quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Dia de Aquilino ♥♥♥


Estilizei, como não, pela necessidade de fugir à melopeia e à pouca extensão do dizer popular: mas o meu léxico é o deles; as minhas vozes ouvi-lhas. Sou mais cronista que carpinteiro de romance. Quereria até que este livro se embrulhasse num pedaço de serguilha em que eles se embrulham.

(...)

Um renascimento literário tem de volver às origens, aos clássicos e ao povo e o primeiro passo dou-o eu aqui.

Dizem que a literatura regionalista é uma especulação toda de generosidade, sem galardão de público. De acordo: não se lê com esperto e empolgante apetite; carece de nervo, de transporte intelectual, da finura estética que o gosto moderno espera de um drama da cidade. (...) Que é uma arte de contracção, suspendendo o espírito em seu voar ou entranhar-se na análise, é certo. Por aí ela peca.

A aldeia serrana, como aquela em que fui nado e baptizado e me criei são e escorreito, é assim mesmo: barulhenta, valerosa, suja, sensual, avara, honrada, com todos os sentimentos e instintos que constituíam o empedrado da comuna antiga. Ainda ali há Abraão e os santos vêm à fala com os zagais nos silenciosos montes; ali roda o velho carro visigótico nos caminhos romanos, mais velhos do que eles. É pagã, e crê em sua religiosidade toda exterior adorar o Deus de S. Tomás. Conta pelo calendário gregoriano estes terríveis dias de peste, fome e guerra, e está imersa nos nebulosos tempos do rei Vamba.

(...)

Parece-me que esta literatura, porém, é uma necessidade, corresponde a picar na nascente, renovar o veio da Língua viciado por outras línguas, corrompido pela gíria da urbe, rebater no estilo do Quinhentistas, ainda com as rebarbas dum torno, por demais mecânico e latinizador. A madre é na aldeia; ali está o puro idioma. Por aqui se salva, se não por outros predicados, a arte regionalista.

(...)

Lisboa, Outono de 1918
                                                                                        Aquilino Ribeiro

in prefácio Terras do Demo

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