sábado, 9 de janeiro de 2010

Memorando

Ilustração de Carla Sonheim
 
 
O jardim lá de casa era o mundo. E o mundo era tudo o que tinha. Pés descalços, minas de água, correrias desenfreadas, espionagem na copa das árvores, tendas de mantas, uma coruja a piar, uma lanterna acesa, a bola de basquete do irmão, o cão que era mesmo parecido com o Tim dos Famosos Cinco, limoeiros sumarentos, o rimel escondido da irmã, os cabelos suados para desespero das tranças, camélias em braçadas para as jarras, as fogueiras dos santos populares, o aroma permanente das violetas predilectas da mãe, o paraquedas de seda a fugir do pai, os montes sob relâmpagos, os caracóis que pernoitavam no quarto para não se molharem, a mala dos primeiros socorros porque um dia vou ser veterinária, a Adelaide com estórias de almas penadas de Sernancelhe, os paninhos de flanela com vick vaporub às primeiras tosses, o cabelo curto da mãe a ser escovado, o cabelo longo da filha sob a tortura do pente, a ovelhinha que veio da quinta e que não se matou e passou a Joaninha, as ameixas a caírem de gordas, os torneios de caricas no corredor do pátio, as músicas da Françoise Hardy, os olhares lânguidos da irmã, os passarinhos acolhidos no quarto para a cura de asas partidas, os bolos de azeite da avó Júlia, os desacordos do pai e do tio sobre o Estado Novo, a retórica final do avó Acácio quanto a Salazar, a banda de rock dos primos do Porto, as gemadas ao lanche para fortalecer, os cabelos leoninos da avó Rosa, os recados à mercearia do Sr. Canas, os pic-nics de Verão no Soito Pereiro, a caixa do Presépio com 50 figurinhas, as idas ao sótão à procura de tesouros, o pó de arroz da tia Guilhermina, o Tim que ainda não colaborava no que se lhe pedia, o cheiro da consoada de Natal, o calor de Julho em Coimbra, as almoçaradas no moinho do Pêgo Negro, as conversas em voz baixa na sala de visitas, os bigodes imponentes do bisavô Abel muitas vezes confundido com o rei D. Carlos, as tertúlias à volta da mesa de camilha, as férias contrariadas na Figueira da Foz, o peru que foi salvo a tempo de saltar para o forno, os aerogramas triste vindos do Negage, o desejo de ter asas do tamanho do céu, o sorriso doce da tia Zira, as cantorias de cima do banco, os charutos cubanos do primo Osvaldo, as viagens intermináveis para Riodades, a procissão da Nossa Senhora da Alegria, as mini-saias censuradas das primas, os homens a pisar uvas ao som da concertina, os metros de renda no alpendre, as madrinhas de guerra esperançadas, os crescidos a dançar o twist, os pequenos a conjugar o verbo ir, o terço rezado na capela às seis da tarde, o cheiro das águas termais na roupa da tia Amelita, o tacho preto das batatas assadas, a viagem de caleche da bisavó Olinda entre Ourém e S. João da Pesqueira, a minhas redacções com a letra fora das linhas, os amores de perdição do tio Adalberto, a gravidez de ar da D. Glorinha, os treze filhos de verdade da pobre Adozinda, as sestas contrariadas nos risos de vingança, o cheiro dos tonéis no lagar, os chapéus cinematográficos do tio Artur, o quarto cor-de-rosa destinado ao filho preferido, os saraus musicais que enchiam a casa, as minhas dores de crescimento, as ondas gigantes da Figueira da Foz, as papinhas de linhaça do Dr. Arruda para qualquer maleita, os sofás verdes da sala sem audiência, o desgosto da Adelaide-madrinha-de-guerra quando o Constantino morreu, a franja cortada torta, a nova vizinha da mesma idade, as treze bonecas abraçadas à cabeceira da cama, o medo escondido de adormecer, as orações ao anjo da guarda, a vontade de fugir com os ciganos, o antigo galinheiro remodelado para meu refúgio, os sapatos de verniz apertados, a falta de espaço para os meus sonhos, as calças à boca-de-sino, a primeira guitarra, a rebeldia contida, o casulo vazio, a vista para o jardim. O meu mundo que tinha tudo para mim.
 
*
Música – Primeiro dia, Sérgio Godinho (pano-cru, 1978)

17 comentários:

  1. Liindo,Maria.
    Lindo...
    Que exista sempre o espaço para que os teus sonhos possam correr com asas descalços
    e livres...

    ResponderEliminar
  2. A memória é essa claridade fictícia das sobreposições que se anulam. O significado é essa espécie de mapa das interpretações que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas. Os nossos sentimentos. A intensidade do sentir é intolerável. Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta é impacto que substitui impacto - eis a invenção.

    Ana Hatherly

    ResponderEliminar
  3. Talvez não dê para lembrar nomes de actores de filmes eleitos, mas que há memórias a passar como filmes (quando menos se espera), ai isso há!
    Bj*

    ResponderEliminar
  4. E que mundo, e que mundo!...
    Que memórias fabulosas!
    E que inveja (isto a propósito do post anterior) porque nunca vi os King Crimson! :(

    ResponderEliminar
  5. Olha o que descobri por caminhos de Gentes de Riodades!
    Remédios Caseiros
    Chás
    S. Roberto - Doenças de Estômago
    Flor de Carqueja - Doenças de Fígado, Gripes
    Chá de Cenoura - Para a Tosse
    Bolsa de Pastor - Doenças da Bexiga
    Malvas - Inflamação/ desinfecção de feridas
    Flor de Sabugueiro - Tosse e Gripe
    Cabeleira de Milho - Doenças da Bexiga
    Chá de limão - Gripe
    Folha de Marmeleiro - Soltura, Diarreia
    Coruta de Pinheiro - Bronquite
    Folha de Laranjeira - Gripe
    Alecrim - Contra a queda do cabelo, memória, insuficiência hepática e vesicular
    Folha de Hera - Para o escaldado
    Mel - Gripe e dor de olhos
    Alfazema - Asma brônquica, tosses convulsivas, gripes e resfriados, enxaquecas e reumatismo.
    Camomila - Perturbações gastrointestinais, e diarreias.
    Cidreira - Dores de cabeça de origem nervosa, enjoos e vómitos.
    Nogueira - Inflamações e infecções, tuberculoses pulmonares
    Rosmaninho - Circulação e náuseas
    Tília - Febres, doenças hepáticas e biliares.
    Oliveira - Tensão arterial

    ;))

    ResponderEliminar
  6. Por outros caminhos,
    descobri que Aquilino Ribeiro nasceu no concelho de Sernancelhe,"terras do demo".
    Tal como as estórias da Adelaide! :)

    ResponderEliminar
  7. A minha mãe serviu de "intérprete" quando li esse livro porque se há alguém que sabe aqueles regionalismos é ela!
    Muito querido teres ido procurar por Riodades. Desde 1977 que não vou lá... há sítios que precisamos evitar, principalmente onde fomos MUITO FELIZES.
    Bj*

    ResponderEliminar
  8. Se existe coisa que amo
    são estes Caminhos e Gentes que me encantam...
    Obrigada Maria,por me lembrares quem sou.
    Talvez esteja na altura de voltares a Riodades...
    Beijo *

    ResponderEliminar
  9. Muito bonito mesmo.

    Essas memórias trouxeram-me à mente outras memórias que se eu pudesse voltar atrás no tempo como tudo seria diferente.

    Roda dos Ventos

    ResponderEliminar
  10. "Impressa tenho na alma larga história
    Deste passado bem, que nunca fora;
    Ou fora, e não passara: mas já agora
    Em mim não pode haver mais que a memória."

    Luís de Camões

    ResponderEliminar
  11. Já tinha percorrido silenciosamente este magnífico "Memorando" várias vezes, Né, noutros dias. Ao relê-lo esta noite, retive duas imagens presentes passadas no nosso mundo: «os montes sob relâmpagos» e «o medo escondido de adormecer». Insone, acabo a/por olhar para Medusa...

    ResponderEliminar
  12. «...
    Amo o esplendor. Para mim o desejo
    é um sol magnificente e a beleza
    coube-me em herança.»
    (Versos de Safo vertidos por Eugénio de Andrade, 2.ª edição revista, Porto: Limiar, Abril de 1982)

    ResponderEliminar
  13. Adoro este fragmento chamado Insónia. Sapho prediz...

    Pôs-se a Lua, deitaram-se as Pléiades. Está a meio a noite e o tempo passa. E eu sozinha estou deitada.

    (fr.94D)

    ResponderEliminar
  14. Não sei o que fazer: sinto duas almas em mim....

    (fr.45 R-P)

    Psappha!

    ResponderEliminar

Dentro da nave

Astronomy Picture of the Day