sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Nº 26 do 6º A


 
A Paula tinha chegado com a última leva de retornados num voo apinhado e perigoso que deixou Luanda sob gritos tribais. Estava a descobrir a adolescência quando aterrou no liceu José Falcão. Cabelos encaracolados, olheiras castanhas, roupa que sobrava no corpo de gazela, chegou à sala de aula olhos postos no chão. Seguia a linha irregular dos tacos em paralelo com as assimetrias do seu trajecto como as que estavam desenhadas na madeira. Percebemos que não se sentia à vontade, que não desejava  ser olhada como um bicho raro. Ninguém lhe fez a vontade. As raparigas avaliaram-lhe o título de retornada, os rapazes imaginaram-lhe o corpo de gazela na praia sem roupas nenhumas.
 
Levantou a cabeça quando a professora de físico-química tossicou antes de a apresentar aos colegas. Olhou-nos desafiadora e pronta para a guerra se fosse caso disso.
 
Atenção turma, esta colega é nova, vai frequentar o 6º A e espero que todos sejam simpáticos com ela. Paula, eu sou a tua professora e directora de turma, Dr.ª Antónia Bacelar. Exijo bom comportamento e atenção nas aulas. Apesar do que acontece lá fora, que é totalmente convosco, aqui não permito discussões partidárias.
 
Claro, pensou grande parte da turma, és do tempo da outra senhora e nem sabemos porque não foste saneada…
 
Sou professora há 45 anos e neste liceu, que já foi D. João III, ensinei muitos jovens que até agora eram masculinos, mas com isto tudo passou a misto… e o que quero frisar é que lá por estarem misturados não permito faltas de respeito. Agora vai-te sentar. Ficas ao lado da colega nº 25.
 
Sentou-se na minha secretária de dois lugares. Sorri-lhe solidária por saber o que custa ser avaliada de forma impiedosa. Já tinha passado por algo semelhante quando a mesma professora me presenteou com uma falta disciplinar, seguida de uma expulsão do laboratório de química. Ironizou à frente de todos a minha desfaçatez de levar a viola a par com os livros.
 
Suspirei. Mais uma seca de aula com fórmulas que na prática borbulham em balões volumétricos e cheiram mal. Porque não nos manda ler Gente da Terceira Classe ou os Gaibéus? A nova colega cortou-me o início do devaneio quando me tocou na mão e perguntou baixo:
 
O que é um português de 2ª?
 
Respondi-lhe que no intervalo lhe explicava, que ali não era o sítio indicado porque fosse da velha guarda ou não aquela profe era uma diaba e eu não queria ir a exame.
 
Concentremo-nos na Lei de Lavoisier m(reagentes) = m(produtos). E se quiseres podes levar o meu caderno para casa, há mais disto para estudar… - aconselhei-a.
 
O toque do intervalo vibrou igual à tensão que crescia pelas salas e corredores do José Falcão.
 
Tanta coisa para viver e nós a falar de massas que se mantêm na mesma – comentei com a nova colega.
 
Veio o burburinho do costume depois da Drª. Bacelar sair da sala, não sem antes lançar o anúncio ameaçador de um teste dali a 3 dias.
 
Vi a Paula encaminhar-se para o átrio onde iria haver, por certo, mais um confronto entre MRPP’s e UEC’s. Os FEC-ML iriam juntar-se a outros maoístas e aos extremistas do costume e nós, os sociais- fascistas, levaríamos a triplicar… Mas as verdadeiras massas necessitam de mudança, de reformas, de nacionalizações e para isso é preciso esclarecer os indecisos do átrio… mas… onde se meteu a miúda? Queria falar-lhe destes assuntos do nosso liceu porque era possível que fosse apanhada no meio da ocorrência e levar dos dois lados, mais a mais sendo retornada...
 
Como lhe iria explicar que um português de 2ª é não importa quem desde que tenha vindo de África? Que é obrigatório serem todos reaccionários e exploradores de pretos e que mesmo as miúdas mulatas com corpo de gazela não vão ficar isentas desse crime?

Lágrima de Preta, Adriano Correia de Oliveira (Gente de Aqui e de Agora, 1971)

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