terça-feira, 28 de maio de 2013

A origem das coisas (cont.)

Passados dois anos da separação surreal contada aqui e com o 1º tratamento  orientado pelo Dr. Allen Gomes, voltou-me a coragem para acrescentar algo à minha vida. 
Voltei à música e ao convívio das pessoas que dela faziam parte. Não conseguia nem queria ter nenhum relacionamento. Não, depois do amor se ter desfeito como um vaso de barro mal cozido.

Nos finais de 1977 houve um concerto na Aula Magna que reuniu três grupos distintos: a Brigada Víctor Jara, da qual fazia parte; os Trovante (que integrei de 1979 a 1980) e a Banda do Casaco (com quem viria a descobrir novos horizontes cantando em dois álbuns, No Jardim da Celeste (1981) e Também Eu (1982).

Na assistência estava alguém amigo de um dos membros da Brigada Victor Jara, que me foi apresentado no fim daquela noite memorável. Era uma pessoa simpática que convidou o grupo para uma ceia em sua casa e que durante a noite de convívio se mostrou muito espirituosa, inteligente, prestativa e muito curiosa sobre a minha pessoa.
Trocámos correspondência durante alguns meses e cada carta sua acrescentava mais pormenores quanto ao impacto que lhe tinha causado, a voz no concerto, e os sentimentos incontornáveis que surgiram daí. Talvez pela distância que me fazia sentir segura, comecei a dar atenção aos pormenores das missivas  não só pela poesia representada, como pelo gosto estético que  apresentavam. Colagens, pinturas, desenhos, tudo à volta de um enamoramento cada vez mais assumido de quem os escrevia. A isto, creio, chama-se capacidade de sedução que os meus verdes anos não sabiam reconhecer. E passei a gostar de receber essas cartas que eram enviadas dia sim dia não. Penso que o namoro começou a meio dessa correspondência. Para uma mente traumatizada como a minha, o facto de ser cortejada desta forma (distância + arte multi-poética) foi decisivo para deixar de ter tanto medo dos rapazes e acreditar, aos poucos, que poderia haver um amor mais bonito depois do fracasso do primeiro. Foi, sem dúvida,  a confirmação de uma ENORME excepção à regra do ditado popular  "não há amor como o primeiro".

Mas este sentimento, que ainda não era amor, lido ao longo dos meses, nas palavras que não falavam de deveres para com a revolução, mas sim da urgência de amar porque o mundo estava a sofrer uma enorme mudança, despertou em mim uma crença, de que algo melhor podia ser encontrado  e que o mesmo equívoco não se repetiria. Havia a experiência que tinha sido vivida e, agora, havia uma porta enorme que se abria ao que ainda não tinha acontecido.  Não achei  que fosse uma forma de recompensa pelo sofrimento  sentido, mas sim um começo verdadeiro e puro de um amor a construir. E acreditei. Acreditei em cada palavra.
Os primeiros meses da minha vivência com o Paulo foram muito felizes. Ensinou-me muitas coisas nos livros que me sugeria, nas exposições a que me levava; pensava no meu bem-estar quotidiano e eram frequentes as mensagens carinhosas espalhadas pela casa, as tertúlias que organizava para a minha integração no seu mundo, através do convívio com os seus amigos e amigas fascinantes; no estímulo de outras potencialidades que me reconhecia (foi com ele que aprendi a trabalhar na câmara escura e a descobrir-me mais intensamente no gosto pela fotografia); na loucura saudável das gargalhadas cúmplices quando descobríamos Lisboa na sua vespa e, sobretudo, no respeito que demonstrava pelo que eu era e pela minha arte.
Eu sabia que a sua paixão era maior do que aquela que eu podia sentir, mas à minha maneira eu iria reaprender o que podia ser o amor.

Os meses foram passando e começou a haver da parte de um dos principais elementos da família do Paulo, a sua mãe, um nervosismo desconfortável.  
De início não terá ligado para aquela aventura porque seria, de certeza, uma coisa de semanas, sem importância nenhuma. Depois, passou a dar mais atenção ao caso que se prolongava já há meses, e as  visitas surpresa, de observação ao objecto estranho, passaram a ser constantes. 
Não era simpática, mas não era antipática. Sentia-lhe uma frieza imposta pela distância que me demonstrava, uma superioridade que eu não sabia classificar. Acho que ela vivia apavorada que o seu filho preferido ficasse com uma namorada cantora em vez de uma namorada doutora. 
O Paulo era filho de um arquiteto e para arquiteto estava a estudar. 
As mães querem sempre o melhor para os filhos e esta dava muita importância aos títulos antes do nome.
Ao mesmo tempo sentia-se uma tensão crescente entre mãe e filho e eu suspeitava que, na minha ausência, haveria muita pressão para as coisas tomarem outro rumo.

E chegou o dia em que descobri que estava grávida. Não tinha sido planeado, mas ambos sabíamos que podia acontecer. Pelas contas o bebé nasceria em Junho ou Julho próximos e falei abertamente com o Paulo. Não sabia se ele queria ter uma família. E ele queria. Apesar de ainda  estudar, trabalhava no atelier do pai e eu trabalhava com os Trovante. Tínhamos concertos e esta era uma altura em que já não se tocava de graça. 
A chegada deste bebé era muito abençoada e eu acreditei que agora estavam criadas as condições para ter a minha família. Aquela que eu muitas vezes anunciava aos meus pais, quando me sentia ferida por eles, que iria ter e que seria a coisa mais importante da minha vida.
 A mãe do Paulo odiou a ideia e ficou contra. Por arrasto alguns dos irmãos também, com excepção do Zé Pedro, o único irmão do Paulo que sorria, e do pai João Maria que gostava verdadeiramente de mim.
Não vou contar a quantidade de situações irreais e dramáticas que se desenrolaram a partir daqui, mas ainda hoje me lembro da frase marcante da matriarca que me disse à porta de casa: “não tem o direito de ter um filho do meu filho. A única coisa sensata que deve fazer é abortar. Você já foi casada.”

Mas o Miguel veio ao mundo num belo fim de tarde de Julho suave e sem dor, uma das maiores alegrias que jamais havia experimentado, que apagou todos os contras.
 O meu menino, que passou a andar comigo para todo o lado, era a minha verdadeira paixão e, talvez por isso mesmo, a vida com o Paulo começou a deteriorar-se. A pessoa que tinha sido foi mudando, alterou o tom de voz, passou para uma frieza seca parecida com a da mãe, até chegar às acusações sem fundamento que me ofenderam muitíssimo. Vida de cantora, vida de promiscuidade, dizia. 
Não queria acreditar no que ouvia. Fazia muito esforço para desempenhar o meu papel de profissional e de mãe. Cada dia era pior que outro, por vezes quando chegava a casa depois de um ensaio ou de um concerto era recebida com copos e pratos partidos. 

E um dia, depois de estar a filmar nas Guerras do Mirandum (do Fernando Matos Silva), na Tapada de Mafra, a seguir a ter levado o Miguel para ser filmado numa cena em que lhe dava de mamar, não encontrei ninguém em casa. Pai e filho não se encontravam. Esperei. Enervei-me. Telefonei para onde calculava que estariam. Sim, era aí que estavam, mas a ameaça veio de imediato: nunca mais o vês.
Fiquei uns dias pensando que regressariam. Mas não. Caí de novo no poço. Mal conseguia falar. Encontrei apoio em alguns elementos do grupo. As semanas passaram, a depressão tomava conta de mim e reduzia o meu campo de acção e discernimento. Fui à quinta onde se encontravam. Ninguém abriu o portão. Não me deixaram entrar. Porquê, perguntava incrédula. Porquê? 

A razão assentava numa paranóia instalada na cabeça do Paulo (e desconfio de quem a provocou) que eu estava envolvida com todos os elementos dos Trovante e com todos os actores do filme. 
A pior coisa que se pode fazer a alguém é culpá-la por algo que não fez.  
Em 1979 as coisas eram muito diferentes. As influências existiam, mas os mecanismos de apoio eram quase nenhuns. E eu não sabia para onde me virar. 
A raiva tomou conta de mim. E por raiva então envolvi-me. Fui magoada e iria  magoar alguém, mesmo que me desejasse o melhor. E foi isso que aconteceu. Só conseguia sentir frustração e mais raiva. 
Mas o meu menino não vinha para mim e eu tinha de pensar em algo que mo devolvesse.

Regressei para a humilhação da casa dos meus pais. Não me lembro de ter dito uma palavra. Estava disposta a suportar o que fosse. Deixei tudo para trás. Casa, trabalho, e as coisas que me pertenciam. Queria lá saber disso para alguma coisa. A minha mãe preocupava-se com o destino do meu enxoval e das coisas que  tinha oferecido para a casa. É certo que muitas delas foram "guardadas" pelos familiares do Paulo, mas isso não me interessava para nada.

Surgiu, tempos depois, uma possibilidade remota de poder ver o meu menino e voltei a Lisboa. Era só para passear com ele no jardim da Gulbenkian, foram as instruções. Sim, eu vou para o jardim. Mas em vez disso entrei num táxi e fui para Santa Apolónia. Apanhei o foguete para Coimbra e lá chegada telefonei a avisar que de agora em diante as coisas iam mudar. Fui ameaçada de tudo. O Paulo enviava-me todo o ódio que tinha.

Apesar de estar a salvo com o meu Miguel, não estava da  inflexibilidade dos meus pais que se tornou ainda mais rígida. Não era suposto, por exemplo,   levar o Miguel a uma esplanada para conversar com amigos. O meu pai foi claro: tens cá o teu filho e de agora em diante a tua vida vai ser como a de uma freira. Só vives para ele e o resto não existe.
Estava totalmente dependente deles. Económicamente, também. Aí estava a factura de lhes ter dito que um dia seria feliz com a minha própria família. E tudo o que eu fazia ao Miguel era criticado. Se o punha no carrinho para o levar ao jardim, se lhe colocava o chapéu por causa do sol, se lhe dava de comer aquela papa, era sempre tudo mal feito.
Fiquei em Coimbra por mais uns meses até que surgiu a oportunidade de um emprego. Não me importava que fosse outra coisa que não cantar. Tinha que sustentar o meu filho e a mim. A proposta em questão era de tratar de uma casa de um jornalista do Expresso. No fundo, era limpar-lhe a casa. E decidi que ia mesmo para as limpezas.  Foi o descalabro. A minha mãe chamou-me de tudo. Mas não me importei. Tinha as malas feitas e ia viver para o meu bebé.
Levantaram-se as vozes dos amigos da família e dos irmãos. 
"A mãe não se sente bem e se lhe acontecer alguma coisa a culpa é tua".
Já na estação de Coimbra B jogaram a última cartada para me demoverem.  O enviado foi uma pessoa que eu respeitava muitíssimo e que me disse: Pelo menos deixa cá o menino. A tua mãe está a chorar muito e sente-se mal do coração. Já pensaste que vais carregar com o remorso para toda a vida se ela morrer ou ficar incapacitada? Deixa-o ficar por uns tempos e depois vens buscá-lo. Faz isso, não te precipites com a tua atitude. Depois vens buscá-lo. É por pouco tempo, até a tua mãe se habituar à ideia.
Não sei o que me deu. O comboio estava quase a chegar e eu coloquei o Miguel ao colo do Dr. Moura. Entreguei-lhe a mala com as coisinhas dele. “Não quero que aconteça nada de mal à mãe. Mas eu volto daqui a 1 semana. Não mais. E venho buscá-lo haja o que houver".

Parti para Lisboa e comecei a trabalhar. Liguei à minha irmã todos os dias para saber do meu filho e na sexta também, para combinar as horas a que chegaria a Coimbra no sábado. Ia trazê-lo de volta como estava combinado.
A minha irmã diz-me, então, com uma voz estranha:
- Não vale a pena, Né.
- O que dizes?
- Não vale a pena vires.
- Não estou a entender. Dei uma semana, uma, para ele ficar e os achaques da mãe se resolverem. Vou buscá-lo e acabou.
- Não venhas porque ele já cá não está.
Parecia que tinha levado um soco e fiquei sem perceber o que tinha ouvido.
- Não está como?
- Os pais ligaram ao Paulo e ele veio buscar o menino.
Antes de entrar em estado de choque lembro-me de ter perguntado: 
- Porquê? Porque fizeram isso?

- Os pais disseram ao Paulo que não tinham vida para isto, para tomar conta de um bebé, e que o melhor era ele vir buscá-lo o mais depressa possível.


Desta vez não regressei a Coimbra. Fiquei em Lisboa. Não fui parar a nenhum internamento. Entreguei-me à dor procurando em todas pessoas um afecto que me compensasse. Na verdade isso nunca aconteceu porque me era tirado algo mais, mas eu permitia. Andei assim meses. Foi a fase dos casos atrás de casos, mas sem me entregar nunca a nenhum deles. Fazia-o para deixar ficar um rasto de dor em todos e principalmente em mim. Era a punição de ter acreditado que podia ter a minha família e ser feliz.
Durante esse período fui convidada para cantar na Banda do Casaco. Gravámos No Jardim da Celeste que foi o éden à margem da minha autodestruição. Em Argila de Luz senti que era eu. O António Avelar Pinho tinha escrito uma letra que, sem saber, descrevia o estado da minha alma e do meu corpo.  
Cresci musicalmente com este trabalho, mas estava um farrapo psicológico e humano. Ninguém se apercebeu até que ponto. E quando fui informada que não valia a pena ir a tribunal para reaver o meu filho – já que tinham sido os próprios avós maternos a entregá-lo ao pai – decidi sair de Portugal.
No dia 17 de Novembro de 1981 , às 14:30, apanhei o Sudexpress com uma mochila às costas e a viola na mão. Procurava outro lugar, outra vida. 
Não fazia intenção de voltar.

3 comentários:

  1. Senti arrepios por também me chamar Paulo, mas adiante... Como o ser humano tem tão diversas e tão perturbantes facetas!...
    mas o Miguel, voltou?... não voltou?...
    (deduzo que deva esperar pelo andar da história)

    Né: um beijo com toda a simpatia,
    Paulo


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  2. Espero que tenha voltado e que tenha compreendido e perdoado tudo! Porque se a Né tem "sinais" de dor, o Miguel infelizmente também os terá.... e tudo culpa de uma só pessoa, que nunca devia ter sido mãe, que talvez só tenha sido, porque os tempos eram outros, e infelizmente, muitas foram apenas para agradar a sociedade e a familia :( e com essa atitude criaram-se "falsas" familias :(
    Né, cada vez mais sinto que é uma pessoa forte, com carácter!
    Bem Haja ...

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  3. Não sei o que escrever... provavelmente, não devo escrever nada... mas não posso deixar de enviar um abraço.

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