segunda-feira, 27 de julho de 2009

Por este Almonda acima

Quando nos encontrámos para servir a última refeição sorrimos e brincámos. "Já só falta esta noite... são só mais 7309123747078237 refeições!!!". O cansaço era evidente e estava instalado de todas as formas: olheiras, bocejos, movimentos um pouco mais lentos, pés inchados...
Calhou-me uma mesa com 20 pessoas e confesso que nunca pensei o que era fazer isto até à altura. Dou muito valor a quem faz desta vida a sua profissão e vou pensar 2 vezes antes de me impacientar com um pedido que custa a chegar. Ai vou vou.


Os Funfarra tocaram em vários pontos do recinto chegando a tomar de assalto o lado de dentro de um balcão de pipocas e farturas. Meteram-se com as pessoas, que dançavam à volta deles e lá seguiam caminho com uma procissão "à Hermeto Pascoal".


O palco principal recebeu Teresa Salgueiro e o Lusitânia Ensemble.
Pressente-se o esforço que a Teresa está a fazer para seguir o seu caminho. Vinte e quatro anos nos Madredeus não foram em vão... principalmente no que toca a ser independente e assumir um novo caminho 24 anos depois. Isso tem custos... não me baseio em nenhuma teoria da conspiração, mas tenho quase a certeza que a libertação está a ser complexa... Aplaudo a sua decisão e admiro-lhe a coragem. Sei do que estou a falar e não foram precisos 24 anos nem 24 meses!
No entanto, passou muito tempo e despir velhos hábitos não é assim tão simples.
Teresa permanece esfíngica no palco. Não comunicou com o público. Estava lindíssima (mais do que qualquer outra vez) apresentou o seu reportório de Matriz e La Serena, mas acho que há ainda bastante trabalho de descolagem para fazer em relação ao grupo a que pertenceu.
O cunho clássico e acústico a juntar ao som do acordeão empurram-nos, inevitavelmente, para a atmosfera anterior. Mesmo com temas como Senhora do Almortão, não houve escapatória. E o refrão "olha a laranjinha que caiu caiu", que muita gente acha (eu incluída) não pertencer à canção tradicional, mas sim adoptada por um motivo qualquer de enorme mau gosto, prevaleceu na versão que a Teresa cantou. Mas entendo a sua intenção em Matriz. Entre as canções houve silêncios incómodos e algumas paragens que não percebi. Também não fiquei com a certeza que aquele seria o melhor local para um concerto deste tipo.
A Teresa era uma miúda muito gira que cantava fado nas tascas do Bairro Alto.
Quando ingressou nos Madredeus manteve por pouco tempo essa frescura vocal passando a cantar agudíssimo, com muita técnica e problemas de dicção. Não se consegue seguir uma letra nas gravações posteriores ao 1º álbum.


Aguardo pela emancipação total da Teresa, que se tornou numa bela mulher e torço para que se descubra de outras maneiras.

No palco 2 a Canção de Coimbra proporcionou o momento das expressões nostálgicas e atentas em jeito de conclusão. A despedida, o fim da festa, o começo de outro ciclo, de outra vida. Lembrei-me de Artur Paredes, António Portugal, Francisco Menano, Carlos Paredes, António Brojo, Edmundo Bettencourt, António Menano, Luís Góis, Fernando Machado Soares, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Augusto Hilário... que maravilhas nos deixaram!


Cheguei a casa com uma satisfação imensa. Missão cumprida. Nestes 9 dias aprendi muito, senti ainda mais, revi amigos, conheci outros mundos nas margens do meu Almonda. E que boa música veio por este rio acima!


2 comentários:

  1. Senti a minha vida a
    "Tomar de assalto o lado de dentro de um balcão de pipocas e farturas","independente e a assumir um novo caminho"."Aplaudo a sua decisão e admiro-lhe a coragem":"Despir velhos hábitos" "ao som do acordeão". ("Não fiquei com a certeza que aquele seria o melhor local para um concerto deste tipo"!!!)
    "O começo de outro ciclo, de outra vida"..."uma satisfação imensa"..."Missão cumprida."
    ("Outros mundos nas margens...")

    ;) Beijo

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  2. Margens de outras maneiras onde havemos de chegar ;-)
    Beijo*

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