terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Fluviografias




A minha cidade tem um rio que a atravessa. Aguarda por chuvas azuis, entra nos aquários de peixes vermelhos, sabe como são as fontes de âmbar, confunde-se com os patos reais e a garças, já encheu cântaros de barro e equilibra-se nas tarambolas.

Às vezes parece-se com o pelo macio dos gatos, outras com a sua língua áspera. Joga às pedrinhas com o vento, acolhe pétalas de todas as flores do Jardim das Rosas. Também conhece a lama e os pedaços de pão que deitam aos patos e peixes. Deixa-se deslizar sob cisnes numa marcha nupcial e recebe os olhares vagos e aquosos dos que aguardam um sinal do tempo.

Às vezes enche-se grávido dos reflexos da lua. Carrega em silêncio a idade da terra. Não extravasa indiscreto, embora os raios cintilantes do sol o deixem com vontade de exuberâncias. Brinca ao longo das margens com sílfides conhecidas, traz pedaços de contos de mouras encantadas.



Ondula com humor sob os cabelos dos chorões que se debruçam com um suspiro arrastado. Chapinha com as asas dos pássaros, aprende canções com as raízes das árvores. Cruza-se com o plástico, atrasa-se à volta das manchas oleosas, planeia um abaixo-assinado, perde tempo… lentamente recupera os gestos, o olhar azul esverdeado trepa pelos ramos e espreita pelas janelas da antiga pensão.

Homens e mulheres atravessam pequenas pontes, passos sobre o soalho de madeira, um chapéu no chão, um bilhete escrito à pressa, relógios sem corda, uma jarra de água, um fio de prata.

Aceita-me como sou. O rio aceita. O princípio e o fim. Mastiga a paisagem com prazer. Sabe-lhe bem a terra lavada e macia. É difícil saber se se dissolve na sua pele porque ganha gestos de abraços que logo se desfazem nos açudes. Leva lavando a areia que já foi pedra, é um escultor febril, viciado nos olhos de Camille.

Adora estórias que ficam escavadas nas margens. Vive com intensidade as paixões de outros rios. Fervilha de ideias que ascendem em gotas absolutas na mesosfera. Gotas que formam corpos de nuvens espessas e se precipitam, com fome, sobre a terra dobrada em roupas íntimas vestidas do avesso. Um homem come a maçã, uma mulher lê o livro, o que resta incomoda-os de tédio.
 
 
 
O rio fecunda a cidade. Abre portas a horizontes que cheiram a tília e incenso. Resguarda-nos das arestas das feridas e do torpor inútil das ressacas. Pode ficar debaixo dos lençóis por uns tempos, parado, pode cercar uma ilha prestes a explodir, desactiva o alarme da entrada, engole espadas cor-de-rosa, limpa a inquietação depositada em palácios, lava escadas da preguiça, corre com o mofo das bancas de cozinha.

Este rio sabe dos cães adoptados, abre-se às mãos que afagam promessas granuladas, sem correntes, dilui o medo negro e denso, dá-se às mulheres que regressam do mar, não teme os homens que calculam geometrias. O rio da minha cidade atravessa latitudes, contorna relevos, assiste aos desastres naturais, preenche falhas calcárias e, à custa de se pintar no mapa, fotografa o detalhe da cor. Junta-se a outros rios invencível e paciente. Parte e retorna. Nunca nos deixa sós.



Os acordes são fáceis, podemos ensaiar depois da escola, cantamos a duas vozes. Pensei em chamar-nos Girls ou Love Peace & Tears. Pedimos aos nossos irmãos para ajudarem com o inglês. Passas por tua casa e trazes a guitarra, assim são duas, como as vozes. Tenho que ir dar folhas de nogueira aos bichos-da-seda... a minha mãe nem sonha que estão no meu quarto.



*
Música – Circle Game, Joni Mitchell (Ladies of the Canyon, 1970)

8 comentários:

  1. Acabei de me fundir com as àguas.
    Algures,submerso,
    um segredo mítico.

    (O Rio sorriu!)

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  2. Boa noite, Né. Boa noite, XII.
    Este texto — isto é, esta «fluviografia» — «nunca nos deixa sós».
    Enquanto o/a lia e relia, seguiam-me «os olhos de Camille [Claudel]»: revi-me naqueles que «[a]guardam um sinal do tempo» («esse grande escultor», acrescentaria Yourcenar — e Rodin decerto concordaria).
    Ora, o Almonda desagua no Tejo, que «é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / mas não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia», como diria Alberto Caeiro, guardador de rebanhos.
    Aqui mesmo ao lado, a contemplar-nos directamente da clarabóia com vista para o firmamento, está Joni Mitchell, ao vivo no ano em que eu nasci [*]:

    «And the seasons they go round and round
    And the painted ponies go up and down
    We’re captive on the carousel of time
    We can’t return we can only look
    Behind from where we came
    And go round and round and round
    In the circle game».

    ______
    [*] http://www.youtube.com/watch?v=6XOV34vsjfg

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  3. ( Boa noite Helder!
    Pessoa é uma optima companhia para passear junto ao Rio! Normalmente encontramos pelo caminho,além do Alberto,o Álvaro,o Bernardo e o Ricardo,todos de mochila inquieta e a transbordar de emoções!
    São caminhadas sem fim cruzadas. ;)

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  4. (A Maria,também vai passar a vir! ;))

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  5. Igualmente boa noite para a Maria (ortónima e/ou heterónima), XII.

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  6. A Maria já lá está Doziinho! eheheheh mochila sempre!
    Lindo Hélder, essa música foi muito tocada no meu quarto com janela para o jardim :)) e claro o rio do guardador, em que nos revemos, seja qual for é o mais belo.

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  7. (Parabéns pelas fotos.
    Jogo de Luz incluido. :)

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  8. Já fui agradecer ao rio, o mais belo a correr para as fotos.

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Dentro da nave

Astronomy Picture of the Day