sábado, 19 de junho de 2010

Amuleto




O ar gelado e o vento que vem de norte encontram-me no centro da cidade. Este é o dia em que a terra parou assim que me alheei do medo e procurei pela rapariga dos lagos de gelo. Tenho-a na memória desde sempre, um grande pedaço de paisagem em celulóide, rosto pálido, ar convalescente, descendo a colina como um pássaro estival sob o céu nu e parado. Para recuperar o fôlego agarra o amuleto que traz ao peito e invoca a palavra miraculosa. Sem voz dá voz a encontros silenciosos. Podemos ser como ela. Acreditamos que é todas as raparigas escondidas na mulher fatal e angustiada que descansa depois da descida. Conseguirá escapar? Tornar-se corsária de exílios e encontros de toda a espécie?

Alguém lhe disse que o amor é um amuleto, que a protegeria dos grandes espaços e do esquecimento. Traz vários ao peito, um colar com muitas voltas, pedras de canções e de filmes em formatos diferentes, um pouco pesado, dizem, mas ela gosta de se enfeitar com eles. Esta rapariga tem uma alma muito vivida e parece mais velha do que é. Começou por vender chapéus convencendo qualquer um que lhe assentavam bem. Era tão persuasora que foram espalhadas fotografias por todo o país - uma alma assim permanece pouco tempo no mesmo lugar – porque muita gente dependia das vendas de mais chapéus.

Olhei para o centro da cidade sem almas possivelmente adormecidas pelas altas horas da noite e reparo que o modesto T3 sem água quente, da Blekingegatan, fora demolido. Tiro uma fotografia ao Greta's Krog Bistro a pensar que as casas importantes não têm qualquer pretensão de um dia, num momento qualquer, desaparecerem na incerteza de terem sido habitadas.

Ninguém abraça a rapariga do filme, ninguém lhe pergunta se a vida lhe corre bem, se precisa de companhia ou de comprimidos para dormir. Aplaudiram-na na altura, há muito tempo, ofereceram-se para a acompanhar até à esquina e beijaram-na como se beija uma rainha. Mas porque os dias se tornaram como os outros dias, todos iguais, acabando por morrer, deixaram de aparecer e de pensar nela. Decidiu, então, sair de Blekingegatan e desfez-se de chapéus, da espuma de barbear, dos bolos de pastelaria e dos sapatos de domingo. Mudou-se para as traseiras do teatro Moseback onde ficava, horas a fio, a espreitar pela porta dos artistas.

 
Quando se apagava a última luz da rua olhava os veleiros que se dirigiam para o Báltico. De lá atiravam-lhe velhas canções de marinheiros que ela apanhava com a voz suave, a voz inaudível de todos os imaginários, aguardando por uma resposta. Isso nunca aconteceu. Não há respostas para almas impronunciáveis e fugidias que chegam num dia, partem no outro e arrasam triunfos insignificantes.

Animada por uma direcção aleatória a rapariga decidiu escrever uma página da sua vida. Sentiu necessidade de o fazer pela chama que se acendia numa alegria vagarosa. Alhear-se das imagens a que se acostumara, fora da estrada amarga. Nos subúrbios de Odengaten compreendi a rapariga resplandecente. Recolhera-se na meia-luz subterrânea com o telefone desligado e sem campainha na porta. Construíra o isolamento possível para as memórias tombarem da mesma forma que a neve solene se desprende dos telhados da cidade.

Acendeu-se um semáforo vermelho neste quase fim de tour em frente ao Dramaten Teatern. A mulher fatal acabou de entrar no palco onde encarnará uma mulher da rua em Den osynlige*. Passou a achar divertidos os papéis tristes que representava. No início sentia-se relutante, tinha dificuldade em dormir a pensar que atraía mágoas a mais. Depois experimentou despi-las como vestidos de noiva e lavava-as com paciência noite após noite. Inclinava-se para o público com o rosto irisado de maquilhagem, murmurando tack tack… här är underbart…Jag förtjänar inte**…

Amavam-na naqueles momentos, amavam a sua beleza quer fosse falsa ou sincera. Foi assim que se tornou mito e lenda. Um dia quando tudo corria bem, colocou o amuleto guardado e caminhou na imensidão boreal. Descobriu pela primeira vez de que era feita e decidiu nunca mais voltar.


ao som de Sweetheart, Marianne Faithful (Dangerous Acquaintances -1981)

*
Peça de Pär Lagerkvist, representada por Greta Garbo em Outubro de 1924

**
Obrigada…obrigada… isto é maravilhoso… eu não mereço…

2 comentários:

  1. Consegues de tal forma transmitir a intensidade dos desencantos da vida,que me apetece tremendamente abraçar Garbo...
    É a verdade do que sinto. Beijo

    (Qual é a palavra miraculosa?...)

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  2. É uma palavra impronunciável, tal como a sua alma fugidia...
    Há desencantos que se sentem por simpatia colocam-nos quase na intensidade de quem os viveu, ou será que também são nossos?
    Bj*

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