Domingo, 19 de Maio de 2013

Três semanas depois

Esta semana, o “trabalho de casa” de psicoeducação foi o de procurar sinais precoces de alerta. Quando surgem, por um factor desencadeante qualquer, e não são tratados de imediato, conduzem-nos a uma recaída. Por vezes são sintomas imperceptíveis à nossa avaliação. 
 
Porém, aquilo que me ocorre quando penso em todas as “pré-crises”, é a vergonha e a culpa crescentes por estar de novo no limiar da depressão e falhar no desempenho do que estiver a fazer. O desejo de camuflar esses sinais, para continuar dentro da normalidade que esperam de mim, faz com que não queira saber dos sintomas. Costumo argumentar comigo mesma que vou ter força suficiente para ultrapassar a ameaça eminente, sem ter de voltar ao médico e à medicação. Erro meu. É muito pior.

Segundo os apontamentos que tirei, a dificuldade em dormir é um dos sintomas que pode evoluir para a insónia que, por si só, já é uma forma declarada de recaída.

Tive meses de insónia, ao longo dos anos, que começaram sempre por um certo desconforto em adormecer. Ler até cair para o lado, ver um filme e adormecer antes do fim, (na verdade via 2 a 3 filmes seguidos) jogar solitário até as cartas ficarem desfocadas, pequenos truques para protelar as evidências que se iam avolumando até não haver mais truques para as contornar...
Mas existem outras que rondam o nosso quotidiano:
- sensação de tensão e ansiedade;
- dores de cabeça e músculos contraídos;
- alterações no apetite (comer de mais ou de menos);
- diminuição da necessidade de dormir (na doença bipolar e na psicose é muito comum) indicador de um estado de euforia em que a pessoa fica com bastante energia apesar de não descansar;
- cansaço, isolamento em casa, não ter vontade de estar com outras pessoas, não lhe apetecer conversar, dificuldade em ambientes sociais;
- irritação, conflitos com os outros;
- parar um tratamento por achar que a medicação não está a fazer efeito ou por esquecimento de a tomar (nos casos de euforia a pessoa acha que já não precisa);
- dificuldade de concentração, de atenção nas conversas, estar na “lua”;
- sensação de que os outros estão contra nós, que nos querem prejudicar, mania da perseguição;
- refúgio no álcool e drogas;
- gastos excessivos em compras de forma descontrolada;
- surgimento de ataques de pânico;
- convicção nas capacidades invencíveis e excesso de confiança (na euforia);
- descuido nos hábitos de higiene, usar a mesma roupa;
- praticar uma actividade durante horas (pode ser uma actividade física como estar em frente a um computador);

Quando a pessoa opta por aguentar/ignorar o desconforto que sente, seja por não querer incomodar ninguém e mostrar a sua “parte fraca” ou por acreditar que é capaz de ultrapassar sozinha essa fase menos boa, fica irremediávelmente ferida sem se aperceber da gravidade da situação. Aquilo que acha ser determinação contra a doença é mais uma renda de filé de vulnerabilidade, tecida pela negação. A pessoa não quer pensar, sentir, viver e encarar as causas da depressão. Na verdade, quando decide pedir ajuda é para sair da crise e não para a evitar...

Segundo o psiquiatra, que orienta estas "aulas", havendo um empenhamento no tratamento ou seja, frequentar um grupo de psicoterapia ou outro grupo de apoio, avaliar com o médico um ajuste na medicação, gerir o stress em actividades que distraiam e aliviem quando se nota alguma alteração, praticar diariamente exercício físico,  não se chegará à temerosa recaída, normalmente pior que a anterior...

O plano de prevenção de recaída é como um estojo de primeiros socorros. Com os sintomas identificados pode evitar-se o que não queremos que aconteça.

Para quem quiser, este questionário existe para ajudar a identificar o que sentimos e nos parece difícil resumir.

 

Questionário de Sinais Precoces de Alerta
(adaptação e autorização, Herz and Melville, 2001)


Sinais precoces de alerta
Eu tive estas manifestações ou sintomas
A minha disposição andava aos altos e baixos
Momentos de tristeza profunda alternados com vontade para desempenhar tarefas sem falhar


Tinha imensa energia

não
Tinha pouca energia

sim
Perdi o interesse em fazer coisas

sim
Perdi o interesse na minha aparência ou em me vestir

sim
Sentia-me desanimada em relação ao futuro
Sim e com razão.
Novas  músicas que não se conseguem gravar; concertos condicionados pela situação actual de crise; paragem do projecto de  levantamento do PCI; em suma, perdas de toda a espécie
Tinha dificuldade em concentrar-me e em pensar correctamente

Tinha dificuldade na concentração. Pensar, pensava demais...
Os meus pensamentos eram tão rápidos que eu não conseguia acompanhá-los

não
Tinha medo de ficar louca

Por vezes...
Ficava desconcentrada e confusa com o que estava a acontecer à minha volta
Sim.
Sobretudo estranheza perante o “funcionamento” da sociedade e do mundo

Sentia-me distante da minha família e dos meus amigos
Sim.
Na verdade constatei que não tinha nem família nem amigos verdadeiros

Sentia-me desajustada
Sim.
Não entendia a “linguagem” dos outros perante a vida. Sentia que tinha nascido no momento errado

A religião tornou-se para mim mais importante do que antes
Este sintoma declarou-se inúmeras vezes em crises anteriores, embora    a minha vida tenha andado à volta do transcendente e de um sinal de Deus. Na crise actual o sintoma foi totalmente oposto. Cansei-me. Afastei-me de tudo. Creio que é o que se designa por crise de fé.

Temia que algo de errado estivesse para acontecer
Sim, sobretudo com a saúde dos meus filhos

Sentia que os outros tinham dificuldade em compreender o que eu dizia

Sim.
E isso transformou-se num sentimento de frustração enorme.
Sentia-me só
Sim.
Terrivelmente só e com muito medo dessa solidão.

Sentia-me incomodada por pensamentos dos quais não me conseguia livrar
Pensamentos não. MEMÓRIAS e tudo o que se relacionasse com o passado , sentindo-me profundamente infeliz e revoltada. Levantava-me e deitava-me com essa dor cravada no coração.

Sentia-me submersa em pedidos ou sentia que exigiam demasiado de mim
Nas tarefas caseiras TUDO dependia de mim. Sentia-me cansada ao ponto de descascar uma cebola ser = a uma travessia no deserto a pé e sem água

Sentia-me aborrecida
Sim.
Comigo mesma

Tinha problemas em dormir
Sim.
Trocava as noites pelos dias

Sentia-me mal sem razão aparente
Não

Achava que tinha doenças físicas
Sim.
Tudo doía...

Sentia-me tensa e nervosa
Sim, e com muita vontade de “partir” tudo.

Irritava-me facilmente pela mais pequena coisa
Desesperava por todas as coisas, pequenas e grandes

Tinha dificuldade em permanecer sentada, tinha de andar de um lado para o outro

Não
Sentia-me desanimada e sem palavras
Sim.
As palavras só aconteciam se as escrevesse.

Tinha dificuldade em lembrar-me das coisas
Sim, no que dizia respeito a coisas recentes, não do passado. Esse está bem vivo na memória

Comia menos que o habitual
Sim.
Saltava refeições e quando comia era pouco.

Ouvia vozes e via coisas que os outros não viam nem ouviam

Não
Achava que os outros olhavam para mim ou falavam de mim

Não
Tinha cada vez menos necessidade de dormir

Não
Irritava-me com facilidade

Não
Tinha um excesso de confiança em relação às minhas capacidades

Não
As minhas despesas e os meus gastos aumentaram
Sim.
Atribuía prioridades consumistas ao meu refúgio para permanecer em isolamento o melhor possível: Livros, coisas para a casa, para o bem-estar dos meus animais e das minhas plantas

Outros
Chorar compulsivamente sempre que o assunto se relacionasse com crianças ou animais, fosse em notícia, em filme ou presencial, (numa esplanada, na rua, no supermercado) independentemente de ser uma coisa má ou boa. Se fosse má era choro de injustiça e impotência; se fosse boa era um choro de comoção profunda


Ataques de pânico na rua, diminuição de actividade física, desconsideração por mim mesma (julgamentos, culpas, com enfoque para todas as minhas imperfeições)



A primeira sessão de psicoterapia aconteceu depois de uma manhã um tanto difícil. Por vezes, queremos o silêncio onde não o há e uma voz, como a de uma das doentes, que compulsivamente vai enchendo a sala, a copa e o corredor, pode ser a gota de água. Preciso de silêncio, de não ouvir nada ou o menos possível.

A psicóloga acha-me ainda muito deprimida apesar da medicação e do internamento de mais de 15 dias, mas acredita que este trabalho é necessário para me ajudar a criar outra perspectiva de vida e uma nova forma de me olhar.
Falar do que vivi não vai ser fácil por ter sido muito e intenso. Houve alguém que me disse em tempos que gostava de fazer um filme sobre a minha vida porque matéria não faltava, nem tempos mortos. Pois não. Alguns aconteceram contra a minha vontade, outros porque  permiti mas, no todo quase surreal da minha sobrevivência, o nível de dor ultrapassou os limites. E há muito tempo que vivo assim. Sei que preciso de abrir cada ferida para a cura. Não aguento mais viver neste estado onde nada cabe, onde tudo é sofrimento e eu uma merda.


O internamento é um mundo à parte onde sentimos uma protecção que não existe cá fora. É uma rampa onde iniciamos passo a passo o treino para voltarmos à realidade, mais preparadas e fortalecidas.
A dúvida que me ronda é que passemos por outros episódios mascarados de incompreensão, desconhecimento, ilusão, fingimento, desprezo, esquecimento, e desconsideração de quem não sente empatia por pessoas como nós. Quantas vão conseguir trabalho? Quantas irão encontrar uma relação que as respeite? Quantas serão avaliadas positivamente pelos maridos, filhos e família depois desta luta? Que delicadeza nos será proporcionada para não voltarmos a sofrer assim? Que credibilidade teremos para as nossas vidas prosseguirem? Mas sobre isto não falo quando conversamos em grupo. Vejo-lhes os rostos semi-abertos num vestígio de esperança e não os quero fechar com a minha descrença. 


Uma da sessões de psicomotricidade foi dada na piscina. 
Há mais de um ano que não entrava numa, desde que um ataque de pânico desconcertante ditou que não havia mais piscina para meu prazer. Não compreendi porque aconteceu, eu que adoro água e preciso dela para me equilibrar, mas conformei-me e deixei de pensar que existiam piscinas. O pânico venceu-me. 
Perguntaram-me se eu gostaria de experimentar, hesitei, mas se me acontecesse de novo teria quem cuidasse de mim. E arrisquei. Que bom ter ido.

Senti de novo o terno acolhimento da água, que me aquietou quanto à ameaça panicosa. Senti-me leve, tranquila, sem espaço para as emoções mais renitentes, as minhas pernas voltaram a ser asas, os meus braços livres de peso, e os movimentos de uma doçura infantil. 
Brincar na água é bom. Quando dava banho aos meus filhos ou quando íamos para a praia a água produzia sons felizes. O cansaço que mais tarde sentia era reconfortante e as imagens dos risos chapinhados ofereciam-me um sono feliz. A terapia finalizou com uma sessão de watsu que me fez adormecer.  Há muito que não sentia este bem-estar.
O watsu é como o shiatsu, mas na água. O relaxamento que proporciona é tão profundo que se pode descobrir um estado harmonioso até então desconhecido. Chegar a esse estado é o mesmo que encontrar uma pérola no fundo mais fundo do mar. A generosidade deste momento acompanhou-me o resto do dia.
E porque se deu início a uma actividade, horas depois, que não condizia com o meu estado de graça, fugi para uma sala onde pude ficar a ler sem ouvir nada.
Na verdade, o grupo de enfermeiros estagiários, que chegou há dois dias, está a fazer o seu melhor para nos acompanhar. Mas a ideia de formar uma tuna, com indumentária própria, ensaios de canções e execução de instrumentos é tudo o que não quero.

A enfermeira chefe, mulher com olho clínico e sensibilidade, propôs um trabalho sobre a história da cidade que me aliciou de imediato e a mais três colegas do internamento. Vai ser necessário pesquisar em livros de História e Geografia e consultar mapas da região. A M. que é perita neste departamento sobre  superfícies terrestres, propôs a requisição de cartas militares para estudarmos as linhas de água que predizem a forma como a cidade se foi formando, para além de muitos outros pormenores importantes que só as cartas militares possuem. Duas das estagiárias decidiram acompanhar-nos neste projecto, que para mim já voa alto: a realização de um mapa devidamente sinalizado com o que deixou de existir (monumentos, bairros étnicos, mesquita, sinagoga, portas, enfim, tudo o que desapareceu para dar lugar ao novo...) e colocá-lo à disposição de quem  quiser saber onde foi o quê.

Ficámos a falar sobre o assunto sem dar conta do tempo. É necessário ir aos núcleos museológicos, à biblioteca, ao turismo, aos monumentos, caminhar um pouco pela cidade com o apoio das enfermeiras, claro. Isto revela motivação no meio da inércia que a depressão provoca e isto só foi possível porque há profissionais que percebem a necessidade de cada doente. Se para algumas a cantoria é terapêutica, para outras é uma tortura. 
E eu não tenho vontade nenhuma de cantar. Nenhuma.

 

Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

Carta com resposta possível


T,
 
Melhor que ninguém sabias de que eu era  feita e de toda a dor que carregava.
Tu é que me disseste que eu era a cantora mais magoada que conhecias sobre um caminho de pedras. 
Vivia e tentava ainda ser sobre uma linha imaginária mais frágil que um cristal.
 
A dor é tudo e está em tudo. A dor de ter nascido e a dor de ter que morrer.
A dor de não ter havido ninguém que entendesse por que a minha alma  lutava.
A dor da minha arte ser julgada  pelas emoções que sentia.
A dor da minha música ser tão mal querida pelos que decidiram da sua sorte.
A dor que outros (e foram tantos) me ofereceram para se juntar à minha.
A dor de não poder fazer mais nada contra os que preferiram que eu continuasse sob a dor.
 
Tu sabias melhor que ninguém.
Tu sabias que eu tinha saltado para cima de um ramo quebrado e lá permaneci à espera. Esperei por todos os que me abandonaram. Tu inclusive.
E tu sabias de que eu era feita. De dor.
 
 
Não existiu amor nos que me fizeram sofrer. 
Em mim existiu dor, vingança e raiva e mais dor, por causa da falta que o amor me fez.
 
Não há Deus. Não há orações que valham a pena. E se as dizes ao teu Deus, no caso de existir, ele não consegue mais do que aguardar impassível pelo meu fim, porque fui um esboço mal feito, um plano que lhe correu mal.
 
Não vejo mais nada em ninguém. Nem camadas, nem superfície. Nada é nítido nem fiável.
 
Tu escolheste um caminho, deixaste-me suspensa no frágil ramo que se partiu de vez, depois de eu ter dado o que tinha. E eu só tinha aquilo para dar que era demasiado precioso e mais frágil do que o cristal.
 
Sim, as feridas foram muito profundas. Estão cá, em camadas e na superfície também. Nunca irão fechar. Não há cura. Não há recuperação.
A máquina mantém-nos ligados a esta coisa que se chama vida porque o temor não é capaz de acabar com tudo, nem com a vida, nem com a máquina que a faz funcionar. Há um medo de morte do que não existe mais frágil que um fino cristal.
 
A voz que começa a deixar de sentir e vai ficando menos voz até se sumir antes do tempo deixa-me, também, mais frágil que um cristal.
 
Tive muito para dar, mas não neste tempo, nem aqui, nem nunca. Nasci assim, para divertimento das musas - como lhes chamas - e de uns quantos seres terrenos que não percebem que lidam com  uma  imperfeição maior, a que pertencem também, que faz os cristais, apesar do brilho, frágeis e irrecuperáveis. Um cristal  partido não tem valor nenhum. Deita-se fora e substitui-se por outra matéria resistente  que faça de quem a manuseia uma pessoa de sucesso.
 
A solidão também escolhe a dedo quem lhe pertence e quem está dispensado.
Eu pertenci-lhe mesmo quando lhe fugi. Agora tem-me a tempo inteiro e escava um subterrâneo diferente do teu, onde não há água nem salvação. Somente mais solidão e breu. Para sempre.
 
 Pouco sou para sentir qualquer esperança com as tuas palavras.
 
A minha cabeça acompanha a voz.
O fio de voz fala com o pouco que a cabeça já aguenta. Ambas estão quase extintas.
 
Mas obrigada pela tentativa.
 
 

(resposta ao mail do  TTS)

 

Domingo, 12 de Maio de 2013

A origem das coisas

Nunca é fácil olharmos para trás.
Tudo possui a dimensão aterradora de uma casa grande prestes a desabar.
No seu interior encontram-se vestígios de objectos que a fizeram bonita junto dos pedaços espalhados que pensamos ainda poder recuperar.

Este fim de semana tenho andado à volta disso e não consigo fugir mais.

Eu tinha 14 anos quando Abril chegou. Até à altura vivia sob uma fachada familiar com que nunca  me identifiquei. A memória da minha tia/mãe que me criou era maior que qualquer pose que me diziam para assumir dali para a frente. Ela era amor, era perfume, era uma luz que se tinha apagado para sempre da minha vida.

As instruções e recriminações eram invariavelmente repetidas pelos motivos que achavam ser realmente importantes: "não nos envergonhes", "o que dirão os vizinhos", "o nome da nossa família vai ficar queimado", "o que é que te falta"? "dá-te por muito contente", "os filhos dos outros não são assim", e esse tipo de coisas que as pessoas dos cursos de cristandade, dos jantares de casais e retiros espirituais modelavam internamente para que do exterior se tomassem como exemplo e que tudo estava bem. Mas não estava.

Fui o caso típico da orfã que é "adoptada" por pessoas que não tinham a mínima habilidade para se adaptar a uma reviravolta da vida. Eu era a nova situação que nunca haviam esperado.

Tive um pai nervoso e explosivo.
Uma mãe egocêntrica e cheia de fobias.
Uns irmãos ausentes.

Havia a Maria, a "criada", que me dava colo e brincava comigo, mas a maior parte do tempo passava-o sozinha no meu quarto com as minhas 13 bonecas porque ela tinha uma casa para cuidar. Lembro-me das vezes que me dava colo onde eu me  aconchegava aliviada enquanto ela passava a ferro.

A insegurança cresceu ao mesmo tempo que os meus dentes definitivos derrubavam os de leite e um profundo sentimento de inadaptação instalou-se daí para a frente.

Os motivos porque fui deixada ao cuidado da minha tia/mãe foram sempre ditos em forma de lamento que nunca senti sincero. Seja o que lhes tenha passado pela cabeça, deixaram-me com 1 mês, durante quatro anos, na casa dos avós maternos. Não me sentia obrigada a aceitá-los como eles queriam depois de ter perdido os melhores anos (curtos) da minha vida e de perceber que a minha chegada lhes tinha vindo complicar a vida.

Não gostava da casa, não gostava deles, não gostava do que me diziam, e do que me fizeram.

Gostava de ter podido aproximar-me mais do meu pai, que ele fosse o meu verdadeiro protector, mas normalmente era utilizado para ser o leão que rugia e metia medo. Durante muito tempo tive medo das suas reacções intempestivas que faziam tremer a casa, o meu quarto, a minha fragilidade de criança. Contudo, procurava sempre a sua aprovação, achava-o admiravelmente inteligente e culto, muito amável com as outras pessoas, um homem que voou durante anos pelos céus e que por isso achava estar mais perto daquela que me tinha sido levada.

A mãe nunca sujava as mãos, pose de senhora de família que nunca grita, nunca perde a compostura, que se queixa em surdina e instiga por trás sabendo que isso vai desencadear um episódio de grande irritação no pai, que passa uma imagem afável que toda a gente aprecia, que conta as estórias à sua maneira apagando sempre as suas injustiças e salvando a reputação de mãe preocupada e atenta, que a sua veia dramática proclama em público desejar dar a vida pelos filhos.

Os meus medos cresceram com o que me dizia, a minha insegurança com o que me incutia e mais tarde  veio a revolta por nunca a ter sentido verdadeiramente como mãe.

Estás a saltar à corda dessa maneira? Vais morrer. O teu coração vai cair nos pés.
Estás sem chapéu na cabeça? Vais morrer por causa do sol e da meningite. Mãe, mas eu não quero morrer. E chorava perdida de medo. Passadas umas horas deste episódio na praia (teria uns 5 anos)  fui ter com ela e perguntei-lhe: E agora? Vou morrer? Ainda vou morrer? Ela olhou-me de sobrancelha levantada e respondeu secamente. Não sei. 
Nunca mais gostei da praia, das férias, das estadias na Figueira da Foz, das toilettes que ela envergava à noite para festejar a vida no casino peninsular.

Depois deram-se conta de que eu cantava bem e sabia todas a músicas que passavam na rádio. Ela, sobretudo, achava graça por eu subir pequenina a um banco e cantar com um microfone imaginário nas mãos porque os  vizinhos vinham de seguida elogiar a voz e o dom. Ela aproveitava para divulgar que o seu grande sonho era ter sido cantora, mas os pais nunca a deixaram por não ser uma  profissão  de uma menina de boas famílias. Professora ainda vá que não vá, mas cantora nunca. Assim, dizia, revia-se em mim. E não faltou muito para eu ser inscrita nos festivais que o casino da Figueira da Foz organizava para os mais pequenos.
 
Calças estes sapatos, já disse. Mas eu não quero, fazem-me doer os pés. Vais cantar ao casino com estes sapatos, são bonitos. Além disso fazem-te o pé mais pequeno.
Passei a ir forçada e com medo de me enganar nas letras.
 
Estás outra vez doente, não é? Claro, não ouves o que eu te digo.
E enquanto as minhas anginas me atacavam todos os meses e os febrões levavam o médico lá a casa munido de uma caixa de seringas, o rol das indicações que eu não tomara em conta desfilava pelo quarto. 
Estou a vê-la junto à porta, eu deitada na cama de ferro, ela afastada, irritada por eu estar doente, sem lhe apetecer contar uma estória ou fazer-me uma festa, sem paciência para lidar com aquela parte que não gostava porque  sofria de  hipocondrismo, e era a Maria com os seus caldos e a sua maneira beirã de falar que me entretinha como podia  apaziguando o meu medo de morrer.

Passava as noites com pesadelos, não queria dormir, o medo dominava-me e como ela dizia às amigas que lhe perguntavam por mim, eu era uma criança olheirenta, magrita e amarelada com muita imaginação.

Aos 14 anos tornei-me rebelde, como ela gosta de frisar. 
Foi do 25 de Abril e de se ter juntado aos comunistas - declara -   Nunca mais foi a mesma. Até ali era uma criança sossegadita, obediente, mas depois mudou e fez o que quis. Não compreendo. Teve uma infância feliz.
E nesse confronto de personalidades, a dela mais protegida pelo apoio incondicional do seu marido, pelo coro dos outros filhos que me viam como a intrusa mal agradecida e responsável pelos achaques vários da mãe, é-me dito a sangue frio:  Tu nem eras para ter nascido! -  passando à explicação de algumas formas mal sucedidas de me abortar.

Agora compreendia tudo. Ter sido deixada no Porto, a irritação permanente, a impaciência, a falta de colo. A minha intuição não me enganara e eu tinha muitas razões para sentir esta infelicidade interior de abandono, o medo da morte omnipresente, a insegurança por me sentir diferente dos outros, o início da primeira depressão.

Estava com 16 anos. O primeiro relacionamento falhado depois de 1 ano de namoro e um casamento de 4 meses... a revolução em curso, ideais partilhados, um amor que mudou da noite para o dia por conta do álcool que ele não aguentava, a violência doméstica a que fui sujeita entre quatro paredes, a fuga inevitável para a casa paterna, único sítio possível de abrigo, com o resto da família a achar que eu tinha endoidecido por ter virado comunista, o marido que vem atrás de mim reclamar aquilo a que tem direito: voltar com ele para a luta. A tareia que levei por me ter recusado a segui-lo mesmo na sala ao lado onde pai e mãe se encontravam. A constatação que ninguém se levantou para me ajudar a impedir aquela humilhação. A minha irmã em avançado estado de gravidez interpondo-se, finalmente, entre os murros do Jorge e o meu  corpo enrolado no chão. O silêncio que se fez depois disso. A minha ida ao hospital e o meu primeiro tratamento com o Dr. Allen Gomes.

O Jorge ficou sempre amigo dos meus pais e dos meus irmãos. Meses depois até me foi dito que  era boa pessoa e que se calhar até teve razões para fazer o que fez... quando vinha de Castelo Branco visitava-os, e perante a minha incredulidade a mãe justificava : ele  nunca me fez mal nenhum, porque havia deixar de lhe falar? Não podes ser assim...

Não pude ser nem ter mais nada. Comecei a procurar uma forma de me salvar.
Um dia, disse-lhes, vou ter a minha verdadeira família e ser feliz.

Eu ao colo da minha adorada tia/mãe Zira, ao lado a  minha tia e madrinha Maria de Nazaré, a mãe junto do pai, e os meus avós Júlia e Acácio Sobral atrás
     

Sábado, 11 de Maio de 2013

Duas semanas depois

Estes dias têm sido de alívio por um lado e de constrangimento por outro. 
Alívio porque no sítio onde estou sinto-me igual a quem está mal como eu. Constatar que a depressão não escolhe sexo nem idades é, de certo modo, um consolo egoísta que não me faz sentir tão sozinha, mas simultâneamente assustador pelo que esta doença realça em cada uma de nós.


Vejo diferenças nas atitudes individuais não só devidas à medicação tomada, mas também pelo que está na origem de cada situação. Inexpressivas, compulsivas, ansiosas, ausentes. Não há semelhanças entre ninguém, apesar da vulnerabilidade biológica ser o factor comum despoletado por diversas causas que cada uma carrega.
 

Temos aprendido nas sessões semanais de psicoeducação, que o factor biológico e o stress são o ponto de partida para o que sentimos. Eu não sei se é bem assim. Não sei se é o corpo que se zanga comigo ou se é a minha emotividade que decide boicotar-lhe o desempenho. Há uma dor que não é explicável e que nenhuma célula em seu perfeito juízo arriscaria experienciar comprometendo o resto do complexo funcionamento do seu grupo neste todo que é o corpo. Acredito que temos dois tipos de cérebro e que o emotivo anula o racional em determinadas alturas. Podemos ter um QI espantoso que não serve de nada se confrontado por um QE deficitário, mas ganhador no combate interno.
 

Um dos realces destas sessões é a de que a medicação é necessária para corrigir as alterações do funcionamento do cérebro, reduzir a tendência à doença e melhorar a tal vulnerabilidade biológica. 
 

Foi-nos ensinado que os ansiolíticos (calmante que reduz a intensidade de um ataque de pânico) e os hipnóticos (outro ansiolítico que induz o sono mais rápido e anula de imediato a ansiedade) causam dependência; os antidepressivos (para a ansiedade e humor depressivo) não a causam, mas têm outros efeitos.


Sobre estas duas substâncias, que conheço bem, confirmo que em tempos vivi a terrível experiência de desabituação do Bialzepam, e acrescento que o Effexor levou meses a ser retirado definitivamente do meu tratamento devido aos efeitos de carência, mesmo quando tomado em doses mínimas. Desde choques eléctricos na cabeça e corpo, passando por tonturas e náuseas, senti  todo o seu lado medonho.

Tenho alguma relutância em aceitar esta coisa da medicação. Não combina com o que sou. Nunca tolerei drogas, detestei-as desde sempre e nunca achei que pudessem fazer algo de bom por nós. Assisti a muitos exemplos ao longo da vida, estórias tristes de pessoas que se deixaram manusear pensando que controlavam o que faziam. 

Ganhei-lhes ódio, às drogas, porque as vi vencer o amor, a família, a própria vida de quem as consumia. Debato-me constantemente com esta contradição, a de precisar de tomar drogas para me tratar. São outras, eu sei, mas se sabemos os efeitos causados pela heroína, cocaína, extasy, crak e por aí fora, não sabemos, com toda a honestidade, os que estão escondidos em cada cápsula ou drageia que nos é receitada. Os laboratórios não contam tudo e desconhecem, na verdade,  o que um medicamento pode fazer a longo prazo.


Algumas das internadas tomam estabilizadores de humor entre os quais alguns antiepilépticos para reduzir a tendência de suicídio e manter o humor estável.
Há uns 20 anos um psiquiatra irresponsável receitou-me um destes – Tegretol – que eu tomava sem nunca me sentir melhor e, apesar das minhas queixas, nunca ligou para o meu estado que se ia agravando, antes pelo contrário, aumentava a dose e dizia que era normal...

Suspeitando que algo se passava de muito mau procurei outro psiquiatra que ao deparar-se com o meu mal psicológico – depressão e sem qualquer tendência suicida - se indignou com o que me tinha sido feito. O “desmame” foi muito doloroso, quase que enlouqueci, passei muito tempo para me limpar do veneno que me tinha sido dado e recuperar da minha magreza extrema. Durante muito tempo não desisti de lhe mover um processo, mas fui sendo aconselhada para não o fazer, que ia ser um escândalo, que o dito era amigo de amigos comuns, que iria ser muito bem defendido, para esquecer e passar à frente. De facto fi-lo, o desgaste contribuiu em muito para não denunciar a incompetência que me colocou em risco, mas o raivoso não se coibiu de contar em público assuntos que haviam sido falados nas sessões. E odiei-o por todo o mal que me fez. Uma das marcas que ficou foi a da minha memória nunca mais ter sido a mesma.

 
Outras internadas tomam antipsicóticos para a ansiedade, desassossego, insónias e depressão. A visualização do sofrimento é um emaranhado de emoções com diversas origens. Chega a ser esmagador olhar e sentir o peso da cruz que cada uma carrega quando mal podemos com a nossa.

Sinto constrangimento porque não sei interagir nas actividades de grupo e nem tenho vontade de falar com ninguém, não por serem quem são ou sentirem o que sentem, simplesmente porque já me desabituei de comunicar. Ficamos ilhas perdidas em pensamentos que não são os mesmos. 

A L. tem um problema com os vizinhos, vive atormentada com os julgamentos sussurrados entre eles e o desejo de a verem dali para fora ; a V. sobrevive na agonia de não poder ajudar na doença do marido. Ela queria ter muito dinheiro para lhe comprar um rim novo que o deixasse ser o homem que foi; a P. procura o sossego do quarto às escuras para se proteger dos que lhe tiraram a profissão; a M. era uma mulher independente e resoluta até ao primeiro ataque de pânico que seguido de muitos outros a deixou incapaz de prosseguir com a sua vida promissora; a J. não ficou mais a mesma depois de uma gravidez psicológica que lhe custou um divórcio; a A. passou pelo trauma de ficar sem as filhas por estar doente e de cada vez que vê o ex-marido sente-se mal, tão mal que a sua ansiedade dispara para níveis extremos; a H. fica bloqueada pelos sintomas de todas as doenças que imagina ter. Refugia-se na cama e não quer saber do mundo.

A depressão é uma doença que nos deixa muito sozinhas. No início precisamos desesperadamente que nos oiçam, depois percebemos que todos se afastam por não saber o que dizer ou fazer. Acabamos por saber só estar mal connosco e criamos esse vínculo com a doença. Se vêm com perguntas ou esboços de conversas a meio desta hibernação forçada é muito difícil sairmos da concha. É o que se passa comigo. Nas actividades de grupo quase não reajo. Jogos para trabalhar a memória e reaprender competências no contacto com os outros são extremamente desanimadores e penosos. Fico cansada e com uma vontade maior de recolhimento.
 
É preciso aprender tudo, principalmente remover obstáculos e desmontar o pensamento automático responsável pelo medo que toma conta de nós.

São tantos os factores desencadeantes nas recaídas depressivas que é praticamente impossível de as controlar; conflitos interpessoais, problemas familiares, problemas no trabalho, dificuldades económicas, falta de descanso, desocupação, alterações na vida, parar com a medicação, instabilidade emocional, consumo de drogas, dúvidas existenciais, falta de sentido para a vida... é com isto que cada pessoa tem de lidar, é por causa disto que se cai e se fica sem nada, e é sobre isto que as nossas fracas estruturas estão instaladas.

Realmente, como defender o nosso pequeno mundo e o que desejamos que sejam os nossos dias, gerir o stress, ter uma rede de suporte com quem possamos partilhar o que sentimos, obter uma vida produtiva e organizada, prosseguirmos com os nossos planos e concretizá-los, sermos objectivos e sonhadores, como? Se tudo o que o mundo desconstruído nos permite é respirar o aterro em que vivemos?



Nota: Existe uma biblioteca no internamento que me tem valido por tudo. Nestes dias reli Como Água para Chocolate, Siddhartha e A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile.

 

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