sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

On the Road


A integração da Paula foi lenta. Falava o indispensável, olhava acima do horizonte, desaparecia misteriosamente no fim das aulas. Era raro participar em alguma actividade dentro ou fora do liceu. Começou a despertar paixões e ódios. Os rapazes desejavam-na pela distância que impunha, as raparigas detestavam-na pelo balanço das ancas. Para umas era provocadora e demoníaca, para outros era a beleza indomável dos livros de Jorge Amado.

Costumava chegar cedo e isolava-se no relvado por baixo duma acácia. Com o tempo as olheiras deixaram de ser castanhas e os olhos verdes ficaram mais luminosos. Diziam que era filha de um militar e da uma lavadeira. Que ele tinha prometido "cabelo di loja" se ela fizesse mais do que lhe lavar as sarjas. Também se especulava sobre a sua origem Himba e toda a gente veio com informações enciclopédicas sobre a sociedade poligâmica liderada pelas mulheres do deserto. Houve quem a tentasse seguir, sem resultado, para saber mais detalhes. Chegava a meio do Jardim da Sereia e era como se transformasse em arvoredo. A época não era propícia a crenças, não quando se defendia o materialismo dialéctico, mas lá bem no íntimo todos achavam que existia algo de sobrenatural naquela criatura.

De novo, na aula da Dr.ª Bacelar, mas desta vez às voltas com a lei de Joule, murmurei à Paula que não era possível a vida ter de passar por aquilo. Ela sorriu com aqueles dentes perfeitos e murmurou:

Já pensaste quantos dariam por estar nesse lugar aí? Sim, no teu… Eu quero ser médica ou cientista, tu quererás ser outra coisa. Há milhares de raparigas que nunca lá irão chegar. Eu e tu podemos.

Com alguma razão, claro - reflecti - mas só isso não resume uma vida - concluí segundo a minha perspectiva

Há quem ache o estudo cansativo e duro, mas ir buscar água a 40 km é muito pior… na aldeia da minha avó angolana era assim que se fazia. 40 km para trazer 2 baldes… o trabalho é uma lei da humanidade e ainda bem que existe. O que faríamos com o tempo? - perguntou num jeito de resposta conhecida.

Mas Paula - atalhei - a própria vida é uma escola, a melhor que se pode ter. Viajar, reflectir, amar, on the road Paula, já leste esse livro? Diz-me como é que Kerouac podia ser o que foi se não tivesse vivido assim? Porque nos impõem as coisas? Porque não somos livres? Porque é que há tantas regras?

Tu vives dentro de uma coisa que não existe. Aliás existe, mas até sabermos o que fazer com ela vai demorar… Mostra-me esse Kerouac, essa estrada sem princípio e fim e eu mostro-te o que é morrer sozinha, o que se faz em nome da intolerância, da cor da pele. Somos 10 etnias e eu nem sou nada porque a minha mistura não se encaixou em nenhum lugar e obrigou-me a sair do meu país, mas sei da terra que precisa de mim, dos que se tornam em pó sem nada, dos que morrem ainda com menos, e do que é preciso fazer para mudar - expôs com um misto de revolta e de esperança.

Eu estava aturdida com as imagens expostas que nem me apercebi do silêncio que se fez à nossa volta e que metia medo.

SIM SENHOR. MUITO BEM. Aplausos para as filósofas da classe. Olhámos para a Dr.ª Bacelar que se debruçava em vénias irónicas à nossa frente. Risos nervosos dispararam em todas as direcções da sala de aula. A minha companheira de carteira olhou para a professora com um ar desencantado. Eu fiquei à espera do desenlace.

Se vocês se interessassem pela matéria como se interessam por essas reflexões existenciais teriam múltiplos 20! O caso é que isso para aqui não interessa nada, não tem a ver com a disciplina, não provém do que acabei de explicar. O que foi que eu expliquei? Não sabem? Eu calculava. Essas cabecinhas não podem estar em dois lados ao mesmo tempo - metralhou enquanto se dirigia à secretária. Pegou no livro de ponto.

Lá vem mais uma falta disciplinar - calculei e bem. Não era a primeira que tinha a infelicidade de mostrar ao meu pai.

"On the road", não? – riu baixinho a Paula.

Sim – respondi à ironia – pelo menos até ao Largo da Portagem…


 
*Música – Born to Run, Bruce Springsteen (Born to Run, 1975)

2 comentários:

  1. Escolher os nossos próprios "professores",as nossas próprias "matérias",as nossas próprias "salas" de aula,de estudo...só desta forma poderíamos ser completos.Livres.
    Existem os que se atrevem...
    O que é feito das convicções ideológicas em prática?
    Correspondemos às expectativas ditas ditadas de ditadura social,para quê?Para sermos todos iguais??E se eu não quiser ser igual aos outros que repúdio? Posso não ser.Mas ainda assim, sujeita às suas leis.Um ser individual,sujeito às leis de outros que não eu.
    Sou a favor da disciplina.Da vida.
    A Paula questionou:"O que faríamos com o tempo?”
    Sei bem o que farei com o meu...
    Se no tempo,me pertencer.
    Parabéns pelas faltas disciplinares.
    20 valores morais!
    Beijo

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  2. (Dia de Ella Maillart e Marie Marvingt.Não podia ser mais apropriado ao estado-desajustado da alma...*)

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