sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Topázios Oblíquos


Foto da loba Morena
 
Lembras-te morena do nevoeiro cerrado que se erguia do Sabor e nós os dois escondidos nos lameiros? Ficávamos com os ossos gelados, o hálito de neve, à procura de um refúgio de trevos. Havia alturas em que o feno era um colchão tranquilo, quando o tempo do calor se amotinava, os bois teimosos, as vacas sem vontade, o amarelo sobre os pousios de cereais e eu, guerreiro e irresoluto, a exibir-me, e tu a dormir na colina, mas essas eram alturas em que a gente procurava o que quisesse no coração, desapeados de fome.
As distâncias desafiavam-nos através dos montes e dos bosques, aguardavam impacientes, desenhavam trilhos silenciosos, precisavam de ti e de mim com urgência, faziam arruaças a peito descoberto, evocavam horizontes e céus para a grande corrida. Viver era uma febre. Só os elementos entendiam a nossa infância e a luz real dos teus olhos. Os teus olhos, morena, por eles me tornei essência e infinito. O meu reino de onor e rocha não ficou isento ao acaso. Tu e eu fundidos na carne frágil. Risos e choros, silêncios e vozes de oração pelos caminhos assombrosos do meu reino. Também teu.
Apesar dos fogos insensatos que nos cercaram fomos reais no corredor da poesia. A nossa estória não se fez no abstracto, teve alegrias e suplícios, alvoroços e sequelas e, como nos poemas, girou à volta de destinos travados. O teu e o meu em um só. Vimos nascer luas irreais, sentimos no corpo a chuva desasossegada, acendemos o ar nocturno com o teu olhar incandescente, perseguimos na garupa da minha força o corço inconstante. Depois distraías-te no meio dos sardoais, mas eu não me importava. Continuava na corrida enquanto descobrias novas fragrâncias nas estevas e cravinas. Dizias que preferias esse lirismo a ter de passar por armadilhas. Quantas vezes o veneno e a matança. E o silêncio a ganhar vantagem sobre os nossos pedaços. Dizias que estávamos a perder o jeito de amanhecer e os teus olhos de topázio ficaram turvos. Fomos sobrando entre pegadas fundas na lama e ramos que nos murmuravam sons agoirentos. Eu olhava para o chão com medo de te perder. Tu fixavas os tartaranhões azuis que lembravam a eternidade percorrida.
Deste lado do cercado farejo as brisas onde te deixaste. Vigio auroras e crepúsculos, não vás precisar de mim. Oiço os teus movimentos voltear a chegada, mas o azul ainda é longe. Sinto-te pela voz que ecoa como restos de estrelas a riscar a noite escura. Às vezes penso que são os teus olhos de topázio a descer as serranias ao encontro da minha impaciência, como nas faroladas que perseguiam o nosso cansaço. Hoje sinto-me enfastiado de tanto breu. Os caminhos de volta foram apagados e o tempo esqueceu-se da minha saudade. Se eu fechar os olhos, as asas dos tartaranhões levam-me pelas arribas. Sabor índigo, lameiros de cinza, dois topázios oblíquos, uma alcateia, o céu contigo.


Morena e Sândalo vieram de Montezinho para o CRLI. Sândalo, o líder nato e muito assertivo para com os membros da alcateia, passava todo o tempo com a sua companheira fazendo rondas pelo cercado. Verificava vezes sem conta as possíveis falhas na vedação. Morena, vigorosa e muito resistente era muito feliz na companhia de Sândalo. Um dia, por questões de saúde, teve de ser retirada da alcateia e colocada noutro cercado. O uivo de ambos tornou-se profundo e longo. Inconsolável.


*
Música : Todo Este Céu, Fausto (Crónicas da Terra Ardente, 1994)




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7 comentários:

  1. «Risos e choros», «alegrias e suplícios, alvoroços e sequelas», «estevas e cravinas», «auroras e crepúsculos», «horizontes e céus».
    Chuva oblíqua, dia agónico, leitura na diagonal?
    «Hoje sinto-me enfastiado de tanto breu» — também eu.

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  2. Gosto disto na tua voz. Aliás, já o escrevi há uns tempos aqui: http://thecatscats.blogspot.com/2009/06/coisas-que-acalmam.html#links

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  3. Morena e Sândalo foram um casal uno, tenho a certeza. Partiram com pouco espaço de tempo entre eles.
    Ânimo Hélder! depois do breu há uma luz, que também existe antes dele (do breu).
    Obrigada Carlos, é um tema que gosto em particular, o misticismo do Fausto é profundo.
    Bj*

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  4. A Morena diluí-me o coração
    na alma,caramba...
    (Ai esta foto com efeitos,especiais...)

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  5. Muito obrigado, Né, pelo incentivo.
    Andamos bem necessitados de ânimo para enfrentar estes tempos difíceis.
    Pensemos, em particular, na população haitiana, que precisa urgentemente de tudo — muito, muito mais do que nós.

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  6. Todas as preces para o Haiti, Hélder e em direcção ao coração de todos os injustiçados e sofredores.

    A Morena era a minha "menina" adoptada que me abraçava. Tenho tantas saudades dela, caramba!
    Bj*

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