas - olhava para nós à espera de aprovação - Vivemos momentos felizes - acrescentou - Não temos controlo sobre o que se passa à nossa volta e não podemos sofrer por algo que não podemos evitar. Ao tentar controlar situações negativas que não dependem de nós devemos perguntar-nos se vale a pena ficarmos por aí ou deixá-las e seguirmos em frente.
Ok – disse para os meus botões - estou a ter uma aula de auto-ajuda à Louise Hay... - e procurei uma posição mais confortável na cadeira.
A Drª L. é uma mulher
bem resolvida e enérgica. De facto, transpira positividade por todos
os poros e o sotaque venezuelano que não perdeu, embora resida há
muitos anos em Portugal, dá-lhe uma expressividade cativante e alegre. Pelo
menos as minhas colegas do internamento ouviam-na concentradíssimas,
absorvendo cada palavra como alforges de água para matar a sede de
toda uma vida.
Isto é o efeito que os livros da Louise Hay suscitam – pensei enquanto as observava.
Sim, já houve uma época em que li a "pioneira de auto-ajuda" a conselho de uma pessoa conhecida, que me jurou a pés juntos sobre a mudança de vida que aconteceria se me entregasse ao ensinamentos da... qual é mesmo a designação da senhora? Autora motivacional...
Pode Curar a sua
Vida e o Poder está Dentro
de Si foram lidos, mas não causaram nenhuma mudança em
mim. Não sou do tipo de pessoa que se deixa levar embevecida por uma
quantidade de clichés e frases feitas e cuja profundidade não vai
mais que um degrau raso da entrada de uma porta ao nível da rua.
Retomei a palestra da
nossa médica que estava a dar o exemplo de África.
Fora em tempos voluntária num país em guerra e trabalhou com crianças que nada tinham. Perderam os pais, perderam as aldeias, perderam uma vida e ali estavam , não com o básico, mas com o mínimo dos mínimos e, ainda assim, sorriam e eram felizes. Viviam o presente e agradeciam por estarem vivas.
Fora em tempos voluntária num país em guerra e trabalhou com crianças que nada tinham. Perderam os pais, perderam as aldeias, perderam uma vida e ali estavam , não com o básico, mas com o mínimo dos mínimos e, ainda assim, sorriam e eram felizes. Viviam o presente e agradeciam por estarem vivas.
Mas doutora -
interrompi - sabemos que o pensamento gera perguntas e
respostas, questiona e põe em causa. Qualquer criança vivendo uma
situação semelhante ainda não chegou a esse processo de pensamento
por ser criança e pelo instinto único de sobrevivência. Os
operários que estão concentrados a colocar um parafuso dentro de
uma porca não pensam noutra coisa enquanto estão concentrados
na porca e no parafuso. Ora, as pessoas que aqui se encontram, e
ficaram como se vê, romperam com a mecanização das suas
vidas. Ao pensar no que tinham e no que lhes faltava colocaram tudo
em causa. A consciência tomou conta delas e, seja sobre o passado ou
sobre o futuro, o beco foi construído por uma forte emoção. Ninguém vive confortável no
beco. Por isso vieram parar aqui. A inocência de aceitar o que se
tem, o pouco que se tem, não é duradoura. Essas crianças africanas
quando crescerem vão pensar no que passaram e muitas caixas
de Pandora vão ser abertas... como se constrói um pensamento
positivo sobre algo que nos afectou negativamente? A vida, a nossa
vida, planos, sonhos, expectativas...
Há uma característica
estudada na física – interveio a médica – chamada resiliência
que é a capacidade de acumular energia sob stress sem haver ruptura,
que também pode ser aplicada às pessoas. Perante um choque, um
desgosto, um problema grave, supera-se a dor aprendendo com ela e
revertendo-a positivamente a nosso favor. Isto é, existe uma
capacidade de nos levantarmos depois de cairmos e é isso que temos
de aprender.
Depois contou que teve
uma paciente no internamento a quem lhe tinha morrido o único filho.
A dor que sentia era insuportável, mas ao fim de algum tempo de
tratamento decidiu tirar um curso superior e escolheu Direito. E
porquê? O facto da morte do seu filho ter sido causada por outra
pessoa, num acidente de viação, deu-lhe inspiração para defender
os que passam pelo mesmo, a fim de obterem justiça, sentirem apoio e
consolo, e prosseguirem com as suas vidas. Foi o que esta pessoa
descobriu que tinha de fazer, depois do desgosto terrível por que
passou, para prosseguir com a sua.
O que precisamos fazer
é começar a dar valor às pequenas coisas - afirmou - Vocês
acham que ter um carro, um telemóvel e muito dinheiro é a única
fonte de felicidade? Porque é que aquelas pessoas famosas,
habituadas a ter tudo, reagem de forma tão destrutiva? Citou alguns
nomes conhecidos ligados à música e ao cinema. Todas concordaram.
Não é melhor sentir o
que a natureza pode fazer por nós? - continuou - O prazer de
um aroma, uma paisagem, um canto de um pássaro? Porque não procurar
aí uma ligação forte que fique na memória e ao recordá-la
sentirmos prazer com isso? E porque não partilhar com alguém sobre
essa actividade positiva que fizemos? Comunicar também é uma forma
de ser feliz...
Mas doutora – voltei
eu – isso seria perfeito, claro... mas se todos os dias
somos bombardeados para consumirmos o carro, o telemóvel... tudo
está feito para a lavagem cerebral nos levar a desejar o que não
nos faz feliz. E sobre a natureza? Não há a mínima preocupação,
as pessoas nem se apercebem que existe nem a respeitam. Os mesmos
que lançam a mensagem de consumo do carro, do telemóvel são os que
poluem, estragam, destroem essa possibilidade de recordação
feliz... nós não somos nada ao pé desse poder... (não devia
falar, mas é mais forte que eu - pensei. É importante passar
uma mensagem positiva, mas isto está idílico demais...)
Devemos
autocongratular-nos com o que sentimos, aumentar a nossa percepção, o
olfacto, o tacto, deixarmo-nos absorver pela situação e desfrutar
ao máximo o momento. Podemos encontrar um novo amor, um novo
trabalho! Temos de criar essa possibilidade em nós mesmos. Se
permanecermos fechados às coisas, então sim, não vamos conseguir
sair da negatividade – insistiu a médica.
Um emprego? -
interrompi já arrependida de o ter feito– um emprego para nós
que nada representamos para o mercado de trabalho? E o facto de
termos estado internadas? A sociedade estigmatiza-nos, não nos quer
dar responsabilidades, não acredita no que valemos porque um dia
ficámos “mal da cabeça”. Desculpem estar-vos a dizer isto – e
olhei para todas – mas é a realidade que nos espera lá fora. Eu
não quero construir sonhos que vão ser novamente pisados.
Mas sonhar é
importante! - exclamou a médica – e sim, é verdade que a
sociedade é preconceituosa com este tipo de doença, mas vocês têm
que ajudar a combater isso!
Olhou para mim e disse
por cima dos óculos: eu não conheço o seu caso, mas posso falar
com a sua médica e ajudá-la. Vamos ajudá-la.
Obrigada, estou aqui
para isso mesmo, para ser ajudada, mas também quando me fala em
encontrar o amor parece que estou a ser levada para uma dimensão
irreal porque isso não existe e não acredito que seja assim.
Conhecem
o Woody Allen? - perguntou-nos sorrindo - Ele tem muitos talentos e
um deles é o de saber como as pessoas são. Vou-vos ler uma frase, e
com isto queria acabar a sessão de hoje: O talento
para ser feliz é apreciar e gostar do que se tem, em
vez de se apreciar e gostar do que não se tem –
recitou - A
tarefa que vos proponho é a de fazerem
um
plano de actividades agradáveis para serem executadas.
Não sei o que possa
planear para mais tarde saborear recordações felizes – disse para
mim enquanto saía da sala.
Não tenho nada contra
a médica que iniciou esta terapia de grupo sobre pensamento
positivo, mas não quero que encha chouriços com coisas tão
inalcançáveis como o que tinha acabado de ouvir. Ser-se positivo é
importante, mas não acredito que se chegue lá desta maneira.
Se as afirmações terapêuticas de Louise Hay curassem os seus
leitores, metade da humanidade estava salva e não seria preciso
escrever cerca de 30 livros à volta do mesmo assunto - ( Pode
Curar a sua Vida vendeu 40 milhões) e é só fazer as contas.
No dia a seguir,
enquanto dávamos uma caminhada com os enfermeiros estagiários,
falámos um pouco sobre a sessão da Drª. L. Perguntaram-me o que
tinha achado. Bom... gostei da senhora, percebi que foi voluntária
em África, isso tem muito valor para mim, mas não me rendo ao que
foi dito. As coisas não são assim. Mesmo sabendo que a
natureza nos pode dar o que tem de melhor, e com isso melhorarmos
também, acho que o outro tipo de natureza, a humana, estraga tudo. E
a minha preocupação é a de como me vou defender disso. Como posso
evitar mais dor vinda desse lado...
Perguntaram-me se
acreditava no amor. De quem? - perguntei – no amor dos animais
acredito e naquele que a natureza nos oferece em todas as maravilhas
que só dela são. Do resto nem pensar. O amor não é fodido como
diz o livro. O amor é uma invenção impraticável que faz da nossa
vida uma merda.
Passámos por uma rua que nos chamou a atenção. Na esquina havia uma garagem cheia de coisas penduradas. Cestos de vime, patos de borracha, bicicletas, leques, decorativos, carrinhos de bebé, triciclos... decidimos espreitar. Era um ferro-velho/alfarrabista.
Logo à entrada havia
uma pequeno armário a abarrotar de livros. Os meus olhos aumentaram.
Agachei-me e a minha mão puxou por um ao calha. Quando virei a capa
para ler o título achei estranho : Só o Amor é Real – a história
do reencontro de Almas Gémeas, por Brian L. Weiss. Virei-me para o
grupo e disse-lhes: este autor é um psiquiatra muito conceituado,
especialista em depressões, fobias, ansiedade, um sábio para muitos
esotéricos. Olharam para mim seriamente. É verdade! Não é nenhuma
Alexandra Solnado. É director do departamento de psiquiatria de um
hospital em Miami. Escreve sobre o que foi desenvolvendo com os seus
pacientes, regressão e terapia sobre vidas passadas. E neste livro
diz que só o amor é real. Interpreto isto como um desafio e vou
levá-lo. Elas riram-se.
Entrámos na lojinha
cheia de tudo o que se possa imaginar. Máquinas de escrever,
carteiras e malas de senhora, porta-chaves mirabolantes, frascos de
perfume do século passado, canetas de tinta permanente, revistas de
banda desenhada, cavalos de corda, chávenas de café, tachos de
esmalte, candeeiros de porcelana, bijouteria vintage...um mundo de pó
e de muitas estórias.
São 3 € - disse o
dono do lugar quando lhe estendi o livro.
Reparei que estava
assinado por uma Luzia Antunes com a data de 2000. Será que
reencontrou a sua metade? Será que não? Terá morrido? O que leva
alguém a desfazer-se de um livro? Como chegou a esta loja de
velharias?
Porque me veio parar às mãos?
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