Depois do ciclo completo de sessões,
sobre o nosso transtorno psicológico e seu tratamento, ficou-se com
uma ideia da situação que cada doente enfrenta.
Não quer dizer que consigamos
seguir a par e passo - e neste ponto falo exclusivamente por mim e
das incapacidades ainda existentes – mas reconheço que as horas
que passámos durante este mês de internamento, com o psiquiatra
João da Cruz, foram importantes para confirmar que há uma
psiquiatria que dialoga e explica as nossas dúvidas e temores.
Continuo a não aceitar cegamente a
terapia da medicação. Acredito que no início de uma depressão
sejam necessárias algumas “drogas” para os níveis de ansiedade
descerem e o descanso cerebral ser reposto mas, atingido esse
propósito, outras formas devem ser aplicadas na reabilitação do
doente.
Não falo em cura porque,
sinceramente, acho que é uma doença crónica. Falo numa
“desintoxicação” de emoções negativas e falta de perspectivas
de vida que podem ser revertidas. Isso a medicação não faz. Não
limpa a nódoa deixada pela dor. Não arranca a raiz dos problemas e
dos traumas que a causaram. Adormece-os por uns tempos, o tempo que se
consegue aguentar sem dor, até novo embate por essas experiências vividas. E embora, depois destas sessões, os sintomas precoces de alerta tenham ficado mais fáceis de
identificar bem como o respectivo plano de prevenção de recaídas, na minha opinião nada impede que um novo mergulho na
escuridão depressiva suceda.
As tácticas de distracção anti-angústia não deixam de ser válidas – dar uma caminhada, ler um livro, falar com alguém, ter um hobbie – mas depende em muito do quanto ela pesa e dos fantasmas que a empurram para nos subjugar. Depende de nós e dos outros.
Eu queria enfrentar esses monstros que convivem comigo já há demasiado tempo. Perceber o porquê de tantas escolhas mal feitas, de tanto complexo de culpa, de tanto falhanço com os outros, de padrões que me levaram a repetir a credulidade de ser aceite e amada sem, no entanto, o conseguir, o porquê de não ter tido uma família, o porquê de caminhar para o precipício sem ver onde ponho os pés, o estar quase a chegar a algo feliz e tudo se desfazer, o porquê de tanta escuridão na minha busca pela luz.
Lamento que os profissionais
especializados na regressão e hipnoterapia não pratiquem nos
hospitais. Também isto é um negócio... e a forma de seleccionar os
que podem e os que não podem, por questões monetárias, encontrar uma
cura ou repetir internamentos, é profundamente injusto.
Olho para cada uma das internadas e
sei que todas têm um imenso desejo de viver, uma capacidade
extraordinária de amar a vida que a maioria não entende e, por
isso, rotula levianamente.
Quando alguém tenta o suicídio, por exemplo, as “vozes sãs” da sociedade consideram a maior das fraquezas e cobardias. Eu não acho.
Quem ama desta forma incomensurável
não encaixa a dor que lhe está proporcionalmente relacionada. São
seres raros, de enorme coração, logo extraordinariamente indefesos
mediante uma palavra, uma atitude, um golpe de maldade dado por
outrem. Esta fragilidade é confundida, normalmente, com fraqueza e
da fraqueza nasce o descrédito que se espalha sobre estes seres com
tanto para dar.
Tenho testemunhado habilidades e
dons que vocês, comuns mortais, nem imaginam.
A maioria das actividades são
feitas em conjunto e os casos que levaram a pessoa fechar-se numa
redoma de quase loucura revelam-na perspicaz e assertiva num
raciocínio analítico, consciente de detalhes que mais ninguém vê
mediante um enigma, sorrindo sinceramente quando tocada por algo que
a faz sentir especial. Vejo isso na psicomotricidade, no
relaxamento, na estimulação cognitiva, na terapia ocupacional, na
participação interessada destas aulas de psicoeducação.
Eu não quero ter alta e muitas das internadas também não. Esse dia é pensado com temor. E embora haja quem
sinta saudades da sua casa e dos que lhes são mais próximos,
nota-se sempre um abatimento quando a novidade é dada pelos médicos.
Funcionamos numa comunidade que aí
fora não existe. O conceito de interajuda é real. Dar apoio a quem
se sente pior, num determinado dia, é verdadeiro. Não há falta de
tempo nem sensações de impotência com o mal estar dos outros.
Os outros que estão por fora
assustam-nos. Eles desconhecem os sintomas que sentimos e a forma
como procuramos estratégias para os resolver. Não compreendem o
esgotamento que nos toma depois de tanto tempo sob emoções
encapeladas. Não vêem para além do seu extremo egoísmo por
dentro da sua vida plástica. Não valem nada. Não sabem nada de
nada.
E é neste preciso ponto que entra o que se designa por
competências sociais e a gestão de conflitos.
Por mim mandava esta gente toda à
merda porque quando me explicam que:
- reflectir
- ouvir a outra pessoa mostrando
compreensão e atenção
- reduzir a hostilidade
- expor a nossa perspectivas
e por fim dar o passo para
- negociar
eu pergunto: mas não foi isso que
tentei desde que nasci? Porque será que desisti de o fazer?
O psiquiatra reforça que prestar
atenção ao que estamos a sentir é o passo inicial para chegar à
capacidade de controlar as emoções e sentimentos ou seja,
autocontrole. O nosso futuro melhorará se não agirmos por impulso.
Este instinto primordial tem a sua
origem na amígdala, localizada no sistema límbico, identificadora
do perigo e que, mediante as situações, nos leva a atacar ou a ser
atacados.
A esta marca de sobrevivência, que
se mantém desde sempre, para que não seja activada de forma
automática, gerando resultados imprevisíveis, deve juntar-se o
exercício de autocontrole a fim de não sermos escravos dos nossos
instintos.
Existe o oposto – autocontrole excessivo – prejudicial pelo bloqueio que causa favorecendo um descontrole no futuro...
Um conflito – prossegue o
psiquiatra - gera sentimentos negativos direccionados à outra pessoa
levando-nos a agir de forma mais agressiva. A capacidade de reflexão
dá-nos algum tempo para saber o que fazer perante as circunstâncias,
mas também depende do estado de espírito em que nos encontramos.
Podemos modelar a nossa forma automática de agir, mas é verdade que não o podemos fazer em relação à forma de agir dos outros. Ao mudarmos a nossa perspectiva e expondo-a podemos chegar ao passo da “negociação”.
Os instintos são inatos. O autocontrole ou força de vontade é o que nos diferencia dos outros animais, permitindo-nos ter controle sobre os instintos:
- autocontrole
Podemos modelar a nossa forma automática de agir, mas é verdade que não o podemos fazer em relação à forma de agir dos outros. Ao mudarmos a nossa perspectiva e expondo-a podemos chegar ao passo da “negociação”.
Os instintos são inatos. O autocontrole ou força de vontade é o que nos diferencia dos outros animais, permitindo-nos ter controle sobre os instintos:
- autocontrole
- compromisso e negociação
- sair de uma situação de stress
- discordar sem discutir
- responder a acusações falsas
Ao reler os apontamentos durante o intervalo concluí que não sei o que fazer com isto. Negociar o quê? O que me foi interdito e continua a ser?
Optei por me afastar de
qualquer tentativa de colocar os meus pontos de vista à consideração
de quem me magoou. Não sei responder a acusações falsas com
autocontrole. O meu instinto diz-me para permanecer longe de quem me
quer alienar.
Recorri ao meu bem amado Teixeira de Pascoaes para nunca me esquecer:
“A
finalidade da vida é a definição da existência. E digo
finalidade, porque todo o esforço da Natureza se dirigiu e dirige
num sentido humano ou consciente. O destino do homem é ser a
consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus. O homem é
ele e o seu habitat. É céu e terra contidos numa definição
espiritual ou consciente. O homem, sonhando, transborda de si mesmo,
amplia o mundo, porque ilumina as suas dimensões desconhecidas. O
sonho é alta temperatura, um estado térmico da alma, a sua
incandescência.
O absoluto é dos
poetas e o relativo é da ciência. O sábio observa, analisa,
decompõe; o filósofo generaliza, dá o conjunto; o poeta dá o
significado anímico das coisas, a sua própria natureza. A essência
das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e
não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade
fria da razão “
É
disto que se trata no nosso mundo invisível, entre as paredes de um
hospital psiquiátrico, de um quarto onde ninguém entra, da nossa cabeça.
Mostramo-lo à nossa maneira.
Mostramo-lo à nossa maneira.
Minha querida, apenas dizer-te que estou, incondicionalmente contigo. Quando posso ir visitar-te, dar-te um abraço... com toda a minha saudade, amizade e empatia. Sempre aqui para o que quiseres de mim. Isabel
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