sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Voz de Dentro


A lembrança, suspensa por um fio, cola-se à nostalgia desvanecente. Enrolada em mim, testa nos joelhos, braços em cruz, punhos fechados, vejo imagens confusas através da parede. Já quase sem as poder distinguir, apuro o ouvido. Se um dos sentidos não está aferido outro tornar-se-à preciso. Preciso saber que lugar ameno é este. Quanto tempo? Quase 273 dias… Cansa-me esta imensidão aquática. Não vejo o sol nem a lua. Não vejo para fora. Episódios vagos tracejam uma forma de vida nómada, faminta, colorida, de movimentos que, aqui, não consigo manter coordenados. Dançava entre o deserto, meu mundo, e alguns oásis de madrepérola rara. Uma icharb ondulante deixava revelar cabelos de Henna. A salguta instigava o bendir. Os snujs afugentavam os maus espíritos. Uma rota talhada como o nay. Um sopro divino uno.
Não me apercebi da mudança, mas já anseio pelo que ainda não sei.
Algo me acalma. Parece ser uma voz. Sim, canta para dentro. Quero espreguiçar, abrir os braços em cruz, desfazer esta forma de novelo que sou, preciso estender-me como o deserto. A voz junta-se a outras. Alegra-me e entristecem-me.
Numa madrugada abafada fiquei ansiosa. A voz que cantava para dentro calou-se. Senti um tumulto de águas medonhas. Tive medo, tive curiosidade. Havia dor e foi a primeira que senti. Fui lançada e puxada. Vozes indistintas troaram nos meus ouvidos. Viraram-me de cabeça para baixo, aprendi o primeiro choro. Não conheço ninguém. Embrulham-me em panos que não são abaias. Mas, o que são abaias? Estava a lembrar-me de quê? Algo suave, como uma mão, faz-me uma festa na cara. Sinto o perfume de jasmim e rosas de uma memória antiga, que agora volta ao princípio.
“ É uma menina! Tem olhos de amêndoa.”
Um som curioso distingue-se do resto. Sei o que é. Música! Mas que música?

Chegou-me ontem da América - diz o pai para a mãe - Está a ser um sucesso enorme por lá, dizem-me que não toca outra coisa na rádio! É cá um artista este Elvis, um bocado selvagem, enfim… Sabias que lhe chamam Elvis the Pelvis? Nunca lhe podem fazer plano americano, só da cintura para cima… parece que se apaixonou… o rebelde encontrou a sua cara-metade, a Priscilla… estás a vê-lo aqui todo aprumado de farda? … Se quiseres ponho outro single no pick- up. Se calhar é melhor, não é?... Ella Fitzgerald vais gostar … tu preferiste sempre vozes de contralto.
*
Música
Oum Kalsoum - El Sett, 1936
Elvis Presley - A Big Hunk O' Love (1959)
Ella Fitzgerald – My Old Flame (Radio Recorders Hollywood, 1959)

Glossário
Icharb – Lenço que as mulheres usam na cabeça
Salguta – grito das mulheres berberes usado em casamentos e despedidas
Bendir - pandeiro grande feito de pele de cabra e madeira
Snujs – pequenos címbalos usados na dança do ventre
Nay - instrumento de junco simples, com as duas pontas abertas, com 5 a 7 (mas normalmente 6) furos, sem bocal.
Abaia – capa de lã beduína usada à noite para aquecer.

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Habitantes II




sábado, 28 de Novembro de 2009

100 anos do Futebol em Torres Novas

Foi hoje inaugurada esta exposição, que estará patente até dia 10 de Janeiro, na Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes. Um óptimo motivo para visitar Torres Novas onde há sempre coisas a acontecer!

Ficam aqui algumas das imagens que contam a história que começou há 100 anos.

O primeiro jogo
Há 100 anos realizava-se em Torres Novas o primeiro jogo de futebol de que há registo documental. O jogo já seria conhecido, com toda a certeza. Mas deveu-se a um estudante torrejano em Coimbra, Augusto Moita de Deus, a iniciativa da sua divulgação prática, um acontecimento social que mereceu a atenção da imprensa da vila. Em 15 de Abril de 1909 foi o jogo primordial e o relato dá pormenores sobre os participantes e a assistência (...)
in Guia da Exposição








quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Pausa



Há uma saudade da vida e há a espera, a infinita espera, quase presença...

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

As Asas



Este tema do Chico fez parte do meu reportório durante muitos anos. Fizemos vários concertos juntos, em Portugal e no Brasil, trocámos de dialectos (eu com a Mama África, ele com a Cirigoça) vivemos muita música e grandes momentos.

Voz e Guitarra foi um projecto especialíssimo, totalmente acústico, que reuniu uma série de músicos maravilhosos e excelentes canções. A acompanhar-me está o Amadeu Magalhães.

domingo, 22 de Novembro de 2009

Oumou Sangare

Excelente escolha Carlos Azevedo!


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A minha mãe foi uma segunda mulher abandonada pelo meu pai. Eu vi a sua luta para sobreviver. A poligamia desenvolveu-se com a cumplicidade das mulheres, mas apenas porque as mulheres do Mali são pobres e precisam de apoio financeiro. Após 10 anos de casamento o homem quer uma mulher mais nova e cansa-se de sustentar a primeira. Idealmente, a poligamia devia ser banida. Se não, devia ser aplicada em estrita conformidade com o Corão, que diz que um homem pode ter até quatro esposas, se ele as puder manter, a cada uma, na sua própria casa para evitar confrontos. E, também, se ele as puder amar de igual modo. Se amar uma mais do que outra vai directamente para o inferno. O Corão diz, na verdade, para não se praticar a poligamia.

(excerto da entrevista dada ao Independent, em Outubro de 2003)

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

As raparigas vão dançar

Ontem falei do deserto e de novo a minha alma berbere acordou. Por todas as mulheres que acreditam na sagração do cálice.


Djur Djura é o nome de uma montanha na Argélia. Também é o desta mulher berbere que sofreu duras represálias por não se encaixar na tradição familiar. A sua música e poesia são a forma de fazer chegar às mulheres do seu país e do mundo islâmico um poderoso manifesto de liberdade e emancipação. Como Kahina, a sacerdotisa berbere do séc. VII que resistiu à conquista árabe, Djura Abouda ergue um exército leal em defesa da riqueza cultural das suas origens e, ao mesmo tempo, contra a opressão de um sistema ultrapassado.


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