domingo, 19 de maio de 2013

Três semanas depois

Esta semana, o “trabalho de casa” de psicoeducação foi o de procurar sinais precoces de alerta. Quando surgem, por um factor desencadeante qualquer, e não são tratados de imediato, conduzem-nos a uma recaída. Por vezes são sintomas imperceptíveis à nossa avaliação. 
 
Porém, aquilo que me ocorre quando penso em todas as “pré-crises”, é a vergonha e a culpa crescentes por estar de novo no limiar da depressão e falhar no desempenho do que estiver a fazer. O desejo de camuflar esses sinais, para continuar dentro da normalidade que esperam de mim, faz com que não queira saber dos sintomas. Costumo argumentar comigo mesma que vou ter força suficiente para ultrapassar a ameaça eminente, sem ter de voltar ao médico e à medicação. Erro meu. É muito pior.

Segundo os apontamentos que tirei, a dificuldade em dormir é um dos sintomas que pode evoluir para a insónia que, por si só, já é uma forma declarada de recaída.

Tive meses de insónia, ao longo dos anos, que começaram sempre por um certo desconforto em adormecer. Ler até cair para o lado, ver um filme e adormecer antes do fim, (na verdade via 2 a 3 filmes seguidos) jogar solitário até as cartas ficarem desfocadas, pequenos truques para protelar as evidências que se iam avolumando até não haver mais truques para as contornar...
Mas existem outras que rondam o nosso quotidiano:
- sensação de tensão e ansiedade;
- dores de cabeça e músculos contraídos;
- alterações no apetite (comer de mais ou de menos);
- diminuição da necessidade de dormir (na doença bipolar e na psicose é muito comum) indicador de um estado de euforia em que a pessoa fica com bastante energia apesar de não descansar;
- cansaço, isolamento em casa, não ter vontade de estar com outras pessoas, não lhe apetecer conversar, dificuldade em ambientes sociais;
- irritação, conflitos com os outros;
- parar um tratamento por achar que a medicação não está a fazer efeito ou por esquecimento de a tomar (nos casos de euforia a pessoa acha que já não precisa);
- dificuldade de concentração, de atenção nas conversas, estar na “lua”;
- sensação de que os outros estão contra nós, que nos querem prejudicar, mania da perseguição;
- refúgio no álcool e drogas;
- gastos excessivos em compras de forma descontrolada;
- surgimento de ataques de pânico;
- convicção nas capacidades invencíveis e excesso de confiança (na euforia);
- descuido nos hábitos de higiene, usar a mesma roupa;
- praticar uma actividade durante horas (pode ser uma actividade física como estar em frente a um computador);

Quando a pessoa opta por aguentar/ignorar o desconforto que sente, seja por não querer incomodar ninguém e mostrar a sua “parte fraca” ou por acreditar que é capaz de ultrapassar sozinha essa fase menos boa, fica irremediávelmente ferida sem se aperceber da gravidade da situação. Aquilo que acha ser determinação contra a doença é mais uma renda de filé de vulnerabilidade, tecida pela negação. A pessoa não quer pensar, sentir, viver e encarar as causas da depressão. Na verdade, quando decide pedir ajuda é para sair da crise e não para a evitar...

Segundo o psiquiatra, que orienta estas "aulas", havendo um empenhamento no tratamento ou seja, frequentar um grupo de psicoterapia ou outro grupo de apoio, avaliar com o médico um ajuste na medicação, gerir o stress em actividades que distraiam e aliviem quando se nota alguma alteração, praticar diariamente exercício físico,  não se chegará à temerosa recaída, normalmente pior que a anterior...

O plano de prevenção de recaída é como um estojo de primeiros socorros. Com os sintomas identificados pode evitar-se o que não queremos que aconteça.

Para quem quiser, este questionário existe para ajudar a identificar o que sentimos e nos parece difícil resumir.

 

Questionário de Sinais Precoces de Alerta
(adaptação e autorização, Herz and Melville, 2001)


Sinais precoces de alerta
Eu tive estas manifestações ou sintomas
A minha disposição andava aos altos e baixos
Momentos de tristeza profunda alternados com vontade para desempenhar tarefas sem falhar


Tinha imensa energia

não
Tinha pouca energia

sim
Perdi o interesse em fazer coisas

sim
Perdi o interesse na minha aparência ou em me vestir

sim
Sentia-me desanimada em relação ao futuro
Sim e com razão.
Novas  músicas que não se conseguem gravar; concertos condicionados pela situação actual de crise; paragem do projecto de  levantamento do PCI; em suma, perdas de toda a espécie
Tinha dificuldade em concentrar-me e em pensar correctamente

Tinha dificuldade na concentração. Pensar, pensava demais...
Os meus pensamentos eram tão rápidos que eu não conseguia acompanhá-los

não
Tinha medo de ficar louca

Por vezes...
Ficava desconcentrada e confusa com o que estava a acontecer à minha volta
Sim.
Sobretudo estranheza perante o “funcionamento” da sociedade e do mundo

Sentia-me distante da minha família e dos meus amigos
Sim.
Na verdade constatei que não tinha nem família nem amigos verdadeiros

Sentia-me desajustada
Sim.
Não entendia a “linguagem” dos outros perante a vida. Sentia que tinha nascido no momento errado

A religião tornou-se para mim mais importante do que antes
Este sintoma declarou-se inúmeras vezes em crises anteriores, embora    a minha vida tenha andado à volta do transcendente e de um sinal de Deus. Na crise actual o sintoma foi totalmente oposto. Cansei-me. Afastei-me de tudo. Creio que é o que se designa por crise de fé.

Temia que algo de errado estivesse para acontecer
Sim, sobretudo com a saúde dos meus filhos

Sentia que os outros tinham dificuldade em compreender o que eu dizia

Sim.
E isso transformou-se num sentimento de frustração enorme.
Sentia-me só
Sim.
Terrivelmente só e com muito medo dessa solidão.

Sentia-me incomodada por pensamentos dos quais não me conseguia livrar
Pensamentos não. MEMÓRIAS e tudo o que se relacionasse com o passado , sentindo-me profundamente infeliz e revoltada. Levantava-me e deitava-me com essa dor cravada no coração.

Sentia-me submersa em pedidos ou sentia que exigiam demasiado de mim
Nas tarefas caseiras TUDO dependia de mim. Sentia-me cansada ao ponto de descascar uma cebola ser = a uma travessia no deserto a pé e sem água

Sentia-me aborrecida
Sim.
Comigo mesma

Tinha problemas em dormir
Sim.
Trocava as noites pelos dias

Sentia-me mal sem razão aparente
Não

Achava que tinha doenças físicas
Sim.
Tudo doía...

Sentia-me tensa e nervosa
Sim, e com muita vontade de “partir” tudo.

Irritava-me facilmente pela mais pequena coisa
Desesperava por todas as coisas, pequenas e grandes

Tinha dificuldade em permanecer sentada, tinha de andar de um lado para o outro

Não
Sentia-me desanimada e sem palavras
Sim.
As palavras só aconteciam se as escrevesse.

Tinha dificuldade em lembrar-me das coisas
Sim, no que dizia respeito a coisas recentes, não do passado. Esse está bem vivo na memória

Comia menos que o habitual
Sim.
Saltava refeições e quando comia era pouco.

Ouvia vozes e via coisas que os outros não viam nem ouviam

Não
Achava que os outros olhavam para mim ou falavam de mim

Não
Tinha cada vez menos necessidade de dormir

Não
Irritava-me com facilidade

Não
Tinha um excesso de confiança em relação às minhas capacidades

Não
As minhas despesas e os meus gastos aumentaram
Sim.
Atribuía prioridades consumistas ao meu refúgio para permanecer em isolamento o melhor possível: Livros, coisas para a casa, para o bem-estar dos meus animais e das minhas plantas

Outros
Chorar compulsivamente sempre que o assunto se relacionasse com crianças ou animais, fosse em notícia, em filme ou presencial, (numa esplanada, na rua, no supermercado) independentemente de ser uma coisa má ou boa. Se fosse má era choro de injustiça e impotência; se fosse boa era um choro de comoção profunda


Ataques de pânico na rua, diminuição de actividade física, desconsideração por mim mesma (julgamentos, culpas, com enfoque para todas as minhas imperfeições)



A primeira sessão de psicoterapia aconteceu depois de uma manhã um tanto difícil. Por vezes, queremos o silêncio onde não o há e uma voz, como a de uma das doentes, que compulsivamente vai enchendo a sala, a copa e o corredor, pode ser a gota de água. Preciso de silêncio, de não ouvir nada ou o menos possível.

A psicóloga acha-me ainda muito deprimida apesar da medicação e do internamento de mais de 15 dias, mas acredita que este trabalho é necessário para me ajudar a criar outra perspectiva de vida e uma nova forma de me olhar.
Falar do que vivi não vai ser fácil por ter sido muito e intenso. Houve alguém que me disse em tempos que gostava de fazer um filme sobre a minha vida porque matéria não faltava, nem tempos mortos. Pois não. Alguns aconteceram contra a minha vontade, outros porque  permiti mas, no todo quase surreal da minha sobrevivência, o nível de dor ultrapassou os limites. E há muito tempo que vivo assim. Sei que preciso de abrir cada ferida para a cura. Não aguento mais viver neste estado onde nada cabe, onde tudo é sofrimento e eu uma merda.


O internamento é um mundo à parte onde sentimos uma protecção que não existe cá fora. É uma rampa onde iniciamos passo a passo o treino para voltarmos à realidade, mais preparadas e fortalecidas.
A dúvida que me ronda é que passemos por outros episódios mascarados de incompreensão, desconhecimento, ilusão, fingimento, desprezo, esquecimento, e desconsideração de quem não sente empatia por pessoas como nós. Quantas vão conseguir trabalho? Quantas irão encontrar uma relação que as respeite? Quantas serão avaliadas positivamente pelos maridos, filhos e família depois desta luta? Que delicadeza nos será proporcionada para não voltarmos a sofrer assim? Que credibilidade teremos para as nossas vidas prosseguirem? Mas sobre isto não falo quando conversamos em grupo. Vejo-lhes os rostos semi-abertos num vestígio de esperança e não os quero fechar com a minha descrença. 


Uma da sessões de psicomotricidade foi dada na piscina. 
Há mais de um ano que não entrava numa, desde que um ataque de pânico desconcertante ditou que não havia mais piscina para meu prazer. Não compreendi porque aconteceu, eu que adoro água e preciso dela para me equilibrar, mas conformei-me e deixei de pensar que existiam piscinas. O pânico venceu-me. 
Perguntaram-me se eu gostaria de experimentar, hesitei, mas se me acontecesse de novo teria quem cuidasse de mim. E arrisquei. Que bom ter ido.

Senti de novo o terno acolhimento da água, que me aquietou quanto à ameaça panicosa. Senti-me leve, tranquila, sem espaço para as emoções mais renitentes, as minhas pernas voltaram a ser asas, os meus braços livres de peso, e os movimentos de uma doçura infantil. 
Brincar na água é bom. Quando dava banho aos meus filhos ou quando íamos para a praia a água produzia sons felizes. O cansaço que mais tarde sentia era reconfortante e as imagens dos risos chapinhados ofereciam-me um sono feliz. A terapia finalizou com uma sessão de watsu que me fez adormecer.  Há muito que não sentia este bem-estar.
O watsu é como o shiatsu, mas na água. O relaxamento que proporciona é tão profundo que se pode descobrir um estado harmonioso até então desconhecido. Chegar a esse estado é o mesmo que encontrar uma pérola no fundo mais fundo do mar. A generosidade deste momento acompanhou-me o resto do dia.
E porque se deu início a uma actividade, horas depois, que não condizia com o meu estado de graça, fugi para uma sala onde pude ficar a ler sem ouvir nada.
Na verdade, o grupo de enfermeiros estagiários, que chegou há dois dias, está a fazer o seu melhor para nos acompanhar. Mas a ideia de formar uma tuna, com indumentária própria, ensaios de canções e execução de instrumentos é tudo o que não quero.

A enfermeira chefe, mulher com olho clínico e sensibilidade, propôs um trabalho sobre a história da cidade que me aliciou de imediato e a mais três colegas do internamento. Vai ser necessário pesquisar em livros de História e Geografia e consultar mapas da região. A M. que é perita neste departamento sobre  superfícies terrestres, propôs a requisição de cartas militares para estudarmos as linhas de água que predizem a forma como a cidade se foi formando, para além de muitos outros pormenores importantes que só as cartas militares possuem. Duas das estagiárias decidiram acompanhar-nos neste projecto, que para mim já voa alto: a realização de um mapa devidamente sinalizado com o que deixou de existir (monumentos, bairros étnicos, mesquita, sinagoga, portas, enfim, tudo o que desapareceu para dar lugar ao novo...) e colocá-lo à disposição de quem  quiser saber onde foi o quê.

Ficámos a falar sobre o assunto sem dar conta do tempo. É necessário ir aos núcleos museológicos, à biblioteca, ao turismo, aos monumentos, caminhar um pouco pela cidade com o apoio das enfermeiras, claro. Isto revela motivação no meio da inércia que a depressão provoca e isto só foi possível porque há profissionais que percebem a necessidade de cada doente. Se para algumas a cantoria é terapêutica, para outras é uma tortura. 
E eu não tenho vontade nenhuma de cantar. Nenhuma.

 

1 comentário:

  1. Acredito que por cada lágrima que lembres, existam dois sorrisos que te esqueces! :)
    Muita força pôrra!!!
    Doí-me ver-te assim.Não é mentira.É ternura.É mais do que isso.O mundo também tem coisas bonitas e algumas aprendi contigo, portanto, por mais longo e penoso que possa parecer (e é) o caminho,a flôr que se abeira, o passarinho que se senta nas folhas,o abraço apertadinho de um(a) tótó!,anunciam e proclamam sinais de cor, afinal nem tudo é cinzento!!...
    Não é fácil.Não. Mas também acredito,de coração,não ser um fim. Beijo *

    ResponderEliminar

Dentro da nave

Astronomy Picture of the Day