quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Dia de David



Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!


 in "Obra Poética"

4 comentários:

  1. O poema partilhado ("Ternura"),continua a ter em mim,um efeito avassalador...Onírico.
    Maravilhosa a escolha,Maria. :)

    David,de entre os nossos poetas modernos,o mais clássico.Sente-se perfeitamente na sua poesia as relações relacionadas dos valores da tradição e da modernidade lírica!De sentido estético rigoroso,mestre,na técnica formal.O ritmo,as rimas assonantes,a musicalidade,o domínio de figuras de estilo como a metáfora a aliteração a antítese,imprimem aos seus versos uma personalidade tipicamente Davidiana.
    Uma autêntica força criadora!
    Parabéns David!!!

    Deixa ficar comigo a madrugada,
    para que a luz do Sol me não constranja.
    Numa taça de sombra estilhaçada,
    deita sumo de lua e de laranja.

    Arranja uma pianola, um disco, um posto,
    onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
    Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
    E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

    Depois, podes partir. Só te aconselho
    que acendas, para tudo ser perfeito,
    à cabeceira a luz do teu joelho,
    entre os lençóis o lume do teu peito...

    Podes partir. De nada mais preciso
    para a minha ilusão do Paraíso.

    (Paraíso in "Infinito Pessoal")

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  2. "Nós temos cinco sentidos:
    são dois pares e meio de asas.

    - Como quereis o equilíbrio? "

    ;))

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  3. (...)Mas de plantar árvores e ter filhos haverá sempre muita gente que se encarregue. De destruir árvores também; de estragar filhos igualmente. Em compensação, um livro, um livro que viva, multiplicado, durante alguns anos ou alguns séculos, e que depois vá morrendo, sem ninguém dar por isso, mas nunca de uma só vez, até ser enterrado na maior discrição ou até se ver de súbito renascido, inesperadamente ressuscitado, um livro com semelhante destino - luminoso por mais obscuro, obscuro por mais luminoso -, isto é que foi sempre o que me empolgou.
    in 'Um Amor Feliz'

    PS- Parece que é por aqui, o equilíbrio...

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  4. Por aí sim,e por comer mel directamente dos favos... tão boommm...
    (Acredito,no Amor e uma cabana,sim.)

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