segunda-feira, 6 de julho de 2009

Mousse de Musafir

Quando cheguei à nossa barraquinha estavam a ser descarregadas caixas de frutas oferecidas por mão amiga. Começámos de imediato a descascar e a cortá-las em pedacinhos. A ementa incluía, graças a esta oferta, a novidade de dois tipos de sangria: champagne e vinho. E uma salada de frutas deliciosa. Da cozinha chegava o aroma da sopa da pedra a acabar de fazer e as sardinhas, vindas de Peniche, estavam a ser colocadas no grelhador a carvão. No outro já se assavam febras e entremeada.

No palco 2 os "Ganhões" de Castro Verde davam início à festa. O Alentejo cantado por quem conhece os sinais da terra e sabe o que é o suor do trabalho. O nosso povo é assim. Alma de artista que traduz a vida, que nem sonhamos, de forma simples e tão profunda. E depois aquelas vozes. Aquelas vozes com o mundo lá dentro, que me trouxeram à lembrança Zazou e as polifonias da Córsega. A primeira vez que ouvi Giramondu achei que era o nosso Alentejo dentro de uma ilha e num dialecto desconhecido.


Voltei de novo para as mesas assim que os jantares começaram a sair. E foi em catadupa, não havia mãos a medir! Já não tinha o tabuleiro amarelo que, de tanta loiça carregar, rachou ao meio. Fui buscar outro, todo florido, que me deu mais segurança nos "lás e cás" entre a copa, bar e mesas. A broa, de tão fresca, dificultava a forma perfeita das fatias. Tentei cortá-la o melhor possível com a faca de serrilha mas, de quando em vez, lá ficava com um bocado a menos...

A ementa, como sempre, saborosíssima. Os doces, um triunfo! De tal forma que em pouco tempo da cozinha avisaram: "baba de camelo foi-se", "acabou a mousse de chocolate", "doce da casa já era", "é preciso avisar no pré-pagamento que a última taça de arroz doce vai para aquela mesa". Consegui salvar, empenhadíssima, uma mousse de manga para uma das minhas mesas, porque até me senti culpada de não ter conseguido arranjar a de chocolate, que me tinham pedido... e fui a tempo. Daí a nada, já nem de manga...

E nesta andança entre sobremesas e cafés chegam os primeiros sons das tablas. Fiquei de ouvido à escuta. Ia adivinhando o que se desenrolava no palco. Num pequeno intervalo fui espreitar e fiquei de olhos vidrados.



No palco principal, um pedaço de Rajastão itinerante. Uma dançarina, qual deusa, equilibrava bilhas de água por cima de copos empilhados na cabeça. As mãos ondulavam num prolongamento do som do harmónio, os movimentos graciosos seguiam a escala complexa do cantor. Fascinante!

Não pude alongar a minha "viagem" e não cheguei a ver o faquir. O movimento gastronómico não diminuía. Havia uma fila considerável à espera de mesa e regressei de imediato assim que os satisfeitos davam lugar aos esfaimados.
Pensei que, se fosse como a dançarina do deserto, o meu tabuleiro podia levar todos os pedidos de uma vez só e mais alguns extras. Mousse de Musafir...

2 comentários:

  1. Fascinada,estou eu com a tua descrição.
    Viajo-me na sangria de champanhe,na "vida traduzida que nem sonhamos,de forma simples e tão profunda",na broa com um pedacinho a menos,nos olhos espelho no cenário,nos satisfeitos cedendo lugar aos esfaimados...

    Vou querer uma mousse de Musafir.
    E florir como o tabuleiro!
    Bj*

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